Em agosto de 2004 aceitei o convite de Alexander, 4L5A, para ajudar na atualização de hardware da sua superstation D4B/D44TT antes do WAE CW. A viagem até Cabo Verde provou ser tão incomum quanto a própria ilha: voos com várias escalas, esperas prolongadas e um pouso noturno em Sal com apenas um passageiro desembarcando. A partir daí seguiu-se um trecho para Mindelo, na ilha de São Vicente, onde encontrei Carlos (D44AC), parceiro local e figura conhecida na cidade.
A jornada até o QTH em Monte Verde não foi simples. Chuvas incomuns haviam provocado enxurradas e bloqueado estradas, exigindo tentativas frustradas de subida com veículos presos em lama densa. Em uma das investidas, Carlos só conseguiu sair depois de convencer as autoridades locais a enviar um trator; noutra, um jumento foi mobilizado para tentar puxar o carro. Acabei subindo a pé em um trecho de 40 minutos, chegando à estação envolta em névoa espessa — cenário que se tornaria comum nas manhãs na crista da montanha.
Mindelo, a segunda maior cidade de Cabo Verde, é um centro cultural de menos de 100 mil habitantes onde se fala principalmente português com sotaques locais. Em agosto o clima estava ameno, perto dos 28 ºC com alguma humidade — e, após as chuvas atípicas, ruas varridas por lama e esforços militares para reabrir vias. A cidade tem características curiosas: a areia para construção vem do outro lado do Atlântico, trazida por ventos do Saara; água potável é muitas vezes importada, e a água dessalinizada é usada para serviços domésticos.
O Hotel Porte Grande, onde fiquei, dá para a praça central, ponto de convívio noturno onde famílias se reúnem ao som de música. A atmosfera é descontraída, mas a logística de transporte e abastecimento em ilhas vulcânicas revela a fragilidade da infraestrutura local — um contraste nítido com a sofisticação técnica que encontrei mais acima, no Monte Verde.
A localização da D4B é, por si só, um trunfo. A estação fica num terraço de Monte Verde com um declive quase vertical de mais de 500 metros para o norte, oferecendo abertura direta sobre o Atlântico e visada praticamente livre em boa parte do hemisfério norte. As antenas estão posicionadas a poucos metros dessa crista, tornando o sinal impressionante nas direções de Europa, Norte e América do Sul.
O conjunto técnico inclui três quads multibanda (40/20/15/10 m) e suportes de 40 m para quads de três elementos direcionados à Europa e à América do Norte. Dois dipolos para 160 m atravessam a encosta e parte de um deles termina aproximadamente 600 m acima do solo — uma instalação dramática e incomum. Há ainda uma torre comercial que serve como ponto de sustentação e multiples infraestruturas para comutar antenas e filtros.
A casa que abriga o rádio é uma construção simples de dois quartos com uma sala de rádio ampla, cozinha e uma sala de gerador. A eletricidade diária vem da rede local, mas durante contestes a estação opera a partir de um gerador trifásico de 85 kVA que pode ser acionado remotamente. Todos os equipamentos têm aterramento centralizado, e não há sinais de RFI no shack — prova de atenção aos detalhes na instalação elétrica e de RF.
O rádio principal de operação era um par de IC-7800 configurados em SO2R (Single Operator Two Radios) com interligação ao Super Combo Keyer II. Array Solutions StackMatchs fazem o casamento entre uma multiplicidade de antenas e os dois rádios; filtros de banda e unidades de comutação controlam as fontes e protegem os equipamentos.
O espaço tem um ar simples: cadeiras de plástico empilhadas servem como assentos para operar por longos períodos — um curioso contraste entre o alto nível técnico da instalação e práticas cotidianas bem modestas. Ainda assim, a ergonomia do shack era suficiente para suportar operações de 48 horas com taxas de contato elevadas, desde que a operação fosse conduzida com disciplina e conhecimento do software (TRLog) e do keyer.
Alexander, conhecido como Al, é um operador que transformou a D4B em referência mundial em pouco tempo. Nascido na região do Cáucaso, teve carreira precoce em teleimprensa de alta velocidade e foi campeão regional na juventude. Após anos dedicados a empreendimentos de telecomunicações e uma breve ausência do hobby, retornou em força a partir de 2002, quando começou a construir a superstation em Monte Verde.
Os resultados falam por si: recordes mundiais em várias categorias (WPX, CQ160, CQWW, ARRL e WAE) entre 2002 e 2004, muitas vezes batendo próprias marcas. Parte do diferencial de Alex é combinar competências clássicas de telegrafia com ferramentas modernas de automação e controle de antenas, além de uma enorme capacidade de operar longos períodos quase sem pausa.
Um dos momentos mais impressionantes da visita foi ver Alex adotar técnicas avançadas de SO2R, incluindo o recurso de Dual CQ. Em testes práticos, com 25 W em cada rádio, ele rapidamente colocou duas pilhas de chamadas simultâneas em 10 m e 15 m, chegando a picos de taxas próximas a 200 QSO por minuto no conjunto e mantendo uma proporção de cerca de 60/40 entre as duas estações. Esse modo de operar não foi o clássico uso do segundo rádio para buscar multiplicadores, mas sim o controle simultâneo de duas pilhas — uma técnica muito eficaz quando se tem sinais fortes e antenas privilegiadas.
Nos logs do WAE CW de 2004, por exemplo, observou-se que aproximadamente 1.000 dos 2.800 QSO foram feitos no segundo rádio, demonstrando a capacidade de operação paralela e eficiente de Alex, ainda que ele tivesse até então pouca prática com múltiplos rádios simultâneos.
Apesar da alta tecnologia, a operação depende muito do apoio local. Carlos (D44AC) é o braço direito de Alex na ilha: conhecido e querido em Mindelo, ele cuida da logística durante os contestes e garante que o operador não passe necessidade. A comunidade no entorno da estação também contribuiu em obras civis e transporte de materiais, pois quase tudo foi importado.
Pequenos detalhes humanos marcaram a visita: desde a improvisada cadeira de plástico até o esforço para manter o gerador e a cozinha funcionando durante as longas operações. A humildade desses elementos contrasta com o desempenho no ar, sublinhando que sucesso em contestes depende tanto de técnica quanto de pessoas dedicadas nos bastidores.
Após as melhorias implementadas em agosto de 2004, incluindo atualização de comutação e integração entre radios e keyer, Alex alcançou um claimed score de 3,2 milhões no WAE CW 2004 — um resultado notável para a história do contesting. Grande parte desse sucesso veio da combinação entre posicionamento geográfico excepcional, antenas bem projetadas, preparação elétrica/terra adequada e a habilidade técnica do operador.
Mais do que números, a visita mostrou como uma estação em local remoto pode superar limitações logísticas com engenharia cuidadosa, apoio local e operadores talentosos. A D4B transformou-se rapidamente num padrão de excelência em contestes, com lições aplicáveis a operadores e equipes em qualquer lugar do mundo.
Ao deixar Monte Verde, ficou a impressão de uma operação humilde na aparência, mas formidável na prática — onde convicção, técnica e um cenário natural privilegiado se combinaram para produzir resultados de nível mundial.
Créditos das fotos e relatos: ZS4TX (2004), material e apoio local D44AC.
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