Por PY2CER — Carlos Rincon, Radioamador licenciado pela ANATEL. Publicado em Antena Ativa – Portal do Radioamador.
Existe uma pergunta que recebo quase toda semana no clube e nas redes sociais: “Qual HT eu compro?” Depois de anos operando com rádios dos mais variados fabricantes — desde um Baofeng que durou menos que a garantia até um Kenwood TH-D74A que ainda funciona perfeitamente após sete anos de uso intenso —, aprendi que essa pergunta não tem uma única resposta certa. Ela tem várias, dependendo de onde você mora, como pretende operar e quanto está disposto a investir.
Este guia foi escrito para ajudar o radioamador brasileiro a navegar por essa decisão em 2026, um ano em que o mercado de HTs nunca esteve tão rico em opções — e tão cheio de armadilhas para quem não conhece as diferenças entre os modos digitais. Vamos do analógico básico até os rádios com D-STAR, C4FM, DMR e APRS integrado, com preços em reais e uma visão honesta sobre o que vale a pena no contexto nacional.
Aviso importante: para transmitir legalmente no Brasil, você precisa do COER (Certificado de Operador de Estação de Radioamador) emitido pela ANATEL, de uma Licença de Funcionamento de Estação ativa e de um equipamento devidamente homologado. Portanto, antes de decidir o rádio, regularize sua situação junto à agência.
O cenário mudou. Até meados da década de 2010, a decisão era simples: Yaesu, Icom ou Kenwood para quem tinha dinheiro, Baofeng para quem não tinha. Hoje, a fragmentação dos protocolos digitais criou ecossistemas separados que não conversam entre si nativamente.
Um rádio C4FM da Yaesu não acessa repetidoras D-STAR da Icom sem um hotspot. Um HT DMR não entra em uma rede System Fusion. Essa realidade transforma a pergunta “qual o melhor HT?” em uma pergunta mais precisa: qual o melhor HT para as repetidoras disponíveis na minha cidade?
Antes de comprar qualquer coisa, consulte o RepeatBook Brasil e identifique quais modos estão ativos na sua região. Isso sozinho já elimina metade das opções — e evita o erro mais caro que um radioamador pode cometer.
Nenhuma discussão sobre HTs começa sem o Baofeng UV-5R. Com preço entre R$ 80 e R$ 150, ele continua sendo o rádio portátil mais vendido do mundo — e isso não é sem razão. Para quem está estudando para a prova do COER, quer escutar repetidoras locais ou precisa de um rádio reserva para emergências, o UV-5R cumpre sua função com folga.
O problema começa quando as expectativas crescem além do que o hardware consegue entregar. Já vi UV-5Rs pararem de funcionar após uma chuva moderada, porque a proteção contra intempéries é praticamente inexistente. O áudio em TX deixa a desejar em ambientes com ruído. E a estabilidade de frequência ao longo do tempo não acompanha os padrões japoneses.
Modelos Baofeng disponíveis no Brasil em 2026:
Atenção à homologação: a maioria dos Baofengs vendidos no Brasil não vem com homologação comercial da ANATEL. Você precisará homologar o aparelho individualmente pelo portal Mosaico, processo gratuito para radioamadores com COER ativo. Revendedores como a Casa do Baofeng oferecem alguns modelos com homologação inclusa — vale verificar antes de comprar.
Quando um radioamador decide que quer qualidade japonesa sem entrar no mundo digital, o Yaesu FT-65R é a resposta óbvia. Depois de anos usando rádios mais simples, foi com o FT-65R que entendi o que significa um HT bem construído: o botão de volume tem a resistência certa, o áudio no alto-falante é limpo, e a certificação IP54 com conformidade MIL-810 não é marketing — é diferença real quando chove no meio de uma ativação de campo.
O rádio opera em VHF e UHF com 5 W de potência, pesa 255 g com bateria e custa entre R$ 900 e R$ 1.300 em revendedores autorizados. Já vem com homologação ANATEL quando adquirido de canais oficiais. Para o radioamador brasileiro intermediário que não quer se preocupar com repetidoras digitais, é a melhor compra de 2026.
O Yaesu FT-60R, modelo mais antigo mas ainda em produção, continua sendo uma excelente pedida no mercado de usados — especialmente pela reputação de durabilidade absurda que construiu ao longo de duas décadas.
A Icom posiciona seus HTs analógicos no topo da pirâmide de resistência. O IC-V86 opera exclusivamente em VHF com 7 W de potência — a maior de qualquer HT nessa categoria — com certificação IP67, o que significa submersão em até 1 metro d’água por 30 minutos. Custa entre R$ 1.200 e R$ 1.800 e é a escolha natural para quem opera primariamente em 2 m.
O IC-T10, lançamento recente, expande o alcance para dual band (VHF + UHF) com 5 W, mantendo o IP67 e a conformidade MIL-810G em um corpo de apenas 260 g. Com preço entre R$ 1.400 e R$ 2.100, é atualmente o HT mais resistente disponível na sua faixa de preço. Para atividades ao ar livre, expedições ou uso em ambientes agressivos, ele não tem rival direto.
Poucos mencionam o Kenwood TH-K20A, mas ele merece atenção. VHF puro, 5,5 W, construção sólida típica da Kenwood e preço entre R$ 800 e R$ 1.200. Para o radioamador que opera exclusivamente em 2 m e quer confiabilidade sem complicação, é uma pedra preciosa pouco valorizada no mercado brasileiro atual.
O Yaesu VX-6R fecha a categoria analógica como o único tribanda (VHF + UHF + 220 MHz) acessível, resistente à água e simples de operar — ideal para quem quer versatilidade máxima sem entrar no universo digital.
O C4FM é o protocolo digital proprietário da Yaesu, comercializado sob o nome System Fusion. Ele oferece voz digital com qualidade nitidamente superior ao FM analógico e integração com a rede WIRES-X, que funciona como uma ponte via internet entre repetidoras ao redor do mundo.
No Brasil, a rede System Fusion cresce consistentemente — com maior concentração no eixo SP–RJ–MG, mas com expansão visível para o Sul e Nordeste. Antes de investir em qualquer rádio C4FM, confirme se há repetidoras ativas e frequentadas na sua QTH.
O FT-70DR é onde a maioria dos radioamadores brasileiros dá o primeiro passo no mundo digital, e com razão. É o HT mais barato da linha Fusion, com suporte completo ao C4FM, 5 W em VHF e UHF, certificação IP54 e MIL-810, e preço entre R$ 1.800 e R$ 2.800 no mercado nacional.
Ele não tem GPS integrado nem tela colorida — recursos que o posicionam claramente como entrada. Mas para operar em repetidoras C4FM locais com qualidade de áudio digital, faz tudo o que precisa ser feito, sem frescura.
O salto para o FT-5DR traz uma lista generosa de recursos: tela colorida, GPS integrado, APRS nativo (incluindo operação como digipeater), receptor de 500 kHz a 1 GHz e suporte completo ao System Fusion. Custa entre R$ 2.500 e R$ 3.800.
É importante notar que o APRS do FT-5DR, embora funcional, não é tão refinado quanto o implementado nos rádios Kenwood. Para quem quer APRS como função principal, veremos adiante por que o caminho passa pela Kenwood. Para quem quer um rádio C4FM completo com rastreamento GPS como recurso adicional, o FT-5DR é excelente.
O FT-3DR, geração anterior, ainda circula no mercado de usados com boa relação custo-benefício para quem quer entrar no C4FM com APRS sem pagar preço de lançamento.
Anunciado no Ham Fair 2025, o FTX-1F representa o estado da arte em HT C4FM: tela touchscreen, Wi-Fi, Bluetooth, APRS completo, proteção contra água e suporte integral ao System Fusion. É o HT portátil mais avançado da Yaesu e chegou ao mercado para disputar palmo a palmo com os flagships da Icom e Kenwood. Os preços no Brasil ainda não estabilizaram completamente, mas espere valores na faixa de R$ 4.500–6.000.
O D-STAR (Digital Smart Technologies for Amateur Radio) foi desenvolvido pela JARL e é hoje operado principalmente pela Icom. Sua grande vantagem é a rede de reflectores globais, que permite comunicação com radioamadores em qualquer lugar do mundo via internet — sem necessidade de hotspot próprio, desde que haja uma repetidora D-STAR linkada por perto.
O ID-50A é o HT D-STAR mais acessível disponível em 2026, com preço em torno de R$ 2.200–3.000 no Brasil. Opera em VHF e UHF com 5 W, tem tela colorida, GPS integrado e suporte ao Modo Terminal — que permite acessar reflectores D-STAR usando apenas o smartphone como gateway, sem precisar de repetidora física por perto.
Para cidades sem infraestrutura D-STAR local, o Modo Terminal transforma o ID-50A em uma ferramenta muito mais versátil do que parece à primeira vista.
O ID-52A é, na minha avaliação, o melhor HT D-STAR disponível hoje para a maioria dos operadores. A tela grande colorida é a melhor da categoria, o receptor é amplo e sensível, o GPS é preciso, e a integração com D-STAR e APRS é madura e confiável. Custa entre R$ 3.500 e R$ 5.000 dependendo da versão (padrão, Plus ou edição 60 anos — as diferenças entre elas são mínimas, limitadas a estética e conectividade USB-C nos modelos Plus).
Para D-STAR, o ID-52A é a escolha definitiva em 2026. O ID-51A Plus2, geração anterior, ainda é encontrado em estoque e no mercado de usados — uma boa opção para quem quer funcionalidade D-STAR completa com orçamento menor.
O APRS (Automatic Packet Reporting System) combina GPS, rádio pacote AX.25 e a rede internet para criar um sistema de rastreamento e mensagens em tempo real. No radioamadorismo brasileiro, o APRS tem uso crescente em eventos de longa distância, comboios, atividades de campo e comunicações de emergência via defesa civil.
Para APRS nativo em HT, não existe fabricante que chegue perto da Kenwood. É um julgamento técnico, não preferência de marca.
O TH-D74A foi o primeiro HT a combinar APRS completo e D-STAR em um único corpo. Lançado em 2016, ainda é encontrado no mercado de usados por R$ 2.500–4.000 — e continua sendo uma das melhores compras possíveis para quem quer os dois recursos. O APRS é rico em funcionalidades: digipeater, iGate, meteorologia, mensagens, e filtros de áudio ajustáveis em TX e RX que fazem diferença real em operação de campo.
O TH-D75A é, sem muita contestação, o HT mais completo disponível hoje. Tribanda (144/220/430 MHz), D-STAR, APRS com GPS integrado, capacidade de receber dois sinais D-STAR simultaneamente, Modo Terminal para acessar reflectores sem hotspot via USB ou Bluetooth, e construção premium em um corpo ergonômico.
O ponto fraco? O preço. Com valores entre R$ 3.800 e R$ 5.000 no Brasil, é um investimento sério. Mas para o radioamador que quer um único aparelho para as próximas décadas, sem compromisso, o TH-D75A entrega exatamente isso.
A comparação com o ID-52A da Icom é inevitável: o Kenwood vence em APRS e ergonomia; o Icom contra-ataca com tela maior e interface mais intuitiva para iniciantes. Nenhum dos dois decepciona — a escolha depende de priorizar rastreamento (Kenwood) ou interface e tela (Icom).
O DMR (Digital Mobile Radio) é o protocolo digital mais popular fora do Japão e tem enorme presença no Brasil via redes BrandMeister e DMR-MARC. Ao contrário do D-STAR e C4FM, o DMR não pertence a nenhum fabricante — o que gerou um mercado com muitos fabricantes chineses de qualidade variável e alguns japoneses.
O AnyTone AT-D878UVII Plus é o rádio DMR mais recomendado pela comunidade em 2026, e com razão. Tela colorida, GPS integrado, suporte a APRS (via DMR), construção razoavelmente sólida e preço entre R$ 1.400 e R$ 1.900. A programação via software é um pouco complexa inicialmente, mas há enorme comunidade online com tutoriais e codeplugs prontos para as redes brasileiras.
O Radioddity GD-88 é uma alternativa com tela maior e funcionalidades similares, para quem prefere uma interface mais espaçosa. O Alinco DJ-MD5 XTG fecha o trio de recomendações com GPS e APRS completo — uma marca japonesa respeitada que costuma passar despercebida nas discussões sobre DMR.
Ao longo de anos de convivência com a comunidade de radioamadores, os erros abaixo aparecem com uma regularidade que cansa:
| Modelo | Protocolo | Preço (BRL) | IP | APRS | Recomendado para |
|---|---|---|---|---|---|
| Baofeng UV-82 | Analógico | R$ 150–350 | Nenhum | Não | Iniciantes, uso casual |
| Yaesu FT-65R | Analógico | R$ 900–1.300 | IP54 | Não | Intermediário geral |
| Icom IC-T10 | Analógico | R$ 1.400–2.100 | IP67 | Não | Uso ao ar livre intenso |
| Yaesu FT-70DR | C4FM | R$ 1.800–2.800 | IP54 | Não | Entrada no digital Yaesu |
| AnyTone D878UVII+ | DMR | R$ 1.400–1.900 | Nenhum | Via DMR | Redes BrandMeister |
| Icom ID-50A | D-STAR | R$ 2.200–3.000 | IP54 | Sim | Entrada no D-STAR |
| Yaesu FT-5DR | C4FM | R$ 2.500–3.800 | IP54 | Sim | C4FM completo com GPS |
| Kenwood TH-D75A | D-STAR | R$ 3.800–5.000 | IP54 | Sim (nativo) | Melhor APRS disponível |
| Icom ID-52A | D-STAR | R$ 3.500–5.000 | IP54 | Sim | Melhor tela e D-STAR |
Preços estimados no mercado brasileiro — abril de 2026. Variações de câmbio e disponibilidade afetam os valores.
1. Verifique sua situação legal primeiro. COER ativo? Licença de Estação em dia? Sem isso, qualquer rádio é um problema jurídico esperando acontecer.
2. Mapeie as repetidoras da sua região. Acesse o RepeatBook e identifique quais modos (analógico, C4FM, D-STAR, DMR) estão ativos e frequentados.
3. Defina o seu uso principal. Operação local em VHF/UHF? Comunicação digital em longa distância? Rastreamento APRS em atividades de campo? Cada resposta aponta para um perfil diferente de rádio.
4. Estabeleça um orçamento real. Inclua acessórios (antena melhorada, carregador rápido, capa protetora) e eventualmente um hotspot caso opte por digital sem repetidoras locais.
5. Consulte a comunidade local. Clubes de radioamadorismo, grupos no Telegram e fóruns como o PY-QRP têm radioamadores com experiência prática no contexto brasileiro — use isso.
Preciso de licença para usar um HT no Brasil? Sim. Para transmitir em frequências de radioamadorismo, você precisa do COER (Certificado de Operador de Estação de Radioamador), de uma Licença de Funcionamento de Estação ativa e de equipamento homologado pela ANATEL. Escutar é permitido sem licença; transmitir, não.
Baofeng é ilegal no Brasil? Não é ilegal possuir ou comprar um Baofeng. Mas para transmitir legalmente, o aparelho precisa estar homologado na ANATEL — o que na maioria dos casos exige que o próprio radioamador faça a homologação individual pelo portal Mosaico.
Qual a diferença entre D-STAR e C4FM? São dois protocolos digitais incompatíveis entre si. D-STAR foi desenvolvido pela JARL e é implementado pela Icom; C4FM (System Fusion) é o protocolo proprietário da Yaesu. Um rádio de cada sistema não se comunica diretamente com o outro sem um gateway ou hotspot.
O que é APRS e para que serve? APRS é o Automatic Packet Reporting System — um protocolo que combina GPS, rádio pacote e internet para transmitir posição em tempo real, mensagens curtas e dados meteorológicos. É amplamente usado em eventos, comboios, atividades de campo e comunicações de emergência.
Vale a pena comprar HT usado? Sim, especialmente para modelos japoneses de qualidade (Kenwood, Yaesu, Icom). Um TH-D74A ou FT-3DR bem conservado oferece excelente relação custo-benefício. Evite Baofengs usados — o desgaste é rápido e não compensa o risco.
O que é um hotspot e quando preciso de um? Um hotspot é um dispositivo que conecta seu HT à internet via Wi-Fi, permitindo acessar redes D-STAR, C4FM ou DMR mesmo sem repetidoras locais. Equipamentos como o OpenSpot 4 ou MMDVM são populares na comunidade. Se você mora em área sem repetidoras digitais, o hotspot é praticamente obrigatório para aproveitar um rádio digital.
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