Por Carlos Rincon — PY2CER | Radioamador, colecionador de rádios militares e estudioso do radioamadorismo brasileiro
Há alguns anos, durante um leilão de material excedente do Exército em São Paulo, me deparei pela primeira vez com um exemplar do EB11-RY20/ERC. Estava empoeirado, com a pintura caqui desbotada pelo tempo, mas os conectores ainda brilhavam. Peguei aquele transceptor nas mãos e senti o peso de uma história inteira de engenharia nacional — algo que poucos equipamentos militares conseguem transmitir com tanta clareza.
Esse rádio não é apenas um objeto de coleção. Ele é um documento vivo de uma época em que o Brasil decidiu que não dependeria mais de tecnologia estrangeira para comunicar seus soldados no campo de batalha.
Para radioamadores como nós — acostumados a discutir ganho de antena, ROS e propagação ionosférica — o Rádio Militar EB11-RY20/ERC representa algo fascinante: a intersecção entre eletrônica tática, engenharia de RF de alta performance e o pioneirismo industrial brasileiro dos anos 1970 e 1980.
Neste guia completo, vou levar você por dentro desse equipamento: da sua origem histórica até os detalhes técnicos que o tornam tão interessante para colecionadores e entusiastas de rádio. Se você já ouviu falar do RY-20 e quer entender de verdade o que ele representa, está no lugar certo.
Para entender o RY-20, precisamos voltar ao contexto que o gerou. Até meados do século XX, o Exército Brasileiro dependia fortemente de equipamentos de comunicação importados — principalmente de origem americana. Rádios como o PRC-6 dos Estados Unidos eram o padrão nas comunicações táticas brasileiras, uma realidade que colocava o Brasil em posição de vulnerabilidade estratégica.
A Fábrica de Material de Transmissões (FMT), criada em 1934 no Quartel-General do Exército no Rio de Janeiro, foi o primeiro passo concreto para mudar esse cenário. A intenção era clara: desenvolver capacidade técnica nacional para produzir e manter os próprios meios de comunicação das Forças Armadas.
Com o tempo, essa fábrica evoluiu, mudou de nome e de endereço, mas nunca abandonou sua missão. Quando a IMBEL (Indústria de Material Bélico do Brasil) foi criada pela Lei Federal nº 6.227 de 1975, a então Fábrica de Material de Comunicações passou a integrar essa nova estrutura como Fábrica de Material de Comunicações e Eletrônica — FMCE, sediada no Rio de Janeiro.
Foi nesse ambiente de afirmação industrial e tecnológica que o EB11-RY20/ERC nasceu.
A segunda metade dos anos 1970 e o início dos anos 1980 foram um período extraordinário para a indústria de defesa brasileira. O governo investia pesado em autonomia tecnológica — daí surgiram projetos como o avião Tucano, os blindados Urutu e Cascavel, e toda uma nova geração de equipamentos de comunicações militares nacionais.
O RY-20 foi desenvolvido nesse exato período, provavelmente entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, como parte de um esforço coordenado para equipar as forças terrestres brasileiras com transceptores táticos de produção 100% nacional.
Isso significa que, quando você segura um exemplar do RY-20, está tocando em um artefato de uma das mais ambiciosas iniciativas tecnológicas militares da história brasileira.
A designação EB11-RY20/ERC carrega informação técnica e organizacional em cada caractere. Vamos decodificar:
Na documentação técnica oficial (identificada pelos códigos TII-1201/02 e TII-1203/04), o equipamento aparece também sob a designação de conjunto EB11-MY20/ERC, que inclui todos os acessórios e periféricos que compõem o sistema completo.
A classificação Grupo 1 é relevante para quem coleciona rádios militares brasileiros, pois define o perfil de emprego tático do equipamento. Rádios do Grupo 1 são aqueles projetados para comunicações no nível mais básico do campo de batalha — entre soldados, esquadras e pelotões.
Isso implica requisitos bastante exigentes de projeto:
Todos esses requisitos aparecem claramente na arquitetura do RY-20, como veremos a seguir.
O EB11-RY20/ERC opera na faixa de VHF, cobrindo de 30 a 75,95 MHz em dois segmentos distintos:
Para um radioamador, essa faixa é muito familiar — ela cobre boa parte da faixa de 6 metros (50–54 MHz) e inclui o segmento VHF usado historicamente por forças militares de todo o mundo para comunicações táticas de curto e médio alcance.
A modulação utilizada é FM (Frequência Modulada), escolha que oferece excelente qualidade de áudio em comunicações de curto alcance e boa resistência a ruídos impulsivos — características fundamentais em ambientes operacionais.
Um dos aspectos mais sofisticados do RY-20 é seu Sistema Sintetizador de Frequências (SSF). Em vez de usar cristais individuais para cada canal — solução mais simples e barata, porém inflexível — os engenheiros da FMCE optaram por um sintetizador controlado por malha de fase (APC — Automático de Controle de Fase).
O coração desse sistema é o módulo A39, que abriga o VFO principal (Oscilador de Frequência Variável), com variação entre 41,50 e 64,45 MHz. Esse VFO é a referência de frequência para todo o sistema, e sua estabilidade é garantida pelo laço APC.
Para radioamadores acostumados com SDRs e rádios modernos, esse tipo de arquitetura pode parecer simples. Mas para a tecnologia da época — com transistores de junção e circuitos analógicos discretos — implementar um sintetizador estável em campo era um feito notável de engenharia.
A Frequência de Intermediária (FI) do receptor é de 11,5 MHz, com filtro passa-faixa dedicado que garante a seletividade necessária para operar em ambiente com múltiplos emissores simultâneos.
O RY-20 foi projetado para operar com a tensão padrão de veículos militares: 12 VCC. Internamente, porém, os circuitos exigem tensões diferentes. Para resolver isso, o equipamento incorpora o Conversor KV-22, que eleva a tensão de entrada para 25,5 VDC, alimentando os estágios de potência de transmissão e os amplificadores de RF.
Além disso, reguladores internos derivam tensões de 9,5 VCC, 10 VCC e 3,5 VCC para alimentar os diferentes subsistemas — sintetizador, receptor, processamento de áudio e lógica de controle.
Essa multiplicidade de tensões reguladas demonstra o cuidado no projeto para garantir estabilidade de operação independente das variações da bateria do veículo — condição comum no campo de batalha.
Se há um aspecto do RY-20 que impressiona qualquer engenheiro de RF ou técnico de eletrônica, é sua arquitetura modular. O equipamento é dividido em dezenas de módulos independentes, cada um com função específica e conector padronizado.
Isso não é um detalhe cosmético — é uma decisão estratégica de projeto com implicações táticas profundas.
Em um cenário de combate, um rádio que queima não pode esperar uma bancada de laboratório. A ideia por trás da modularidade é simples e genial: o técnico de manutenção identifica qual módulo falhou, substitui pelo sobressalente e o rádio volta a operar. Em minutos, não em horas.
O caminho do sinal de rádio, desde a antena até o alto-falante, passa por uma cadeia bem definida de módulos:
A28 — Rede de Casamento de Antena: Primeiro contato do sinal com o equipamento. Adapta a impedância de diferentes tipos de antena (curta ou longa, banda alta ou baixa) para a impedância de entrada do receptor. Opera com indutor variável e capacitores comutáveis, selecionados pela chave S1.
A32 — Entrada do Receptor: Estágio de entrada com filtros de pré-seleção e circuito de comutação entre TX e RX, controlado pelo relé K1.
A33 e A34 — Amplificadores de RF: Dois estágios de amplificação de radiofrequência que elevam o nível do sinal recebido antes da conversão de frequência.
A35 — Misturador do Receptor: Combina o sinal de RF com o sinal do VFO para gerar a FI de 11,5 MHz.
A21 — Amplificador e Limitador de FI: Amplifica e limita o sinal em FI, preparando-o para a demodulação FM.
A54 — Limitador de Ruído por Tom: Um dos módulos mais engenhosos do projeto. Utiliza um tom de 150 Hz como “senha” para habilitar o áudio. O receptor só abre o áudio quando detecta esse tom na portadora — silenciando completamente o rádio na ausência de transmissão. Para radioamadores, isso é análogo ao sistema CTCSS (tom de subtom) tão comum nos repetidores VHF modernos.
A55 — Amplificador de Áudio: Estágio final de áudio, que entrega o som ao conjunto telefônico ou alto-falante externo.
A22 — Amplificador de Voz: Capta e processa o sinal do microfone antes da modulação.
A23 — Gerador do Tom de 150 Hz: Gera o tom de subtom que acompanha toda transmissão, permitindo que receptores remotos equipados com o módulo A54 abram o áudio automaticamente.
A36 — Amplificador de Potência do Transmissor: Módulo responsável pela amplificação final do sinal RF antes da antena.
A37 — Amplificador Intermediário de Potência: Estágio pré-amplificador que precede o A36. O manual de 3º escalão aponta este como “o módulo que apresenta mais problemas” — informação valiosa para técnicos de manutenção e colecionadores que tentam colocar exemplares em funcionamento.
A38 — VFO do Transmissor: Oscilador de frequência variável específico para o transmissor, sincronizado com o sintetizador.
A50 — Misturador do Transmissor: Combina os sinais para gerar a frequência final de transmissão.
O Sistema Sintetizador de Frequências (SSF) é o subsistema mais complexo do RY-20, e sua confiabilidade foi historicamente o principal desafio de manutenção.
Seus módulos incluem:
Nota técnica importante: O manual alerta que o ponto de teste J4 do módulo A39 não deve ser usado para medições, pois a inserção de instrumentos altera as características do circuito sintonizado do VFO. A monitoração da frequência de saída deve ser feita nos pontos J2 de A35 e J2 de A44.
Um dos elementos mais característicos do RY-20 para quem já o teve nas mãos é a chave rotativa S1-RY20, que concentra as funções principais do equipamento em cinco posições bem definidas:
DESL (Desligado): Corta a alimentação de todos os circuitos. Posição de guarda e transporte.
LIGA (Ligado): Modo de operação normal. O equipamento entra em recepção standby, pronto para receber transmissões com o tom de 150 Hz. Ao pressionar o PTT, comuta automaticamente para transmissão.
L. RUÍDO (Limitador de Ruído): Ativa a recepção em modo de escuta contínua, mesmo sem o tom de subtom. Útil para monitorar frequências abertas ou quando o interlocutor não possui o sistema de tom.
RETRANS (Retransmissão): Modo automático de repetição. O rádio recebe em uma frequência e retransmite o sinal recebido — funcionando como um repetidor simplificado. Essa função é especialmente útil para estender o alcance das comunicações em terrenos acidentados ou em selva densa.
LUZ: Ativa a iluminação interna do painel, para operação noturna. Detalhe aparentemente simples, mas que revela o cuidado dos projetistas com o uso tático real do equipamento.
Para um colecionador, verificar o funcionamento sequencial dessas posições é um dos primeiros testes práticos a realizar quando um exemplar é adquirido.
Nenhum rádio militar opera isoladamente. O RY-20 é acompanhado pelo Conjunto Telefônico EB11-CJ22/ERC, o combinado de mão que serve de interface entre o operador e o equipamento.
O conjunto é conectado ao transceptor por um cabo com quatro condutores identificados por cores:
| Cor | Função |
|---|---|
| Preto | Massa (referência de terra) |
| Branco | Áudio (saída para o alto-falante do combinado) |
| Vermelho | Microfone (entrada de voz) |
| Verde | Relé K2 (comutação TX/RX via PTT) |
A comutação entre transmissão e recepção é feita pelo botão PTT (Push-to-Talk), que aciona o Relé K2. Quando o botão é pressionado, o K2 comuta toda a cadeia de sinal do modo RX para TX — um processo que nos diagramas do manual pode ser visto como uma sequência elegante de chaveamento.
Exemplares do CJ22 em bom estado são cada vez mais raros no mercado de excedentes. Ao adquirir um RY-20, verifique sempre se o conjunto telefônico acompanha o lote — isso pode dobrar o valor histórico e a completude do equipamento. Conectores danificados no cabo do CJ22 são o problema mais comum encontrado em exemplares usados.
O módulo A28 — Rede de Casamento de Antena — é a interface entre o transceptor e o mundo externo. Sua engenhosidade está em suportar quatro tipos de antena distintos, selecionáveis pela mesma chave S1 que controla as funções do rádio.
As configurações disponíveis são:
O casamento de impedâncias — processo fundamental para garantir máxima transferência de potência entre o rádio e a antena — é feito por combinações diferentes de indutores variáveis e capacitores:
Para um radioamador, esse sistema é familiar: é o mesmo princípio de um acoplador de antena (ATU). A grande diferença é que no RY-20 esse sistema está integrado ao equipamento e é otimizado para as faixas específicas de operação militar — algo que facilita enormemente a operação por pessoal não especializado em RF.
A antena longa — geralmente um fio de comprimento específico estendido em campo — oferece maior alcance, especialmente na banda baixa. Já a antena curta (chicote/whip) é mais prática para operações móveis veiculares.
No sistema de manutenção do Exército Brasileiro, os equipamentos são mantidos em diferentes “escalões”, cada um com nível crescente de complexidade:
O manual que serve de base para este guia é específico do 3º Escalão — ou seja, é o nível onde um técnico qualificado, com instrumentos de medição adequados, faz o diagnóstico profundo e restaura o equipamento.
O que me impressionou ao estudar o manual do RY-20 é a clareza metodológica com que o processo de manutenção é descrito. Os engenheiros da FMCE entenderam que a manutenção de campo não pode depender de intuição ou experiência acumulada exclusivamente — ela precisa de um método.
O processo de diagnóstico segue quatro etapas bem definidas:
1. Determinação dos Sintomas
Antes de abrir qualquer parafuso, o técnico deve observar o comportamento do equipamento em operação. O rádio não transmite? Não recebe? Transmite com potência baixa? Recebe com muito ruído? Cada sintoma aponta para subsistemas diferentes.
O manual recomenda verificar: a recepção, a potência transmitida, a frequência de transmissão, a operação em múltiplas frequências de banda alta e baixa, o funcionamento nas diferentes posições da chave S1, e o comportamento com diferentes tipos de antena.
2. Análise dos Diagramas de Blocos e Esquemáticos
Com o sintoma identificado, o técnico consulta os diagramas do manual para traçar o “caminho do sinal” e identificar quais módulos estão no caminho entre a fonte do problema e o sintoma observado.
3. Localização do Módulo Defeituoso
Aqui entra a inteligência modular do projeto: em vez de medir ponto a ponto em um circuito complexo, o técnico substitui módulos suspeitos por unidades sabidamente boas e verifica se o problema é resolvido. Essa abordagem é especialmente valiosa para os módulos de RF (A32, A33, A34, A35), onde a inserção de instrumentos de medição pode alterar as características do próprio circuito que está sendo avaliado.
4. Verificação Final
Após a substituição do módulo defeituoso, o equipamento passa por uma rotina de verificação completa para confirmar que o defeito foi eliminado e que nenhum outro problema foi introduzido durante o processo.
O manual detalha os pontos de teste disponíveis em cada módulo — um recurso valioso para colecionadores que querem realizar medições sem danificar os circuitos. Entre os mais importantes:
O EB11-RY20/ERC não é um equipamento isolado — ele faz parte de uma vasta família de rádios táticos desenvolvidos e produzidos pela indústria brasileira sob o guarda-chuva da designação ERC (Equipamento de Rádio de Campanha).
Outros membros dessa família que os colecionadores brasileiros conhecem incluem:
Cada um atende a um nicho diferente dentro da hierarquia de comunicações táticas — do soldado individual ao comandante de batalhão.
O que o RY-20 iniciou foi continuado e aperfeiçoado nas décadas seguintes. Os sistemas digitais e criptografados que hoje equipam o Exército Brasileiro — como o Rádio Mallet (TRC-1193V) com criptografia, salto de frequência e GPS integrado — são filhos tecnológicos diretos dos princípios que os engenheiros da FMCE aplicaram no projeto do RY-20.
A diferença de tecnologia é abissal. Mas a filosofia é a mesma: equipamento robusto, modular, de fabricação nacional, operado por pessoal treinado.
No mercado brasileiro de excedentes militares, o RY-20 aparece com frequência em:
O preço de um exemplar varia enormemente conforme o estado de conservação e a completude do conjunto (com ou sem CJ22, com ou sem manual).
Antes de adquirir um RY-20, cheque os seguintes pontos:
Condição mecânica:
Condição elétrica (se possível testar):
Documentação:
Para colecionadores que adquirem exemplares não funcionais, a ordem lógica de restauração segue exatamente a filosofia do manual de 3º escalão:
O módulo A37 (amplificador intermediário de potência) merece atenção especial, por ser identificado no próprio manual como o componente de maior incidência de falhas.
Para nós, radioamadores brasileiros, existe um interesse técnico especial no RY-20: parte de sua faixa de operação (especificamente a banda alta, de 53 a 75,95 MHz) se sobrepõe com a faixa de 6 metros (50–54 MHz), que é uma das favoritas dos radioamadores para propagação por Esporádico-E e para contatos locais em FM.
Embora o equipamento não tenha sido projetado para uso civil e não possua as características de seletividade e estabilidade exigidas para operação em faixas compartilhadas com civis, o princípio de RF subjacente é o mesmo que qualquer PY com rádio VHF reconhece imediatamente.
Estudar o projeto do RY-20 é, na prática, um curso completo de engenharia de RF analógica aplicada. Seus módulos cobrem:
Para qualquer radioamador que queira aprofundar seu entendimento de como um transceptor VHF realmente funciona — além dos menus de um moderno Yaesu ou Icom — dissecar um RY-20 com o manual na mão é uma experiência extremamente didática.
O tom de 150 Hz como CTCSS pioneiro: O sistema de limitação de ruído por tom do RY-20 é funcionalmente idêntico ao CTCSS (Continuous Tone-Coded Squelch System) que hoje usamos em repetidores de radioamador. O Exército Brasileiro implementou esse conceito no RY-20 décadas antes de ele se tornar padrão em equipamentos comerciais de VHF.
A nomenclatura “MY20”: A designação do conjunto completo como EB11-MY20/ERC (com M em vez de R) aparece na documentação técnica e causa confusão em colecionadores iniciantes. O M indica o “conjunto” (material completo com acessórios), enquanto o R do RY-20 refere-se especificamente ao “receptor-transmissor” isolado.
Modularidade como doutrina: A decisão de projetar o RY-20 com arquitetura modular não foi apenas técnica — foi doutrinária. O Exército Brasileiro estabeleceu como requisito que equipamentos de campanha pudessem ser mantidos em nível de unidade com substituição de módulos. Esse requisito moldou o projeto de todos os rádios da família ERC da mesma época.
O A37 e a maldição do campo: O fato de o manual oficial identificar explicitamente o módulo A37 como “o que apresenta mais problemas” é raro em documentação técnica militar — normalmente discreta sobre limitações de projeto. Isso sugere que a experiência de campo com o equipamento foi incorporada de forma honesta ao documento de manutenção, o que é um sinal de maturidade técnica da FMCE.
❓ O EB11-RY20/ERC ainda é usado pelo Exército Brasileiro?
Não em operações ativas. O RY-20 foi progressivamente substituído por equipamentos mais modernos ao longo dos anos 1990 e 2000. Hoje, equipamentos como o Rádio Mallet (TRC-1193V) com criptografia digital ocupam o papel que o RY-20 desempenhou. Exemplares do RY-20 existem em museus de comunicações militares, coleções particulares e lotes de excedentes.
❓ É legal um civil possuir um RY-20?
A posse de equipamentos de comunicação excedentes do Exército por civis está sujeita à regulamentação da Anatel e ao Estatuto do Desarmamento (que não se aplica diretamente, mas regula o contexto de aquisição de material bélico). Como o RY-20 é um equipamento de comunicação (não armamento), sua posse como item de coleção é geralmente aceita, desde que não seja operado fora das faixas autorizadas pela Anatel. Consulte sempre a regulamentação vigente antes de operar qualquer rádio.
❓ É possível usar o RY-20 como transceptor de radioamador?
Tecnicamente, parte da faixa do RY-20 (em torno de 50–54 MHz) se sobrepõe à faixa de 6 metros do radioamador. Porém, operar um rádio militar em faixas de radioamador requer que o equipamento atenda às especificações técnicas exigidas pela Anatel para emissão em faixas licenciadas. Além disso, a potência e o tipo de emissão devem estar dentro dos limites autorizados para cada classe de licença. Em resumo: é tecnicamente possível mas requer cuidado regulatório.
❓ Quais são as diferenças entre o RY-20 e o RY-39 (ERC-620)?
São equipamentos com características bastante diferentes: o RY-20 opera em VHF (30–75,95 MHz) com modulação FM, enquanto o RY-39 (base do ERC-620) opera em HF (faixas menores) com modulação SSB, voltado para comunicações de maior alcance. O RY-39 é mais recente e utiliza tecnologia de sintetizador diferente.
❓ Como identificar se um RY-20 está completo?
Um conjunto completo deve incluir: o transceptor (corpo principal), o conjunto telefônico CJ22/ERC com cabo e PTT, o cabo de alimentação para veículo, e idealmente a documentação técnica. Acessórios como suportes de veículo e adaptadores de antena são bônus. Verifique se todos os conectores do painel estão presentes e sem danos.
❓ O módulo A37 pode ser substituído por componentes modernos?
Em princípio sim, mas a substituição exige conhecimento dos transistores equivalentes ao original. Os transistores 2N3866 e 2N5109 eram comuns nesses estágios de potência VHF dos anos 1970-80 e ainda têm equivalentes modernos disponíveis no mercado. Porém, a substituição requer bancada de RF e instrumentação adequada para reajustar o estágio após a troca.
❓ Existe comunidade ativa de colecionadores do RY-20 no Brasil?
Sim, embora pequena e dispersa. Grupos de radioamadores no Facebook dedicados a rádios militares brasileiros (como “Rádios Militares do Brasil” e grupos de militaria) concentram boa parte dos entusiastas. O portal Antena Ativa é um excelente ponto de partida para encontrar essa comunidade e acessar documentação técnica sobre equipamentos militares brasileiros.
O EB11-RY20/ERC não é apenas um rádio antigo. Ele é a materialização de um momento específico da história tecnológica brasileira — quando engenheiros da FMCE, com recursos limitados e tecnologia analógica, criaram um sistema de comunicações tático robusto, engenhoso e com filosofia de manutenção surpreendentemente moderna.
Para nós, radioamadores e colecionadores, estudar o RY-20 é muito mais do que entender um transceptor VHF dos anos 1980. É compreender como se projeta um sistema de RF para condições extremas, com foco em confiabilidade, manutenibilidade e operabilidade por pessoal não especializado.
Se você ainda não tem um exemplar na sua coleção — procure um. Se já tem um — abra o manual, trace o caminho do sinal pelo diagrama de blocos e aprecie a elegância de cada módulo. Você vai descobrir que os engenheiros da FMCE deixaram muito mais do que circuitos soltos numa carcaça de alumínio: deixaram uma lição de como se faz engenharia de comunicações com propósito.
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