Evento gratuito no Galleria Shopping reuniu equipamentos de comunicação de 1933 até os dias atuais, com atividade que permitiu ao público enviar mensagens via rádio direto para o WhatsApp
Por Carlos Rincon, PY2CER — AntenaAtiva.com.br
Radioamadores de Campinas e região protagonizaram um dos segmentos mais técnicos e visualmente impactantes da exposição “Exército Brasileiro: Tradição em Movimento e Inovação”, realizada gratuitamente no Galleria Shopping entre os dias 24 e 26 de abril de 2026. Com um acervo que cobriu quase 90 anos de evolução tecnológica — do rádio valvulado de 1933 ao transceptor digital de bolso —, o núcleo dedicado ao radioamadorismo atraiu tanto curiosos quanto operadores experientes, e ofereceu ao público geral uma experiência interativa inédita: pressionar uma chave telegráfica e receber a mensagem no próprio celular via WhatsApp, em tempo real.
A mostra integrou as comemorações do Dia do Exército, celebrado em 19 de abril, e marcou também o 83º aniversário da 11ª Brigada de Infantaria Mecanizada. O evento foi organizado pela Companhia de Viaturas Militares Antigas do Interior de São Paulo, em parceria com o Exército Brasileiro e uma entidade de ex-combatentes de Campinas. A visitação foi gratuita e sem necessidade de agendamento.
A montagem da linha do tempo de comunicação foi um dos pontos de maior complexidade logística da exposição. O ponto de partida foi um rádio de 1933 gabinete robusto, válvulas termiônicas visíveis, mostrador calibrado à mão que contrasta fisicamente de forma dramática com os transceptores contemporâneos expostos na outra extremidade da linha.
Entre os dois extremos, o acervo percorreu os marcos fundamentais da história do rádio: os modelos valvulados dos anos 1950 e 1960, os primeiros transistorizados que popularizaram o radioamadorismo nas décadas de 1970 e 1980, e as estações digitais dos anos 1990, já com síntese de frequência e displays numéricos.
“Ver essa progressão reunida num só espaço é raro. Cada equipamento representa o que havia de mais avançado em seu tempo”, afirmou Carlos Rincon, PY2CER, radioamador e um dos colaboradores da mostra.
Rincon integrou o grupo responsável pela curadoria técnica do segmento de comunicações. A escolha dos equipamentos levou em conta não apenas a raridade das peças, mas também a capacidade de contar uma narrativa coerente ao visitante leigo alguém que nunca teve contato com o radioamadorismo, mas que ao percorrer o acervo consegue compreender a evolução da tecnologia de forma intuitiva.
José Roberto Silva, entusiasta do rádioamador desde os anos 1980, também esteve presente como expositor e sintetizou o alcance da atividade para o público geral: “No radioamador, você nunca está sozinho; com poucos equipamentos e uma boa antena, você consegue falar com o mundo inteiro.”
Se o acervo histórico impressionou pelo volume e pela raridade, a atividade interativa foi o que gerou filas e despertou o interesse de visitantes de todas as faixas etárias.
O funcionamento foi simples na aparência, mas tecnicamente elaborado: o visitante se sentava diante de uma chave telegráfica original e era orientado por monitores a pressionar o equipamento em um padrão básico. O sinal gerado era captado e transmitido por um sistema baseado em tecnologia de radioamadorismo, que convertia o conteúdo e o entregava em forma de mensagem de texto no celular do participante, via WhatsApp.
A atividade funcionou em horários específicos ao longo dos três dias de evento os horários foram divulgados no local — e contou com acompanhamento constante de operadores habilitados.
Do ponto de vista técnico, a experiência utilizou uma cadeia que vai do sinal analógico em radiofrequência até a conversão digital e entrega por protocolo de internet. Para o público geral, o efeito foi de encantamento: a sensação de ter operado, mesmo que por alguns segundos, uma tecnologia que esteve no centro das guerras do século XX e que hoje convive com o mensageiro mais usado do planeta.
Para o público de radioamadores, o impacto foi de outra natureza: ver uma plateia formada por pessoas sem nenhum vínculo com a atividade interagir com equipamento de radiofrequência e sair com a experiência registrada no celular é exatamente o tipo de divulgação que a comunidade precisa.
A participação dos radioamadores na exposição ganhou uma dimensão histórica adicional ao ser conectada à trajetória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial.
O Brasil foi o único país da América Latina a enviar tropas para o conflito. Cerca de 25 mil militares brasileiros atuaram na campanha da Itália entre 1944 e 1945, entre eles aproximadamente 328 combatentes oriundos de Campinas. A presença campineira na guerra foi um dos eixos da exposição, e o papel da comunicação por rádio nesse esforço foi apresentado de forma didática ao público.
Durante as operações na Itália, o rádio não era um recurso complementar era o sistema nervoso das decisões em campo. Os equipamentos militares da época exigiam operadores treinados em código Morse, capazes de transmitir e receber mensagens sob condições extremas: frio intenso nas montanhas do Apenino, ruído de artilharia, chuva e movimentação constante de tropas.
Na exposição, peças originais do período da FEB foram exibidas ao lado de painéis explicativos sobre os procedimentos de comunicação em combate. O público pôde observar como a transmissão de uma única mensagem em Morse envolvia protocolos rígidos de confirmação e autenticação procedimentos que, em ambiente de guerra, poderiam determinar o sucesso ou o fracasso de uma operação.
A conexão entre esse contexto histórico e a atividade dos radioamadores contemporâneos não foi casual. O radioamadorismo civil tem raízes diretamente entrelaçadas com as práticas de comunicação militar, e boa parte dos operadores que participaram da exposição conhecem o Morse não como curiosidade histórica, mas como código operacional ativo.
Um terceiro núcleo do segmento de radioamadorismo trouxe para a exposição um tema de crescente relevância no Brasil: a comunicação em situações de desastre.
A estação montada pelos radioamadores demonstrou ao público um sistema capaz de operar independentemente de redes de celular, internet ou infraestrutura elétrica convencional. Com equipamentos portáteis e alimentados por baterias ou energia solar, a estação simulou o tipo de operação que grupos de radioamadores realizam em contextos de emergência real enchentes, deslizamentos, apagões.
“Em um desastre, as primeiras horas são críticas. O rádio pode ser a única ligação entre quem precisa de ajuda e quem pode prestar socorro”, destacou um dos responsáveis pelo projeto durante a abertura do evento.
O argumento tem respaldo histórico recente no Brasil. Em eventos como as enchentes no Rio Grande do Sul, em 2024, grupos de radioamadores atuaram como pontes de comunicação em áreas onde toda a infraestrutura digital havia sido comprometida. O rádio amador, nessas situações, opera em faixas de frequência que não dependem de satélites privados nem de torres de celular um diferencial que a exposição tornou visível para um público que, em grande parte, nunca tinha considerado essa dimensão da atividade.
A estação de emergência exposta no Galleria integra um movimento mais amplo dentro da comunidade de radioamadores brasileiros, que nos últimos anos tem investido em treinamentos específicos para atuação em defesa civil e em parcerias com órgãos como Corpo de Bombeiros e Defesa Civil Municipal.
A presença dos radioamadores na exposição do Exército não foi apenas temática. Foi operacional, técnica e pedagógica.
Em outras palavras: sem os operadores que montaram, testaram e operaram os equipamentos ao longo dos três dias, a linha do tempo do rádio seria apenas um conjunto de aparelhos atrás de um cordão. Com eles, cada peça ganhou contexto, função e, no caso da atividade interativa, consequência imediata para quem participou.
Essa mediação é uma das formas mais eficientes de divulgação do radioamadorismo. Não se trata de explicar o que é um radioamador para alguém trata-se de colocar essa pessoa diante de um equipamento, orientá-la por dez segundos e deixar que a experiência fale por si mesma.
O resultado, no Galleria Shopping, foi observável: crianças que testaram a chave telegráfica fizeram perguntas sobre como funciona o rádio. Adultos que nunca tinham ouvido falar em Morse saíram com a palavra na ponta da língua. E visitantes que já conheciam o radioamadorismo de forma superficial voltaram ao estande mais de uma vez para conversar com os expositores.
A mostra “Exército Brasileiro: Tradição em Movimento e Inovação” reuniu, além do segmento de radioamadorismo, viaturas históricas restauradas da Segunda Guerra Mundial entre elas um tanque BCCL que operou no Exército Brasileiro de 1942 a 1971, restaurado ao longo de 11 meses por militares da 11ª Brigada —, blindados modernos em operação, acampamento temático da FEB, demonstração com cães de guerra e atividades de airsoft para o público.
O evento funcionou na sexta-feira das 17h às 22h, no sábado das 10h às 22h e no domingo das 12h às 20h, no estacionamento do Galleria Shopping. A entrada foi gratuita em todos os horários.
A organização envolveu a Companhia de Viaturas Militares Antigas do Interior de São Paulo e o Exército Brasileiro, com o suporte de colecionadores, entusiastas e, no caso do segmento de comunicações, radioamadores voluntários que cederam tempo, equipamentos e conhecimento técnico para estruturar um dos segmentos mais comentados da mostra.
Eventos como este cumprem uma função que vai além da memória. Eles posicionam o radioamadorismo no presente — não como relíquia de uma era analógica, mas como prática técnica viva, com aplicações que vão da comunicação intercontinental ao suporte em desastres.
Para a comunidade de operadores, participar de uma exposição com o volume de público que o Galleria Shopping recebeu no fim de semana representa uma janela rara de visibilidade. A maioria das atividades do radioamadorismo acontece em frequências invisíveis ao público geral literalmente inaudíveis para quem não tem receptor.
Colocar uma chave telegráfica nas mãos de um visitante de shopping e entregar a mensagem no celular dele é o equivalente moderno de abrir a portinhola de um blindado: uma forma de tornar tangível algo que, de outro modo, permaneceria abstrato.
A exposição de Campinas mostrou que o rádio com suas válvulas, seus transistores, seus displays digitais e sua chave telegráfica ainda tem muito a dizer.
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