Rádios antigos em Salamanca: acervo raro do Museo del Comercio revela peças únicas, discos VOA e designs inusitados
Don Moore explora a coleção de Agustín De Castro e descreve peças históricas, curiosas e bem preservadas expostas no centro histórico espanhol
Coleção e contexto do Museu
Em uma viagem por norte da Espanha e norte de Portugal, o jornalista e radioamador Don Moore voltou a Salamanca e encontrou no Museo del Comercio uma das principais atrações da cidade além das catedrais e da universidade: uma coleção ampla de rádios antigos. A maioria das peças veio do acervo de Agustín De Castro, nascido em Salamanca em 1928, que começou a montar rádios aos oito anos e chegou a ter loja e assistência técnica de aparelhos de rádio na cidade. Sua coleção foi doada ao município em 2002 e incorporada ao Museo del Comercio, inaugurado em 2006 no interior de uma antiga cisterna de água de tijolos.
Moore destacou a boa conservação dos aparelhos, expostos em vitrines para evitar deterioração. O vidro, porém, dificultou fotografias sem reflexos, algo que o visitante reconhece como pequeno preço a pagar pela preservação das peças.
Peças notáveis e detalhes técnicos
Entre os exemplares mais usuais estão modelos espanhóis da década de 1940, como o Gram Model 157 (fabricado em 1947), com um mostrador elegante que combina a marcação da onda média em quilociclos e a banda de onda curta em metros; e o Fono model 140 de 1945, que segue o mesmo padrão de marcação. Um rádio/gramofone RCA de 1940 chamou a atenção por preservar a lista original de estações no interior do gabinete, documento curioso para quem estuda a recepção de rádio do período.
Movendo-se para os anos 1950 e 1960, Moore registrou o pequeno LAK Radio de 1950, ainda com AM e onda curta, mas já com mostradores de frequência em quilohertz, e o Vanguard Atlas de 1960, que adotava exclusivamente a marcação em quilociclos.
Designs franceses e o caso do Gody Psyché
Do lado das peculiaridades, dois aparelhos franceses se destacam. O Philips A-48-U, produzido em Paris em 1941-42, traz um painel de sintonia que se dobra para baixo quando em uso e se fecha quando não está sendo utilizado. Moore observou que o mostrador inclui estações britânicas como Daventry, London e Droitwich, marcações que seriam impróprias para a França ocupada na Segunda Guerra Mundial, o que indica que as plaquetas possivelmente estavam pré-impressas ou adotadas em desacordo com as restrições do período.
O caso mais excêntrico é o Abel Gody 6700-B, conhecido como Gody Psyché, fabricado em 1934. Longe de ser um simples gabinete de madeira, o aparelho é uma peça de marcenaria elaborada com um mostrador invertido, pensado para ser lido por meio de um espelho de inclinação. As inscrições do mostrador aparecem ao contrário e não trazem frequências, apenas nomes de cidades. O layout sugere um objeto pensado tanto para imagem quanto para uso, priorizando estética e novidade — embora pouco prático para longas sessões de sintonia.
O vinil gigante da Voice of America
Uma das peças que mais surpreendeu Moore foi um disco de 16 polegadas da Voice of America. Trata-se de um disco de transcrição, produzido para distribuição de programas a emissoras locais e estrangeiras, com inscrição da Overseas Branch do Office of War Information, o que o situa na etapa da Segunda Guerra Mundial até 1945, quando o OWI foi fechado.
Esses discos de 16 polegadas, tocados a 33 1/3 RPM e com duração de até 15 minutos, eram feitos em policloreto de vinila para reduzir ruído e melhorar a fidelidade, bem diferente dos 78 RPM comerciais em shellac. O rótulo também informa o tipo de corte lateral e instruções como “start outside”, lembrando que alguns discos eram cortados para serem reproduzidos de dentro para fora. Esse conjunto de diferenças tornava difícil a reprodução em aparelhos domésticos, preservando conteúdo destinado à radiodifusão profissional.
Transmissores, equipamentos locais e memórias de radiodifusão
No fundo do museu, uma sala reúne equipamentos doados pela emissora Radio Salamanca, montados de forma a reproduzir um painel de receptor. Moore notou um detalhe surreal no mostrador artístico: enquanto a banda inferior segue 540 a 1600 kHz, a superior traz 1 a 10 metros, rótulo que não corresponde à alocação habitual do espectro e revela mais uma interpretação artística do que rigor técnico.
Também em exibição está um receptor National SE-15 estereofônico de 1959, fabricado no Japão e aparentemente destinado ao mercado europeu, com marcações em inglês e duas faixas de onda curta que cobrem grande parte do espectro HF — um indício da popularidade da recepção de ondas curtas no período.
Salamanca: além dos rádios, a cidade dourada
Moore lembra que Salamanca não se resume à coleção de rádios. A cidade atrai retornos graças ao seu conjunto histórico — da ponte romana sobre o rio Tormes, com quase dois mil anos, às duas catedrais que vão do século 12 ao século 16, até a Universidade de Salamanca, fundada em 1218 e considerada a quarta mais antiga do mundo acadêmico ocidental. Muitos dos edifícios do centro histórico foram erguidos em calcário de tom dourado, origem do apelido La Dorada, e a região central é patrimônio mundial da UNESCO.
Com cerca de 150 mil habitantes, Salamanca recebe quase um milhão de visitantes por ano, mas, segundo Moore, a maior parte é de turistas espanhóis que fazem escapadas de fim de semana desde cidades como Madri, a duas horas de trem. Isso, de acordo com o autor, contribui para a manutenção de um caráter local mais autêntico e uma oferta gastronômica de qualidade, já que restaurantes não dependem exclusivamente de público estrangeiro pouco exigente.
Para quem visita, a recomendação é mesclar passeios pelos pontos turísticos com desvios por ruas secundárias: é comum encontrar igrejas e pátios pouco visitados que preservam trabalhos artísticos e peças centenárias sem a presença das multidões. Moore relata ter se hospedado numa área residencial a dez minutos do centro, com hotéis pequenos e bares de tapas frequentados por moradores — um modo de economizar e aprofundar a experiência local.
O Museu del Comercio, com suas vitrines cheias de rádios e memórias da radiodifusão, surge assim como um convite para combinar dois prazeres: a contemplação de objetos técnicos e estéticos do século 20 e a descoberta de Salamanca, uma cidade cuja história e arquitetura continuam a atrair visitantes curiosos por achados pouco óbvios.
Visitar o museu é, nas palavras de Moore, uma oportunidade de ver como tecnologia, design e memória social se encontram em peças que vão do uso cotidiano à extravagância criativa — e de aproveitar, em seguida, as ruas douradas e os restaurantes que mantêm viva a tradição da cidade.



