Uma postagem de janeiro de 2026 do radioamador Chuck Gerttula (indicativo W7CRG) ganhou atenção ao ligar dois movimentos que avançam em ritmos diferentes: o crescimento da presença feminina em áreas de alta tecnologia e a urgência de modernizar a cultura do rádio amador. O ponto de partida foi um marco recente divulgado pela NASA: pela primeira vez, mulheres superaram homens entre as candidatas a astronautas, com seis mulheres e quatro homens selecionados para a turma de 2025, a partir de um universo de cerca de 8 mil inscritos.
Para Gerttula, o recado é claro: a capacidade técnica das mulheres está dada e vem aparecendo em posições de liderança — da aviação à indústria. Cabe ao rádio amador, um hobby historicamente dominado por homens e com média etária elevada, derrubar barreiras culturais e atualizar a linguagem para ampliar portas de entrada.
Um marco na NASA e o recado para a tecnologia
O anúncio da NASA de que mulheres lideraram a seleção de astronautas em 2025 opera como termômetro social e tecnológico. A tendência acompanha o avanço feminino em carreiras STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), onde a presença e a qualificação de mulheres aumentam em áreas antes majoritariamente masculinas.
No rádio amador, a leitura é de oportunidade. Se há talento e interesse crescentes em tecnologias complexas — das cabines de comando às naves espaciais —, o hobby precisa garantir que sua cultura seja receptiva. Em outras palavras, não basta dominar novas modalidades digitais; é necessário tornar o ambiente simbólico e relacional mais convidativo.
Do cockpit ao shack: a história da comandante Michelle
Para ilustrar mudanças em curso e resistências remanescentes, Gerttula relata o episódio de sua sobrinha por afinidade, Michelle, comandante na aviação comercial. Ao embarcar, um passageiro da primeira classe questionou em voz alta a ideia de voar com uma mulher no comando e exigiu um piloto homem. Com calma, Michelle remarcou o cliente para outro voo — cujo comandante, homem, havia sido treinado e certificado por ela. A decolagem seguiu como planejado.
O caso sintetiza o contraste entre competência comprovada e vieses de percepção. Também reforça uma mensagem-chave do autor: habilidade técnica independe de gênero. Como ele pontua, quem já tentou manter um helicóptero em voo nivelado ou pairar sobre uma zona de pouso quente conhece o grau de destreza necessário — e sabe que isso não é atributo exclusivo de um grupo.
O peso das palavras no rádio amador
Se o rádio amador sempre adotou novas tecnologias com rapidez, sua linguagem preserva termos que já não conversam com públicos mais jovens — principalmente mulheres. Expressões como “YL” (young lady) e “XYL” (ex-young lady) surgiram na era do CW, quando economizar caracteres era essencial, assim como o Q‑code e o “Hi, hi” para sinalizar risos. Hoje, porém, “young lady” soa datado, e “old man”, comum no jargão de outrora, perdeu espaço no cotidiano.
Gerttula não demoniza a tradição, mas sugere consciência de contexto: preservar o charme do “ham‑speak” não pode servir como barreira de entrada. A comparação com gírias de operadores de radiofrequência cidadã (CB) — como “good buddy” e “smokey” — ajuda a mostrar que códigos internos fazem sentido dentro de uma cultura, mas podem afastar quem chega agora.
O autor lembra ainda que, enquanto o vocabulário patina, a técnica segue evoluindo sem nostalgia: mencionar um “6146” — válvula popular em transmissores décadas atrás — hoje já não diz muito a novos entusiastas. Da mesma forma, surgem modos digitais e recursos em VHF/UHF que demandam novos aprendizados e, sobretudo, disposição para dialogar com outras linguagens.
Como atrair mais mulheres e jovens para o rádio
Há iniciativas em curso. O Teachers Institute on Wireless Technology, da ARRL (American Radio Relay League), e programas de clubes e escolas alinhados a STEM têm envolvido muitas educadoras, ampliando capilaridade e exemplos positivos para alunas.
Além de programas estruturados, o comportamento do dia a dia no hobby faz diferença. Dicas práticas destacadas pelo autor:
- Tratar aspirantes mulheres como qualquer colega: respeito, paciência e incentivo técnico, sem condescendência.
- Revisar linguagem: evitar termos que soem antiquados ou paternalistas; privilegiar comunicação clara, direta e acolhedora.
- Oferecer mentoria: apoiar estudos para licença, montagem de estações, prática de modos digitais e operação em VHF/UHF.
- Promover experiências: workshops, “open shacks”, ativações em campo e integração com feiras de ciências locais.
- Valorizar exemplos: destacar vozes femininas em palestras, nets e lideranças de clubes.
Em síntese, inclusão não é um gesto pontual: é uma cultura. E cultura se consolida quando linguagem, prática e representação caminham juntas.
Ao final, Gerttula admite um certo desalento com o ritmo do novo ano, mas entrega um convite claro ao rádio amadorismo: se o setor se orgulha de inovar “ao toque de um chapéu”, é hora de aplicar o mesmo impulso à forma de falar, ensinar e acolher. Assim como a NASA captou um momento de virada, o rádio amador tem a chance de transformar abertura em realidade — e garantir que mais pessoas, de todos os perfis, encontrem seu lugar no ar.


