Como ouvir sinais secretos da Guerra Fria: guia para DXers sobre chamadas táticas (Sky King, Ivanhoe, Pawnee e outras)
Gravações no Internet Archive e arquivos de publicações técnicas revelam identidades, frequências e histórias por trás de nomes como Sky King, Ivanhoe, Fanfare e Raspberry
Durante os anos da Guerra Fria, as bandas de ondas curtas eram um mosaico de sinais hoje pouco presentes: emissoras estatais de nações então divididas, transmissões políticas e uma profusão de comunicações militares. Para os DXers — ouvintes que registravam sinais distantes — surgia um universo fascinante de identificadores não convencionais, chamados táticos ou “callsigns”.
O que eram as chamadas táticas e por que chamavam atenção
Ao contrário das emissoras civis, muitas estações militares não usavam letras de chamada oficiais ao fazer transmissões de rotina. Em vez disso, adotavam nomes de fácil pronúncia e mutáveis — como “Ivanhoe”, “Fanfare” ou “Toreador” — por razões de segurança e operação. Esses apelidos podiam indicar uma base, uma rede ou simplesmente uma função temporária, e eram frequentemente alterados para dificultar a identificação por terceiros.
Para o hobby de radiodetecção, isso transformou cada sinal em um quebra-cabeça. Alguns identificadores, contudo, foram usados com consistência suficiente para serem vinculados a locais específicos, como mostra a documentação de revistas especializadas da época.
Exemplos citados em arquivos da época
Relatos reproduzidos em edições da revista Communications World (1971–1981) reuniram listas de tacticals e suas associações aproximadas. Entre os exemplos mais recorrentes estão:
- Sky King — rede atribuída às comunicações do Strategic Air Command (SAC), usada para contato com aeronaves em alerta; transmitia com autentificadores como “Alfa-Tango”.
- Looking Glass — o posto de comando voador de contingência do SAC.
- Ivanhoe — associado à estação naval de Norfolk, Virgínia.
- Pawnee e Fanfare — identificadores ligados a estações navais no exterior (ex.: Rota, Espanha; Keflavik, Islândia; entre outras).
- Raspberry — uma rede de estações aéreas navais, usada com sufixos locais como “Raspberry Jax” (Jacksonville) ou “Raspberry Miramar” (Miramar NAS).
- Democrat e Retail — táticos citados para bases da Força Aérea (March AFB e Barksdale AFB, respectivamente).
As revistas também listavam faixas de frequência onde essas comunicações eram comuns: por exemplo, transmissões SAC e afins apareciam com frequência entre 6,7 MHz e 18 MHz, com canais específicos citados historicamente em 6.762, 9.027, 11.220, 13.245, 14.744 e 17.875 kHz, entre outros.
Onde ouvir gravações e pesquisas históricas
O colecionador e ouvinte Dan Greenall e outros arquivistas digitais disponibilizaram várias gravações no Internet Archive que documentam esses sinais e suas atmosferas sonoras — desde boletins até troca de autenticadores. Exemplos de coleções publicadas incluem:
- RBI — Berlim (RDA), 1970
- Radio Rodina (coleção)
- Radio Free Europe, 1971
- U.S. NavComSta AOK — Rota, Espanha (Pawnee)
Além das gravações, a coleção completa da revista Communications World está disponível para consulta e pesquisa em arquivos como o World Radio History, que reúne edições históricas e listas técnicas utilizadas por ouvintes e pesquisadores.
Como ouvir hoje e que cuidados ter
Embora muitos desses sinais tenham desaparecido ou migrado para redes digitais seguras, entusiastas ainda podem explorar ondas curtas em horários de propagação favoráveis e ouvir fragmentos históricos nas gravações arquivadas. Algumas dicas práticas:
- Use rádios com BFO/SSB para capturar transmissões em modo de dados e teletipo.
- Consulte listas históricas de frequências publicadas por fontes confiáveis para direcionar o monitoramento.
- Respeite a legislação: ouvir é permitido na maioria dos países, mas transmissão ou interferência em comunicações militares é ilegal e perigosa.
Se você ouviu nomes como “Giant Step”, “Sky King”, “Missionary”, “Toreador” ou “Capsule” nos anos 60 a 80, essas memórias são valiosas para reconstruir a história do rádio hobbyista. Compartilhe relatos, gravações e horários de recepção: documentar essas experiências ajuda a preservar um capítulo sonoro singular da Guerra Fria.
Fontes: gravações do Internet Archive disponibilizadas por Dan Greenall; reportagens e listas de calls táticos publicadas na revista Communications World (1973–1976).


