Uma menina de oito anos passou quase uma hora em um stand de radioamadorismo até transmitir o próprio nome em CW episódio que acende o debate sobre o futuro de uma das comunicações mais antigas do mundo, celebrada em 27 de abril
Por Carlos Rincon — PY2CER | Antena Ativa
Uma criança de oito anos, natural de Itu (SP), recusou-se a deixar o estande de radioamadorismo montado por Rubens, o PY2VE, durante a Exposição do Exército Brasileiro, realizada na cidade paulista. Ela permaneceu por quase 60 minutos diante de uma chave telegráfica até conseguir transmitir o próprio nome completo em Código Morse — feito que emocionou o operador experiente e gerou repercussão entre radioamadores do país. O episódio aconteceu em abril de 2025 e ganhou novo significado neste 27 de abril de 2026, data em que se comemora o Dia Mundial do Código Morse.
Rubens PY2VE montou o estande com o objetivo de apresentar o CW sigla para Continuous Wave, a modalidade de comunicação em Código Morse usada no radioamadorismo ao público geral da exposição militar.
O fluxo de visitantes era intenso. A maioria parava por curiosidade, observava os equipamentos e seguia em frente. A menina, identificada apenas como Vitória, não seguiu.
“Ela chegou, apontou para a chave e perguntou o que era. Quando expliquei que dava para mandar mensagens em pontos e traços, ela simplesmente quis tentar”, relatou Rubens ao Antena Ativa.
A instrução foi básica: um toque curto forma um ponto, um toque mais longo forma um traço. A combinação dos dois, em sequências específicas para cada letra, compõe o alfabeto Morse. Simples de explicar. Difícil de dominar.
Vitória não se intimidou.
Com uma tabela de referência fixada na mesa, ela foi letra por letra. Errava, consultava a tabela, contava os sinais com os lábios e voltava à chave. Enquanto outras crianças disputavam a atenção dos pais em outros estandes, ela permaneceu concentrada.
“A mãe veio buscá-la pelo menos duas vezes. Ela pediu mais um pouquinho. E ficou”, contou Rubens.
Perto da marca de uma hora, os cliques da chave telegráfica formaram a sequência completa: V-I-T-Ó-R-I-A. Seu nome, transmitido pelas próprias mãos, pela primeira vez em Código Morse.
A data não foi escolhida ao acaso para celebrar o Código Morse. Em 27 de abril de 1791, nasceu Samuel Finley Breese Morse, o inventor norte-americano que, junto com Alfred Vail, desenvolveu o sistema de comunicação telegráfica que levaria seu nome.
O primeiro telegrama oficial usando o código foi enviado em 24 de maio de 1844, entre Washington D.C. e Baltimore, com a mensagem bíblica “What hath God wrought” “O que Deus operou”, em tradução livre.
Durante mais de um século, o Código Morse foi a espinha dorsal das comunicações de longa distância. Cabos submarinos, ferrovias, operações militares e navegação marítima dependeram do sistema. O sinal de socorro SOS três pontos, três traços, três pontos tornou-se um dos símbolos mais reconhecíveis da comunicação humana em situações de emergência.
No Brasil, a União Internacional de Telecomunicações (UIT) deixou de exigir o Código Morse como requisito obrigatório para licenciamento de radioamadores em 2003. Mesmo assim, a modalidade nunca foi abandonada pela comunidade.
Ao contrário do que muitos previram após a eliminação da exigência pela UIT, o Código Morse não desapareceu. Dentro do radioamadorismo mundial, a modalidade CW mantém comunidade ativa, competições regulares e, segundo dados da American Radio Relay League (ARRL), o número de operadores que buscam treinamento em Código Morse cresceu consistentemente na última década.
No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) registra atualmente mais de 30 mil radioamadores licenciados. Uma parcela significativa ainda opera em CW tanto por tradição quanto por uma razão técnica objetiva: o Código Morse é capaz de ser compreendido em condições de sinal onde nenhum outro modo de voz consegue operar.
“Com CW, você fecha um contato com outro continente usando uma potência que mal acenderia uma lâmpada. É física. O sinal ocupa pouca largura de banda e o ouvido humano treinado consegue extrair informação de um nível de ruído que destruiria qualquer comunicação por voz”, explica PY2VE.
Essa eficiência técnica faz do Código Morse uma ferramenta ainda relevante em comunicações de emergência, operações militares e radioamadorismo de baixa potência a modalidade conhecida como QRP.
A presença do radioamadorismo em exposições militares não é casual. Historicamente, o serviço de radioamador e as Forças Armadas brasileiras desenvolveram relação próxima. Durante conflitos e desastres naturais, operadores voluntários integraram redes de comunicação de emergência quando a infraestrutura civil falhou.
O estande montado por Rubens PY2VE em Itu fazia parte de um esforço deliberado de divulgação: levar o Código Morse a um público que, na maioria dos casos, nunca havia visto uma chave telegráfica de perto.
“A exposição do Exército atrai um perfil variado famílias, jovens, militares da ativa. Não é um evento de radioamadores. É exatamente por isso que vale estar lá”, afirmou Rubens.
A estratégia de democratizar o acesso ao radioamadorismo por meio de eventos públicos é apontada por entidades do setor como um dos caminhos para renovar a base de operadores. A média etária dos radioamadores brasileiros licenciados é relativamente alta, e atrair jovens ao serviço é um desafio reconhecido pelas associações nacionais e estaduais.
Para Rubens, o episódio com a menina de Itu não foi apenas um momento emocionalmente marcante. Foi um dado.
“Quando uma criança de oito anos decide passar uma hora aprendendo algo sem nenhuma obrigação, sem tela, sem gamificação, só porque achou interessante isso diz alguma coisa sobre o potencial do Código Morse de se comunicar com pessoas de qualquer geração”, avaliou.
A persistência de Vitória diante da chave telegráfica contrasta com um cenário em que a atenção infantil é disputada por plataformas digitais projetadas especificamente para maximizar engajamento. O radioamadorismo não tem algoritmo. Não tem notificação. Tem somente a satisfação de dominar uma habilidade real.
“Ela não saiu do estande enquanto não conseguiu. Isso é raro em qualquer idade”, disse Rubens.
Do ponto de vista pedagógico, o processo de aprendizagem do Código Morse envolve elementos que pesquisadores de cognição e aquisição de habilidades motoras estudam há décadas. Ao contrário de decorar símbolos visuais, o operador de CW aprende a associar sons rítmicos diretamente a letras um processo que, com o tempo, torna-se automático e dispensa qualquer consulta consciente.
Estudos conduzidos por pesquisadores ligados à ARRL indicam que a velocidade de recepção de um operador treinado pode superar 30 palavras por minuto velocidade comparável à de uma conversa normal.
Para iniciantes, no entanto, o início é exatamente como Vitória viveu: lento, consultivo, com cada letra sendo construída toque a toque.
“O mais difícil não é aprender as letras. É confiar que o seu dedo sabe o que está fazendo antes que sua cabeça reconheça o padrão”, explicou Rubens. “Ela estava nesse processo. E não desistiu.”
Neste 27 de abril de 2026, o Dia Mundial do Código Morse é celebrado por operadores em todos os continentes — em QSOs comemorativos, maratonas de CW e eventos de iniciação como o que Rubens organiza.
A história de Vitória circula em grupos de radioamadores como um símbolo informal da edição deste ano. Não porque seja extraordinária no sentido técnico ela aprendeu apenas o suficiente para soletrar um nome mas porque representa algo que o radioamadorismo precisa: a próxima geração chegando com curiosidade genuína e disposição para ficar.
“O Código Morse sobreviveu ao telefone, ao rádio AM, ao satélite, à internet. Vai sobreviver porque ele não é só um protocolo. É uma habilidade humana. E habilidades humanas não ficam obsoletas elas ficam raras, e raras têm valor”, afirmou Rubens PY2VE.
Vitória não sabia disso enquanto pressionava a chave telegráfica naquela manhã. Sabia apenas que queria transmitir o próprio nome.
E ficou até conseguir.
73 de PY2CER — Carlos Rincon / Antena Ativa
– – – · · · – – – Em memória de Samuel F. B. Morse (27/04/1791 — 02/04/1872) Cujos pontos e traços ainda ecoam — em Itu e no mundo inteiro.
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