Operadores certificados despacharam mais de 4 mil chamadas de socorro durante as enchentes de 2024 e ganham, em 2025, protocolo formal com Anatel e Defesa Civil
Por Carlos Rincon (PY2CER) – AntenaAtiva.com.br
Quando as torres de telefonia caíram em sequência no Rio Grande do Sul, durante a tragédia climática que submergiu o estado a partir de 3 de maio de 2024, foram radioamadores civis – operando com baterias de carro, antenas improvisadas e licença da Anatel – que mantiveram a comunicação de emergência funcionando. Apenas uma estação montada às pressas em Porto Alegre processou mais de 4 mil chamadas durante o pico da crise, segundo registros da própria comunidade gaúcha de operadores. Agora, em 2025, o aprendizado virou protocolo: a Anatel-RS, a Defesa Civil estadual e a LABRE-RS realizaram em setembro o primeiro simulado anual da Rede de Operações Gaúchas de Emergência para Radioamadores, marcando uma mudança discreta, mas relevante, na forma como o Brasil pensa redundância de comunicação em desastres.
A fragilidade que ninguém via
Pode parecer estranho falar de rádio em pleno 2026, com 5G em capitais, satélites de baixa órbita comerciais e fibra chegando a cidades médias do interior. A questão é que toda essa infraestrutura – por mais avançada que seja – compartilha um problema estrutural: depende de uma cadeia de pontos críticos. Torre, backbone, data center, energia da concessionária. Um elo cede e o serviço evapora.
Foi exatamente o que aconteceu no Rio Grande do Sul. Não houve colapso de uma operadora ou outra. Houve colapso simultâneo de praticamente toda a infraestrutura digital em dezenas de municípios. As próprias operadoras tentaram mitigar liberando roaming entre redes concorrentes, gesto raro no setor. Não adiantou. Sem energia, sem fibra e sem torre, não há roaming que ressuscite o sinal.
Foi nesse vácuo – em que WhatsApp, ligação por celular e redes sociais simplesmente deixaram de existir como ferramentas – que reapareceu uma figura que muitos consideravam relíquia: o radioamador.
Por que o rádio não cai
A resposta técnica é mais simples do que a aura mística que costuma cercar o tema. Telefonia celular e internet operam em modelo centralizado: o sinal do seu telefone vai até uma torre, que vai até um centro de processamento, que vai até um servidor, que devolve a mensagem pelo mesmo caminho. Cada estação intermediária precisa estar de pé, alimentada e conectada. É um sistema brilhante quando tudo funciona – e completamente cego quando uma peça falha.
O radioamadorismo opera no princípio oposto. Cada estação é uma ilha autônoma. Funciona com bateria, painel solar ou gerador. Não exige login, contrato, provedor ou aprovação de operadora. Em frequências de ondas curtas (HF), uma única estação no Rio Grande do Sul pode ser ouvida em São Paulo, no Acre ou na Argentina, sem nenhum ponto intermediário entre quem fala e quem escuta. A propagação ionosférica – fenômeno natural em que o sinal “rebate” na atmosfera – substitui torres, satélites e cabos por física pura.
Em desastres, essa diferença é a diferença entre informação e silêncio. Enquanto equipes técnicas das operadoras tentam reconstruir links de fibra rompidos por enxurradas, radioamadores já estão no ar, retransmitindo localizações de famílias ilhadas, coordenando embarcações voluntárias e atualizando a Defesa Civil sobre pontos críticos.
Não é hobby de saudosista – é tradição operacional
A imagem do radioamador como figura nostálgica, presa a um passado de válvulas e antenas dipolo no quintal, é injusta com a história brasileira do setor. O protagonismo do rádio em emergências no país tem registros documentados há décadas.
O caso mais lembrado é o de Alda Niemeyer, conhecida como “Vovó Alda”, durante as enchentes que devastaram o Vale do Itajaí, em Santa Catarina, em 1983 e 1984. Com mais de 60 anos, ela transmitiu pelo rádio o alerta sobre o avanço das águas em Blumenau antes que qualquer sistema oficial tivesse confirmado a dimensão da tragédia. O alerta dela é creditado por especialistas como elemento decisivo no salvamento de vidas naquele desastre.
De lá para cá, a cena se repetiu – quase sempre invisível para o noticiário – em deslizamentos no Rio de Janeiro, em apagões prolongados no Norte e Nordeste, em incêndios florestais e em secas extremas. A regra é silenciosa, mas constante: quando a infraestrutura formal entra em colapso, a rede informal de radioamadores ocupa o vazio.
“O rádio não substitui a internet em condições normais. Mas quando a internet desaparece, o rádio vira a única ferramenta que ainda fala.”
A frase resume a lógica que orienta operadores há décadas. Não se trata de competir com tecnologia digital – trata-se de existir como camada redundante quando o digital falha.
A sazonalidade que ninguém comenta
Há um padrão interessante na visibilidade do tema. O radioamadorismo é, tecnicamente, sempre relevante – mas o público brasileiro só se lembra dele em janelas previsíveis. E essas janelas têm calendário.
No Sudeste e no Centro-Oeste, as chuvas de verão concentram-se entre dezembro e março, período historicamente associado a enchentes urbanas, transbordamentos de rios e deslizamentos em encostas ocupadas. No Sul, a temporada crítica se estende de abril a setembro, com ciclones extratropicais e episódios de chuva volumosa concentrada – exatamente o tipo de evento que tirou o Rio Grande do Sul do ar em 2024. No verão, há ainda os apagões prolongados, geralmente associados ao pico de demanda por ar-condicionado e a tempestades severas que derrubam linhas de transmissão.
É nesses períodos que o radioamadorismo deixa de ser tópico de revistas técnicas e volta às manchetes de portais e telejornais. Não porque a tecnologia mudou. Porque o resto, naquele momento, não funciona.
O que mudou depois de 2024
A grande novidade do pós-tragédia gaúcha não está nos equipamentos nem nas frequências. Está na institucionalização.
Em setembro de 2025, a Gerência Regional da Anatel no Rio Grande do Sul, em parceria com a Defesa Civil estadual e com a LABRE-RS (Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão), realizou o primeiro simulado anual de uma rede de comunicação redundante de emergência. A iniciativa, batizada de Rede de Operações Gaúchas de Emergência para Radioamadores, conectou cidades de norte a sul do estado em um exercício controlado.
A diferença em relação a 2024 é fundamental. Naquele ano, o radioamadorismo respondeu ao desastre por improviso heroico – operadores decidindo individualmente subir antena, ligar equipamento e abrir canal porque viram, na sua janela, a água subir. Em 2025, o estado começa a tratar essa resposta como protocolo: rotas de comunicação pré-definidas, frequências combinadas, papéis distribuídos entre operadores credenciados, exercícios periódicos.
É a diferença entre depender da boa vontade individual e ter uma camada formal de redundância prevista em planejamento de emergência. O modelo, se funcionar, deve servir de referência para outros estados expostos a eventos climáticos extremos.
Quem são, afinal, os 44 mil radioamadores brasileiros
O Brasil tem hoje aproximadamente 44 mil radioamadores certificados, segundo levantamentos da própria comunidade. Não é um clube fechado, mas também não é qualquer pessoa com um equipamento de comunicação portátil. Para operar legalmente, é preciso passar em prova técnica aplicada pela Anatel e obter o COER – Certificado de Operador de Estação de Radioamador.
A regulamentação cobre desde conhecimentos de eletrônica e propagação de sinais até regras de tráfego em frequências, ética operacional e legislação. Existem categorias diferentes, com privilégios distintos de potência e faixas de operação. A licença não é vendida, não se compra equipamento “ativado de fábrica” e não se opera sob nome de outra pessoa.
Esse rigor é, paradoxalmente, parte do motivo pelo qual o radioamadorismo funciona tão bem em emergências. Operadores certificados conhecem protocolo, sabem identificar uma estação corretamente no ar, entendem quando ceder canal para tráfego prioritário e como organizar uma rede com hierarquia clara. Não é gente brincando de walkie-talkie. É gente treinada para um cenário em que disciplina de comunicação salva vidas.
A diferença entre ser vítima e ser recurso
Para quem mora em região exposta a enchentes recorrentes, deslizamentos ou apagões prolongados – o que, no Brasil, abrange parcela enorme da população urbana, vale uma reflexão prática. Há um conjunto de medidas simples, que não exigem virar radioamador, mas que mudam radicalmente o que acontece com você se a infraestrutura digital cair.
A primeira é ter em casa um rádio portátil a pilha, com sintonia em AM, FM e, idealmente, ondas curtas. Esse é o equipamento que continuará funcionando quando o celular virar tijolo de vidro. A segunda é saber onde fica a Defesa Civil mais próxima e quais canais ela utiliza para alertas informação que costuma estar no site da prefeitura, mas que ninguém procura antes da emergência. A terceira é ter um plano familiar mínimo de reencontro caso a comunicação digital se interrompa, mesmo que por algumas horas.
Para quem se interessa de fato pelo tema, há um caminho mais longo e mais transformador: tirar a licença. O radioamadorismo é porta de entrada para áreas técnicas inteiras eletrônica analógica e digital, propagação de ondas eletromagnéticas, comunicação por satélite, antenas, processamento de sinais. E carrega uma vantagem civicamente importante. Em uma emergência, o licenciado deixa de estar no grupo das vítimas que aguardam socorro e passa para o grupo dos que conseguem fazer alguma coisa. Vira recurso.
O que vem pela frente
A tendência, observando o cenário brasileiro, é que o radioamadorismo continue migrando da esfera de hobby tradicional para a de infraestrutura crítica reconhecida. Eventos climáticos extremos não estão diminuindo pelo contrário, modelos meteorológicos apontam para frequência e intensidade crescentes em todas as regiões do país. Apagões pontuais devem permanecer, especialmente em verões de alta demanda. E a dependência social de comunicação digital, longe de recuar, só aumenta.
A combinação dessas tendências cria um cenário simples de descrever: cada vez mais pessoas, cada vez mais conectadas, cada vez mais expostas a eventos que podem desligar tudo de uma vez. Nesse cenário, ter uma camada de comunicação que sobrevive ao colapso do resto deixa de ser luxo de entusiasta e vira política pública sensata.
A iniciativa gaúcha de 2025 é, nesse sentido, mais relevante do que parece à primeira vista. Não é simulado de hobby. É reconhecimento institucional de que o rádio operado por civis treinados é parte legítima e necessária da resposta a desastres no país.
Quando a próxima vier
Quem opera rádio há tempo suficiente sabe que a pergunta nunca é “se” é “quando”. A próxima cheia vai chegar. O próximo apagão prolongado, também. O próximo ciclone, idem. Em algum ponto entre dezembro e setembro, em algum estado, em alguma cidade, o sistema digital vai cair de novo.
Quando isso acontecer, alguém vai precisar estar no ar. E essa pessoa, no quase silêncio que se instala quando o WhatsApp para de funcionar, será como foi em Blumenau em 1983, como foi em Porto Alegre em 2024 alguém com um rádio, uma antena improvisada e a paciência técnica de quem sabe que, quando o sinal cai, o rádio fala.
Carlos Rincon (PY2CER) é radioamador licenciado pela Anatel e colaborador do AntenaAtiva.com.br, onde escreve sobre tecnologia de rádio, propagação e comunicação de emergência.



