Frequência Nacional Chamada garante comunicação essencial

Definida pela Anatel na 146,520 MHz, a faixa de 2 metros conectou municípios isolados nas enchentes de 2024 e ganhou rede dedicada no Rio Grande do Sul em 2025

Por Carlos Rincon (PY2CER)

Uma frequência de rádio sem dono, a 146,520 MHz, voltou ao centro da discussão sobre segurança no Brasil depois que estações de radioamadores atenderam mais de 4 mil chamadas de emergência durante as enchentes do Rio Grande do Sul, em 2024, quando telefonia celular e internet entraram em colapso. Conhecida como Frequência Nacional de Chamada (FNC) da faixa de 2 metros, ela opera em modo simplex sem depender de torres ou repetidoras e resiste justamente onde a infraestrutura convencional falha.

O dado das 4 mil chamadas tem origem oficial e ajuda a explicar por que uma tecnologia de mais de um século voltou à pauta das autoridades.

Quando o celular cala, o rádio fala

A tragédia gaúcha de maio de 2024 deixou dezenas de municípios isolados e sem comunicação. Foi nesse vácuo que o radioamadorismo assumiu protagonismo.

O servidor da Anatel Andreas Hanke Stern atuou como voluntário e improvisou uma estação em Porto Alegre. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o ponto atendeu mais de 4 mil chamadas de emergência durante a crise.

A experiência virou projeto permanente. Em junho de 2025, Anatel, Defesa Civil estadual e a Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão do Rio Grande do Sul (LABRE-RS) firmaram parceria para estruturar a Rede de Operações Gaúchas de Emergência para Radioamadores.

O objetivo declarado é montar uma comunicação redundante entre o interior do estado e a Região Metropolitana de Porto Alegre, capaz de funcionar mesmo quando as redes convencionais saem do ar, informou a Anatel. A coordenação ficou a cargo da LABRE-RS.

O primeiro simulado da rede ocorreu no último domingo de agosto de 2025 e conectou cidades de norte a sul do estado. O exercício reuniu o presidente da LABRE-RS, Joaquim da Silva Machado, a capitã Franciele Anziliero, da Defesa Civil, e técnicos da agência reguladora.

“Os aprendizados da enchente de 2024 demonstraram que a atuação articulada entre as instituições é fundamental para o enfrentamento de situações de crise”, afirmou Mauricio Peroni, gerente da Anatel no Rio Grande do Sul.

O papel do rádio em catástrofes não é recente. Durante as enchentes de Blumenau, em 1983 e 1984, a radioamadora Alda Niemeyer a “Vovó Alda” usou o equipamento para alertar autoridades sobre a subida das águas do Rio Itajaí-Açu, conforme registro do portal DefesaNet.

O que é a 146,520 MHz, e por que ela aguenta o tranco

A FNC tem amparo legal. Está prevista no Ato 9106/2018 da Anatel, na tabela que organiza as subfaixas dos 2 metros (VHF), e vale para o Brasil e os demais países do continente americano.

A escolha de uma frequência única resolve um problema operacional básico. Sem um ponto de encontro comum, dois operadores que não se conhecem raramente se localizam no ar, cada um fixado em um canal diferente.

O modo simplex explica a resiliência. Transmissão e recepção acontecem no mesmo canal, de rádio para rádio, sem intermediários nenhuma repetidora, nenhuma estação rádio-base de operadora, nenhuma central que possa ser desligada por falta de energia ou por inundação.

A etiqueta de uso é estrita. A 146,520 serve para escutar e chamar; estabelecido o contato, os operadores migram para outra frequência e devolvem o canal à coletividade. Boa parte dos transceptores já traz a frequência gravada em uma função de prioridade, que a monitora em segundo plano e alterna automaticamente para ela quando detecta tráfego.

A faixa de 2 metros oferece ainda uma segunda referência para cenários críticos. A 146,450 MHz, também em FM simplex, é adotada no país por equipes de Defesa Civil e voluntários, segundo material de orientação publicado pela comunidade de operadores.

O número da frequência de chamada não é universal. Ele muda conforme a região do planeta, de acordo com a divisão estabelecida pela União Internacional de Radioamadores (IARU); o valor de 146,520 MHz corresponde às Américas.

Um país de poucos operadores – mas em alta

A base brasileira é enxuta para o tamanho do território, embora cresça de forma constante. O total de estações licenciadas saltou de cerca de 60 mil em 2021 para mais de 67 mil em 2025, segundo levantamento do site Antena Ativa a partir de dados da Anatel coletados em 2 de maio de 2025.

A concentração geográfica é acentuada. São Paulo responde por aproximadamente 28% das estações do país, ainda conforme a Antena Ativa.

A divisão por classes revela o perfil da comunidade. A Classe C, de entrada, soma 48.702 estações, cerca de 72% do total; as Classes A e B, mais avançadas, reúnem 18.544 estações, os 28% restantes.

Na régua internacional, a penetração ainda é modesta. Levantamento do site cabaladada.org, com base no painel de dados da Anatel, apontou 42.516 licenças de radioamador algo como 0,02% de uma população estimada pelo IBGE em 213,3 milhões de habitantes em 2021.

A diferença para os Estados Unidos é expressiva. O mesmo estudo registra cerca de 800 mil licenciados no país norte-americano, ou 0,233% da população, proporção dez vezes superior à brasileira.

O licenciamento, no Brasil, passa por modernização. Segundo o Ministério das Comunicações, os radioamadores migram para o módulo MMAR, dentro do sistema Mosaico da Anatel, que permite solicitar serviços e emitir a licença pela internet, em linha com a Resolução nº 777/2025. A pasta fixou um período de transição de três meses, no qual valem o sistema antigo e o novo.

A placa que virou indicativo

A teoria ganhou cor em um episódio prático registrado em vídeo pelo radioamador Jefferson, PU2PYC, durante uma viagem pelos Estados Unidos.

No país, é comum o operador estampar o próprio indicativo na placa do carro. O hábito conversa com uma analogia conhecida no meio: o certificado de operador (COER) equivale à carteira de motorista, a licença da estação ao documento do veículo e o indicativo de chamada à placa.

Ao cruzar com uma picape de duas antenas no teto e o indicativo na placa, Jefferson resolveu pôr a frequência à prova ao vivo. “Vamos ver se aqui nos Estados Unidos o pessoal usa mesmo a 146.520 na estrada”, disse, enquanto programava o rádio portátil.

Ele chamou pelo indicativo lido na placa, sem aviso prévio e sem conhecer o motorista. O operador respondeu em seguida.

Do outro lado estava um radioamador de Long Island, em Nova York, que voltava de um encontro do hobby. O contato foi breve e cordial, encerrado com o tradicional “73”, código que significa “saudações” no jargão. O americano mencionou operar em D-STAR, modo digital, e convidou falantes de português a se conectarem a um refletor da rede.

À medida que os veículos se distanciavam na rodovia, o sinal enfraqueceu — comportamento esperado em uma transmissão simplex feita com antena de pequeno porte. A cena resume o que a FNC promete: contato imediato entre desconhecidos, sem combinação, porque ambos sabiam onde chamar.

Usar ou não usar a frequência de chamada

O relato reabre uma controvérsia recorrente entre operadores. A etiqueta pede que a 146,520 permaneça livre, reservada a chamadas e escuta.

No dia a dia, em encontros e eventos do setor, é frequente o uso da frequência para coordenação entre participantes. “Não é para usar para rodada, concordo mas num evento, todo mundo usa para se comunicar”, admitiu Jefferson no vídeo.

A recomendação que concilia as duas posições é objetiva: empregar a FNC para abrir o contato e, logo depois, migrar para outra frequência, deixando o canal disponível para quem precisar sobretudo em uma emergência.

No Rio Grande do Sul, o exercício não será episódio único. A Anatel classificou o simulado de agosto de 2025 como o primeiro de uma série anual, o que prevê novas edições do teste nos próximos anos. Em paralelo, a transição para o módulo MMAR tornará a plataforma o canal principal de licenciamento de radioamadores no país ao fim do prazo de adaptação definido pelo Ministério das Comunicações.

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