FNIRSI 2D15P: Análise Completa do Equipamento

Osciloscópio de dois canais, multímetro True RMS e gerador DDS dividem o mesmo gabinete, mas os números de catálogo precisam ser interpretados antes de levar o equipamento para a bancada de eletrônica ou radioamadorismo.

Por Carlos Rincon – PY2CER

Uma bancada inteira dentro de um gabinete?

Três cabos chegam ao mesmo instrumento: duas pontas BNC, um par de pontas de multímetro e a saída de um gerador DDS. O FNIRSI 2D15P tenta concentrar em aproximadamente 19,5 × 12,5 × 5 cm boa parte das medições usadas por estudantes, técnicos e radioamadores.

A proposta funciona, desde que o comprador entenda a divisão interna de recursos. O aparelho oferece um osciloscópio de dois canais com até 100 MHz, um multímetro True RMS de 19.999 contagens e um gerador de sinais anunciado para até 10 MHz. Os três módulos são utilizáveis, mas nenhum deles deve ser avaliado apenas pelo maior número impresso na ficha técnica.

O osciloscópio é a função principal. O multímetro cumpre bem o papel de instrumento auxiliar e o gerador atende testes gerais em baixa frequência. A compra faz mais sentido para quem precisa reduzir espaço e montar uma bancada funcional do que para quem exige desempenho equivalente ao de três instrumentos dedicados.

Também existe uma confusão de nomenclatura. O termo “osciloscópio de fósforo” não indica um aparelho destinado a medir fósforo. Trata-se de uma forma de persistência digital em que a intensidade ou a cor do traço representa quantas vezes determinado ponto apareceu nas aquisições.

A ficha técnica, traduzida para uso real

FunçãoEspecificação divulgadaLeitura prática
Osciloscópio com um canal100 MHz e 500 MSa/sAdequado para eletrônica geral, áudio, fontes, microcontroladores, HF e sinais moderadamente rápidos
Osciloscópio com dois canais50 MHz por canal e 250 MSa/sBom para comparar entrada e saída, mas já limita análises próximas de 50 MHz
Memória10 k, 100 k ou 1 M de pontosPermite capturas mais longas, mas não substitui memória segmentada e ferramentas avançadas de busca
Multímetro19.999 contagens, True RMSBoa resolução de leitura, sem que isso represente automaticamente exatidão metrológica de 19.999 partes
Gerador DDSAté 10 MHz e 3 VppOs 10 MHz referem-se à senoide; a faixa prática de melhor qualidade fica próxima de 2 MHz
TelaIPS capacitiva de 4,3 polegadasBoa para um instrumento compacto, embora menor que telas de osciloscópios tradicionais
AlimentaçãoBateria de 5.000 mAh e USB-CFacilita o uso fora da bancada, mas não prova isolamento galvânico entre entradas

Segundo a FNIRSI, o instrumento possui sensibilidade vertical de 10 mV/div a 10 V/div, base de tempo de 5 ns/div a 50 s/div, impedância de entrada de 1 MΩ, acoplamento AC/DC e modos de trigger automático, normal e único.

O pacote inclui duas pontas P6100, cabos de multímetro, cabo BNC com garras, cabo USB e manual. A ausência de bolsa ou maleta não interfere na medição, mas pesa para quem pretende transportar o aparelho entre oficina, escola, estação e atividades de campo.

Os 100 MHz precisam de um asterisco

O número mais chamativo é a largura de banda de 100 MHz. Ela está disponível com apenas um canal ativo. Quando os dois canais são usados, a largura de banda cai para 50 MHz por canal, enquanto a taxa máxima de amostragem passa de 500 MSa/s para 250 MSa/s.

Essa redução não torna o equipamento inadequado. Em uma fonte chaveada, por exemplo, os dois canais podem mostrar simultaneamente o comando do transistor e a resposta na saída. Em áudio, permitem comparar entrada e saída de um amplificador. Em um filtro, exibem a defasagem e a atenuação entre dois pontos.

A limitação aparece quando o sinal se aproxima da banda máxima. Em radioamadorismo, os circuitos de HF ficam dentro de uma faixa confortável com um canal. Com dois canais, uma análise próxima dos 50 MHz já trabalha no limite declarado.

Largura de banda também não significa reprodução perfeita de qualquer sinal naquela frequência. A especificação costuma indicar o ponto em que uma senoide já sofre atenuação de 3 dB, chegando a cerca de 70,7% da amplitude real. Ondas quadradas e pulsos exigem largura de banda adicional para preservar suas harmônicas e seus tempos de subida. A Keysight recomenda que o conjunto formado por ponta e osciloscópio tenha banda de três a cinco vezes maior que a frequência fundamental quando a forma do sinal precisa ser reproduzida com fidelidade.

Na prática, uma onda quadrada de 30 MHz pode aparecer na tela, mas seus flancos serão arredondados se as harmônicas necessárias estiverem fora da banda do instrumento. Para verificar se um oscilador está funcionando, isso pode bastar. Para medir tempo de subida, overshoot ou integridade de sinal, pode não bastar.

Em teste publicado pela Elektor Magazine, o avaliador Harry Baggen aplicou sinais até 60 MHz, limite do gerador disponível no ensaio. A amplitude observada permaneceu praticamente constante nessa faixa e o ajuste automático de trigger encontrou uma visualização utilizável em poucos segundos. O resultado indica bom comportamento dentro da faixa testada, mas não comprova sozinho todo o desempenho até 100 MHz.

Memória, trigger e fósforo digital

A profundidade de memória pode ser ajustada para 10 mil, 100 mil ou 1 milhão de pontos. Quanto maior o registro, mais tempo o osciloscópio consegue armazenar mantendo detalhes temporais.

Esse recurso ajuda a procurar uma falha que aparece durante a partida de uma fonte, um pulso estreito em uma linha digital ou uma alteração ocasional no duty cycle de um PWM. O modo de trigger único também permite armar o instrumento e congelar um evento que acontece apenas uma vez.

Um milhão de pontos, contudo, não transforma o 2D15P em uma plataforma avançada de depuração. O aparelho não oferece o mesmo nível de busca automática, memória segmentada, decodificação de protocolos, trigger lógico e análise de pacotes encontrado em osciloscópios profissionais.

A representação por temperatura de cor e a persistência infinita são mais interessantes do que parecem. Em vez de desenhar todas as aquisições com a mesma intensidade, o equipamento destaca regiões que aparecem com maior frequência.

Esse tipo de visualização ajuda a localizar jitter, instabilidade, ruído intermitente e eventos raros misturados ao traço principal. A fabricante informa escala de cinza com 128 níveis e taxa de captura próxima de 1.200 formas de onda por segundo. Taxa de captura não é taxa de amostragem: a primeira indica quantas aquisições completas são atualizadas; a segunda indica quantos pontos são coletados dentro do sinal.

O filtro selecionável de 20 MHz merece uso em medições de ripple. O manual informa que o modo 20M elimina componentes acima dessa frequência, reduzindo a presença de ruído de alta frequência na tela.

O filtro não corrige uma técnica de medição ruim. Ao medir ripple, a garra de aterramento comprida da ponta pode funcionar como uma antena e acrescentar picos que não pertencem à fonte. A ligação de terra deve ser curta, preferencialmente feita com mola de aterramento ou adaptador apropriado.

Botões físicos fazem diferença

A tela IPS de 4,3 polegadas é acompanhada por botões e controles rotativos. Essa combinação evita um dos principais problemas dos osciloscópios controlados apenas pelo toque: a necessidade de abrir menus para alterar funções usadas a todo instante.

Escala vertical, base de tempo, posição, nível de trigger e cursores podem ser ajustados por controles físicos. Para quem está com uma ponta apoiada no circuito e apenas uma mão livre, girar um knob é mais rápido do que procurar um comando pequeno na tela.

A interface não segue uma lógica única. Algumas funções são abertas por botões, mas configuradas pelo touchscreen. O gerador possui tecla dedicada, enquanto o multímetro precisa ser selecionado na tela ou pelo menu. A Elektor considerou essa inconsistência administrável, mas observou que a navegação seria mais coerente se os menus também aceitassem os controles rotativos.

A ventoinha traseira é audível. Segundo o teste independente, ela produz menos ruído do que alguns instrumentos de bancada, mas continua presente. Os bipes de operação podem ser reduzidos ou desligados no menu. Para gravar vídeos técnicos ou trabalhar com sinais de áudio em ambiente silencioso, essa característica precisa entrar na decisão de compra.

Multímetro: boa resolução, mas continuidade lenta

O multímetro mede tensão contínua até 1.000 V, tensão alternada até 750 V, corrente AC e DC até 9,999 A, resistência até 19,999 MΩ e capacitância até 99,99 mF. Também oferece testes de diodo e continuidade.

As 19.999 contagens ampliam a resolução. Uma fonte próxima de 12 V, por exemplo, pode ser apresentada com mais casas do que em um multímetro básico de 2.000 ou 6.000 contagens.

Resolução não é sinônimo de exatidão. Um display pode mostrar muitos dígitos e ainda carregar erro de calibração, deriva térmica ou limitações do conversor. A página comercial da FNIRSI informa faixas de medição, mas não apresenta de forma clara uma tabela completa de exatidão para cada escala.

No ensaio da Elektor, os pontos testados de tensão, corrente e resistência apresentaram desvios inferiores a 0,05%. A capacitância ficou em nível comparável ao de multímetros mais caros. Esse resultado é positivo para a unidade avaliada, mas não equivale a um certificado de calibração nem define a tolerância de toda a produção.

O gráfico de tendência é útil para acompanhar processos lentos. Ele mostra a queda de uma bateria sob carga, a estabilização de uma fonte, a carga de um capacitor ou uma variação térmica convertida em tensão.

O modo automático tenta reconhecer tensão AC, tensão DC ou resistência. No teste independente, a identificação não funcionou corretamente abaixo de aproximadamente 800 mV, exigindo seleção manual. O aparelho também usa faixa automática, sem permitir que o operador trave uma escala específica.

O teste de continuidade é o ponto fraco. O sinal sonoro responde com atraso e não mostra uma leitura correspondente na tela. Quem procura trilhas interrompidas ou testa dezenas de pontos consecutivos em uma placa perceberá a diferença em relação a um multímetro profissional com buzzer rápido.

Gerador DDS: útil até onde?

A saída DDS oferece senoide, quadrada, triangular, ruído, nível DC, meia onda, onda completa e formas em escada. A amplitude é ajustável entre 0,1 e 3 Vpp, com duty cycle de 0 a 100%.

A ficha técnica anuncia frequência máxima de 10 MHz, mas o manual esclarece que esse limite se aplica à senoide. As demais formas trabalham até cerca de 2 MHz.

Mesmo na senoide, o número máximo não deve ser confundido com qualidade constante em toda a faixa. A Elektor verificou que, acima de alguns megahertz, a quantidade de degraus por período diminui e a forma de onda perde qualidade.

“Use o gerador até 2 MHz e ele fará bem o trabalho”, concluiu Harry Baggen, em tradução livre.

Para testar amplificadores de áudio, filtros ativos, comparadores, circuitos com amplificadores operacionais e entradas de microcontroladores, essa faixa atende boa parte das experiências. O gerador também facilita uma demonstração didática: injeta-se o sinal em um filtro e observam-se entrada e saída nos dois canais.

A saída permanece positiva e não fornece excursão simétrica ao redor de 0 V. Circuitos que exigem sinal bipolar podem precisar de capacitor de acoplamento, polarização externa ou outro gerador.

Os 3 Vpp também limitam testes que exigem maior amplitude ou acionamento de cargas com baixa impedância. O DDS integrado deve ser tratado como uma fonte auxiliar de sinais, não como substituto direto de um gerador dedicado com controle de offset, impedância de saída documentada e baixa distorção.

Onde ele entra na bancada do radioamador

No radioamadorismo, o 2D15P atende melhor os circuitos ao redor do transceptor do que a saída final de RF.

Ele pode observar áudio de microfone, sinal de PTT, ALC, chaveamento de relés, fontes de alimentação, ripple, osciladores, circuitos de FI, filtros, moduladores e etapas de controle. Em projetos de HF, um canal ativo cobre as faixas de 160 a 10 metros dentro da largura nominal anunciada.

A faixa de 6 metros exige cautela. Com dois canais ativos, os 50 MHz ficam no limite da especificação. Mesmo com um canal, a leitura de uma senoide não significa que o aparelho reproduzirá corretamente pulsos, modulação complexa ou harmônicas próximas do limite.

O instrumento não serve para observar diretamente sinais de 144 MHz ou frequências superiores. Também não substitui analisador de espectro, analisador vetorial de redes, wattímetro de RF, frequencímetro de alta estabilidade ou medidor de estacionária.

Nunca se deve ligar a saída de um transmissor diretamente ao BNC do osciloscópio. Um transmissor de 100 W em 50 Ω produz aproximadamente 70,7 V RMS e 200 Vpp de senoide, sem considerar transientes ou erro de carga. A medição exige carga fantasma, atenuador dimensionado para a potência e amostragem correta.

A indicação de “800 V com ponta em 10×” também não autoriza medições indiscriminadas em rede elétrica. Tensão máxima de entrada, isolamento galvânico e categoria de sobretensão são critérios diferentes. A página comercial lista o valor de 800 V, mas não apresenta no mesmo quadro técnico uma classificação de segurança detalhada para instalações elétricas.

Sem documentação inequívoca sobre isolamento entre os BNCs, o gerador e o multímetro, o procedimento seguro é considerar que as referências podem ser comuns. Fontes ligadas diretamente à rede, inversores, primários de fontes chaveadas e circuitos flutuantes exigem ponta diferencial e procedimentos próprios.

Quanto custa e quando o conjunto compensa

Na consulta editorial, a loja oficial apresentava o equipamento por US$ 175,99, antes das variações de frete, câmbio e tributação aplicáveis ao destino. Esse preço é volátil e deve ser conferido antes da compra.

A comparação correta não é apenas com outro osciloscópio. Deve-se somar o custo de um osciloscópio de dois canais, um multímetro True RMS e um gerador DDS separados.

Instrumentos dedicados tendem a oferecer melhor ergonomia, uso simultâneo mais flexível, documentação técnica mais extensa e manutenção independente. O 2D15P responde com menor ocupação de bancada, bateria interna e integração das três funções.

Se o comprador já possui um bom multímetro e um gerador de bancada, talvez seja melhor investir o mesmo orçamento em um osciloscópio dedicado. Para quem parte de uma bancada vazia, a integração tem mais valor.

Pontos fortes e limitações

O que pesa a favor:

  • dois canais com até 100 MHz em operação individual;
  • taxa máxima de 500 MSa/s;
  • memória selecionável até 1 milhão de pontos;
  • persistência infinita e temperatura de cor;
  • filtro de banda de 20 MHz;
  • multímetro True RMS de 19.999 contagens;
  • gerador DDS de um canal;
  • botões e controles rotativos;
  • bateria de 5.000 mAh e carregamento USB-C;
  • duas pontas de osciloscópio incluídas.

O que limita o uso:

  • redução para 50 MHz e 250 MSa/s com dois canais;
  • gerador com melhor desempenho prático próximo de 2 MHz;
  • amplitude máxima de 3 Vpp;
  • ausência de saída bipolar simétrica;
  • continuidade lenta;
  • interface dividida entre botões e touchscreen;
  • ventoinha audível;
  • falta de tabela completa de exatidão e documentação de segurança mais detalhada na página comercial;
  • ausência de decodificação avançada de protocolos e triggers complexos.

Veredito: vale a pena comprar o FNIRSI 2D15P?

O FNIRSI 2D15P vale a pena para estudantes, radioamadores, makers e pequenas oficinas que precisam montar uma bancada compacta com um único investimento. O osciloscópio é a parte mais convincente do conjunto, principalmente pela presença de controles físicos, dois canais, memória profunda e persistência digital.

O multímetro entrega boa resolução e apresentou baixo desvio nos pontos avaliados pela Elektor, mas a ausência de uma especificação completa de exatidão impede tratá-lo como instrumento metrológico. A continuidade lenta também reduz sua eficiência na manutenção repetitiva de placas.

O gerador resolve testes gerais em áudio e baixa frequência. Seus 10 MHz não devem ser usados como principal argumento de compra. A faixa mais segura para preservar uma forma de onda utilizável fica em torno de 2 MHz.

A nota geral fica em 8,3 de 10.

O equipamento não recebe uma nota maior porque os limites do gerador, a queda de desempenho com dois canais, a continuidade lenta e as lacunas de documentação impedem compará-lo a três instrumentos profissionais. A integração, porém, é coerente e reduz uma barreira importante: permite que o estudante ou radioamador saia da leitura teórica e comece a observar sinais reais.

Esse talvez seja o melhor papel do 2D15P. Ele não encerra a montagem da bancada. Ele abre a bancada.

Perguntas frequentes sobre o FNIRSI 2D15P

O FNIRSI 2D15P tem realmente 100 MHz?

Sim, com apenas um canal ativo. Com os dois canais em funcionamento, a largura de banda informada cai para 50 MHz por canal.

Ele serve para radioamadorismo?

Serve para áudio, fontes, sinais de controle, osciladores, FI e muitos circuitos de HF. Não é adequado para medir diretamente a saída de transmissores nem sinais de VHF ou UHF.

Posso medir a saída de um rádio de 100 W?

Não diretamente. Use carga fantasma, atenuador de RF dimensionado e método de amostragem apropriado. A conexão direta pode destruir a entrada do osciloscópio.

O gerador entrega 10 MHz em todas as formas de onda?

Não. O limite de 10 MHz se aplica à senoide. As demais formas trabalham até cerca de 2 MHz, e mesmo a senoide perde qualidade perto do limite máximo.

O multímetro substitui um modelo profissional?

Para eletrônica geral, pode atender bem. Para manutenção rápida, medições certificadas ou trabalhos em instalações elétricas, um multímetro dedicado com categoria de segurança e exatidão documentadas continua sendo a opção correta.

O que significa osciloscópio digital de fósforo?

É uma forma de representar a frequência de ocorrência dos pontos da onda por intensidade ou cor. Não existe fósforo físico sendo medido pelo aparelho.

A bateria torna as entradas isoladas?

Não necessariamente. Funcionamento por bateria não garante isolamento galvânico entre canais, gerador, multímetro e USB. Confirme a documentação e trate as referências como potencialmente comuns.

Para quem o FNIRSI 2D15P não é indicado?

Não é indicado para laboratórios que exigem calibração rastreável, análise de RF em VHF/UHF, medições diretas de alta potência, instalações elétricas de alta energia ou desenvolvimento que dependa de decodificação avançada de protocolos.

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