Ilustração de ondas de rádio em um cenário de tempestade e sol escaldante

Super El Niño e o papel dos radioamadores em crises

O fortalecimento do El Niño em 2026 coloca novamente em evidência a necessidade de preparação para secas, tempestades, ondas de calor, incêndios florestais, inundações e interrupções nos sistemas convencionais de comunicação.

No Brasil, essa discussão interessa diretamente aos radioamadores. Quando chuvas intensas derrubam energia, torres, enlaces de internet e telefonia celular, uma estação de rádio independente pode se transformar em um dos poucos meios disponíveis para transmitir informações entre comunidades, equipes de campo, abrigos e órgãos públicos.

Entretanto, é necessário separar três assuntos que frequentemente aparecem misturados: o fenômeno climático El Niño, as condições de propagação das ondas de rádio e o papel do radioamadorismo nas emergências.

O chamado “Super El Niño” de 2026

Em 31 de julho de 2026, a Organização Meteorológica Mundial informou que um El Niño forte estava se desenvolvendo e deveria continuar se intensificando durante o trimestre de agosto a outubro. A organização também apontou maior probabilidade de temperaturas acima da média em grande parte do planeta e alterações significativas nos padrões de chuva.

A expressão “Super El Niño”, utilizada com frequência pela imprensa e pelas redes sociais, merece uma explicação. A Organização Meteorológica Mundial classifica os episódios como fracos, moderados, fortes ou muito fortes. “Super El Niño” não faz parte de sua classificação operacional oficial.

Isso não significa que o fenômeno de 2026 seja fraco. Pelo contrário: os modelos analisados pelos órgãos meteorológicos brasileiros indicam alta probabilidade de um El Niño muito forte, com anomalias da temperatura da superfície do Pacífico Equatorial superiores a 2 °C entre a primavera e o verão de 2026–2027. Também existe probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027.

Portanto, o termo mais tecnicamente adequado neste momento é El Niño forte ou muito forte, embora “Super El Niño” continue sendo empregado informalmente para destacar sua possível intensidade.

O que o El Niño poderá provocar no Brasil

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial central e oriental, acompanhado de alterações na circulação atmosférica. Essas mudanças interferem na distribuição das chuvas e das temperaturas em diferentes partes do planeta. Seus efeitos, porém, não são idênticos em todos os lugares nem acontecem da mesma maneira em todos os episódios.

Para o trimestre de agosto a outubro de 2026, o cenário brasileiro apresenta, de maneira geral, tendência de chuvas acima da média em áreas da Região Sul e precipitações abaixo da média no centro-norte do país.

Também existe elevada probabilidade de temperaturas acima da média durante o segundo semestre. Essa combinação pode contribuir para ondas de calor, redução da umidade do solo, estiagens prolongadas e aumento do risco de incêndios florestais.

Na prática, o Brasil poderá enfrentar situações bastante diferentes ao mesmo tempo.

No Sul, chuvas persistentes ou concentradas podem favorecer enchentes, alagamentos, deslizamentos, quedas de árvores e interrupções no fornecimento de energia. No Norte, Nordeste e em partes do centro do país, a redução das chuvas poderá agravar secas, baixar níveis de rios e reservatórios e ampliar o risco de queimadas.

Isso não significa que todas essas situações acontecerão obrigatoriamente. Previsões sazonais indicam aumento ou redução de probabilidades. Frentes frias, bloqueios atmosféricos, temperatura do Atlântico, relevo e condições locais também influenciam cada evento.

Ainda assim, as previsões representam uma janela importante para planejamento. O próprio Painel El Niño 2026–2027, formado por instituições como INMET, INPE, Cemaden, ANA, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil Nacional, reforça a necessidade de monitoramento contínuo e preparação antecipada.

Onde entra o radioamadorismo

O radioamadorismo não substitui a Defesa Civil, os bombeiros, os serviços de telecomunicações ou os sistemas oficiais de alerta. Sua função é complementar esses recursos, principalmente quando as redes convencionais ficam congestionadas, parcialmente danificadas ou completamente indisponíveis.

A União Internacional de Telecomunicações reconhece que as radiocomunicações são essenciais nas diferentes fases da gestão de desastres. Em alguns cenários, quando a infraestrutura cabeada ou celular é destruída, o rádio pode ser o único meio disponível para apoiar as operações de socorro.

A entidade inclui expressamente o Serviço de Radioamador entre os recursos que podem ajudar na distribuição de alertas e na organização das operações de auxílio, especialmente quando outros serviços ainda não estão funcionando.

Uma estação de radioamador pode funcionar com:

  • transceptor alimentado por bateria;
  • antena simples;
  • fonte independente de energia;
  • operação em HF, VHF ou UHF;
  • comunicação ponto a ponto;
  • repetidores;
  • redes locais ou regionais;
  • modos digitais de baixa velocidade.
Técnico ajustando equipamentos de rádio em abrigo improvisado
Rádio independente em abrigo de emergência

A International Amateur Radio Union destaca que um operador treinado pode estabelecer comunicação utilizando um transceptor HF de baixa potência, uma bateria automotiva e uma antena de fio. Em VHF e UHF, redes locais podem continuar funcionando independentemente da infraestrutura comercial de telecomunicações.

Essa independência é particularmente importante durante enchentes, incêndios florestais e tempestades severas, quando estações rádio-base podem ficar sem energia, fibras ópticas podem ser rompidas e o grande volume de chamadas pode sobrecarregar as redes móveis.

El Niño melhora a propagação em HF?

Não existe uma relação direta e simples pela qual um El Niño forte necessariamente melhore ou prejudique a propagação nas faixas de HF.

As comunicações de longa distância entre 3 e 30 MHz dependem principalmente da ionosfera. Sua densidade e estrutura são influenciadas pela radiação solar, pelas tempestades geomagnéticas, pelas ejeções de massa coronal e por outros fenômenos do chamado clima espacial.

Erupções solares podem aumentar a ionização da camada D, produzindo absorção e até bloqueios temporários das comunicações em HF no lado iluminado da Terra. Portanto, para prever a propagação ionosférica, índices como fluxo solar, manchas solares, Kp, velocidade do vento solar e absorção da camada D continuam sendo mais importantes do que o El Niño.

O fenômeno climático, entretanto, pode produzir efeitos indiretos sobre uma operação de rádio.

Tempestades podem elevar o ruído atmosférico nas faixas mais baixas. Ventos fortes podem danificar antenas e torres. Inundações podem alterar o acesso às estações. Falhas prolongadas de energia podem limitar a autonomia dos equipamentos. Incêndios podem obrigar operadores e repetidores a abandonar determinados locais.

Em VHF, UHF e micro-ondas, condições meteorológicas também podem modificar temporariamente a propagação troposférica. Gradientes de temperatura, umidade e pressão interferem na refratividade da atmosfera e podem produzir dutos troposféricos ou alcances anormais.

A própria União Internacional de Telecomunicações utiliza parâmetros meteorológicos e zonas radioclimáticas em seus modelos de previsão para enlaces terrestres em VHF e UHF. Isso mostra que o tempo atmosférico pode influenciar essas frequências, mas não significa que todo episódio de El Niño produzirá automaticamente uma abertura de propagação.

A importância das redes de emergência

O Brasil possui experiências de integração entre radioamadores e órgãos de proteção e Defesa Civil, como a Rede Nacional de Emergência de Radioamadores e as Redes Estaduais de Emergência de Radioamadores.

A finalidade dessas estruturas é suplementar as comunicações quando os meios habituais não puderem ser utilizados em razão de desastre, situação de emergência ou calamidade pública.

Em São Paulo, a REER-SP integra a estrutura estadual de preparação e resposta. A Defesa Civil mantém coordenadores regionais e utiliza radioamadores cadastrados e treinados para apoiar as comunicações emergenciais.

Campinas também já realizou simulados para testar conexões por radioamador em operações da Defesa Civil, especialmente em áreas sujeitas a incêndios, dificuldades de acesso ou falhas de comunicação.

Esse tipo de exercício é fundamental. Não basta possuir um rádio guardado. Uma rede de emergência precisa conhecer previamente:

  • quem são os operadores disponíveis;
  • quais estações possuem energia independente;
  • quais repetidores têm cobertura regional;
  • quais frequências serão empregadas;
  • como as mensagens serão registradas;
  • onde estão os abrigos e pontos estratégicos;
  • quais operadores podem trabalhar em campo;
  • como será feita a ligação entre VHF local e HF regional.

Como uma estação pode se preparar

Uma operação preparada para eventos climáticos extremos deve possuir redundância. Nenhuma faixa, equipamento ou tecnologia deve ser considerada infalível.

Para distâncias locais, VHF e UHF podem ligar equipes de campo, abrigos e postos de comando. Para comunicações regionais, o HF, incluindo operações de incidência quase vertical — NVIS — pode cobrir áreas onde repetidores e enlaces de internet não estão disponíveis.

Uma estação de apoio deveria considerar, no mínimo:

  1. transceptor HF e equipamento VHF/UHF;
  2. antenas simples e reparáveis em campo;
  3. baterias carregadas e identificadas;
  4. sistema de recarga solar ou automotiva;
  5. cabos, conectores, fusíveis e ferramentas;
  6. rádio portátil para recepção de alertas;
  7. lista impressa de frequências e contatos;
  8. formulários para registro de mensagens;
  9. mapas da região;
  10. equipamentos protegidos contra água e poeira.

Também é necessário estabelecer disciplina operacional. Mensagens emergenciais precisam ser breves, precisas e confirmadas. Informações não verificadas podem provocar deslocamentos desnecessários, pânico e desperdício de recursos.

O radioamador voluntário deve atuar integrado à coordenação responsável, evitando deslocar-se por conta própria para áreas de risco. Sua maior contribuição não está apenas no equipamento, mas na capacidade de instalar uma estação, adaptar antenas, administrar energia, escolher frequências e manter uma rede organizada sob condições adversas.

O rádio como parte da resiliência climática

O possível El Niño muito forte de 2026–2027 não deve ser tratado apenas como um assunto meteorológico. Ele representa um teste para sistemas de energia, abastecimento, transporte, saúde, Defesa Civil e telecomunicações.

O radioamadorismo não impedirá uma enchente, uma seca ou um incêndio. Mas poderá manter uma comunidade conectada quando outros sistemas falharem.

A preparação precisa começar antes da tempestade, da queimada ou do apagão. Clubes, associações e operadores individuais devem revisar equipamentos, testar baterias, verificar antenas, mapear áreas sem cobertura e participar de exercícios conjuntos com os órgãos responsáveis.

Em um cenário de clima mais extremo, o valor do radioamadorismo não estará na quantidade de equipamentos acumulados, mas na existência de operadores treinados, organizados e capazes de colocar uma rede de comunicação no ar quando ela realmente for necessária.

Respostas de 3

  1. Muito interessante e relevante o conteúdo.
    Uma prática que não se vê mais e de ética voltar a ocorrer seria do QAP nas frequência de emergência e chamada como por exemplo em VHF 146.520 MHz.
    Tente chamar em qualquer horário… Não haverá ninguém (infelizmente).
    Queria propor uma mobilização no sentido de se manter sempre um equipamento em QAP nessa frequência.
    Juntos somos mais fortes.
    PY1YW – Renato

  2. Show.. Sou Radioamador e Faço parte do GRAC grupo de ação coordenadas da DCivil Rio do Sul – SC. PU5LAC Beto

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