ELETROMAGNETISMO BÁSICO: Noções básicas sobre cargas elétricas, campos elétricos, campos magnéticos e indutância;

Eletromagnetismo Básico: Cargas Elétricas, Campos Elétricos, Campos Magnéticos e Indutância

1. Introdução

O eletromagnetismo é o ramo da Física que unifica o estudo da eletricidade e do magnetismo como um fenômeno único e fundamental[1]. Durante séculos, cientistas estudavam esses fenômenos separadamente, até que no século XIX descobriu-se que eles estão intimamente conectados[2].

A relação entre eletricidade e magnetismo é a base de praticamente toda a tecnologia moderna: desde motores elétricos até geradores de energia, transformadores, sistemas de comunicação, e até os campos que cercam nossos corpos[3].

Este material apresenta os conceitos fundamentais do eletromagnetismo: as cargas elétricas que criam campos, os campos elétricos que exercem forças, os campos magnéticos gerados por cargas em movimento, e a indutância que armazena energia magnética.

Objetivos de Aprendizado

Ao final desta apostila você será capaz de:

  • Compreender o conceito de cargas elétricas e sua interação
  • Entender os campos elétricos e como calculá-los
  • Compreender os campos magnéticos gerados por correntes
  • Aplicar a Lei de Faraday e a Lei de Lenz
  • Entender o conceito de indutância e auto-indução
  • Reconhecer aplicações práticas do eletromagnetismo

2. Cargas Elétricas

2.1 Natureza das Cargas Elétricas

As cargas elétricas são propriedades fundamentais da matéria que existem em dois tipos: positivas e negativas[1].

Características das Cargas:

  1. Carga Positiva (+): Associada aos prótons no núcleo dos átomos. Representa “falta de elétrons”
  2. Carga Negativa (-): Associada aos elétrons orbitando o núcleo. Representa “excesso de elétrons”
  3. Carga Neutra: Quando o número de prótons e elétrons é igual
  4. Carga Fundamental: A menor unidade de carga é a do elétron: e=1,610−19 Coulombs

Princípios Fundamentais:

Cargas opostas se atraem, cargas iguais se repelem. Essa é uma força fundamental da natureza, assim como a gravidade[2].

Símbolo: Q ou q

Unidade: Coulomb (C)

1 Coulomb = Carga de aproximadamente 6,251018 elétrons

2.2 Lei de Coulomb

A Lei de Coulomb descreve a força entre duas cargas elétricas pontuais. É uma das leis fundamentais do eletromagnetismo[1].

Enunciado: A força entre duas cargas é diretamente proporcional ao produto das cargas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre elas.

Fórmula:

F=k|Q1Q2|r2

Onde:

  1. F = força (Newtons)
  2. k = constante de Coulomb = 8,99109 Nm2C2 (geralmente usa-se k9109)
  3. Q1 e Q2 = cargas elétricas (Coulombs)
  4. r = distância entre as cargas (metros)

Características:

  1. A força é vetorial: tem direção e sentido
  2. Se as cargas têm o mesmo sinal, a força é repulsiva
  3. Se as cargas têm sinais opostos, a força é atrativa
  4. A força diminui com o quadrado da distância: aumentar a distância em 2x reduz a força a 1/4

Exemplo Prático:

Calcular a força entre duas cargas de 2 μC (2 × 10⁻⁶ C) e 3 μC (3 × 10⁻⁶ C) separadas por 10 cm (0,1 m):

F=9109210−6310−6(0,1)2

F=9109610−120,01

F=9109610−10=5,4 N

A força entre elas é de 5,4 Newtons (bastante significativa para cargas tão pequenas!).

2.3 Processos de Eletrização

Existem três processos pelos quais um objeto pode adquirir carga elétrica:

Por Atrito:

Dois materiais em contato e depois separados transferem elétrons entre si. O material que “rouba” elétrons fica negativo, o outro fica positivo.

  1. Exemplo: Esfregar um pano de seda em um bastão de vidro
  2. O vidro fica positivo (perde elétrons)
  3. A seda fica negativa (ganha elétrons)

Por Contato:

Um objeto carregado toca um objeto neutro, transferindo parte de sua carga.

  1. Exemplo: Uma esfera carregada negativamente toca uma esfera neutra
  2. A carga se distribui entre as duas esferas
  3. Se forem idênticas, cada uma fica com metade da carga original

Por Indução:

Um objeto carregado próximo a um objeto neutro induz uma redistribuição de cargas sem contato direto.

  1. Exemplo: Aproximar um bastão carregado negativamente de uma esfera neutra
  2. As cargas positivas na esfera se movem para o lado próximo do bastão
  3. As cargas negativas se movem para o lado distante
  4. A esfera fica induzida (mas eletricamente neutra no geral)

3. Campos Elétricos

3.1 Conceito de Campo Elétrico

Um campo elétrico é uma região do espaço onde uma carga elétrica experimenta uma força[2].

Definição Formal: O campo elétrico é uma grandeza vetorial que representa a força por unidade de carga que seria exercida sobre uma carga de teste positiva colocada naquele ponto do espaço.

Símbolo: E

Unidade: Volt por metro (V/m) ou Newton por Coulomb (N/C)

Importância:

  1. O campo elétrico é o mecanismo pelo qual as cargas exercem força à distância
  2. Não é necessário contato direto para exercer uma força
  3. O campo existe independentemente de haver outra carga presente
  4. Todo espaço ao redor de uma carga possui um campo elétrico

3.2 Campo Elétrico de uma Carga Pontual

A intensidade do campo elétrico criado por uma carga pontual é calculada por:

E=kQr2

Onde:

  1. E = intensidade do campo elétrico (V/m ou N/C)
  2. k = constante de Coulomb = 9109 Nm2C2
  3. Q = carga geradora do campo (Coulombs)
  4. r = distância do ponto até a carga (metros)

Características do Campo:

  1. O campo aponta para fora de uma carga positiva (divergente)
  2. O campo aponta para dentro de uma carga negativa (convergente)
  3. O campo é mais intenso próximo à carga e diminui com a distância (lei do quadrado inverso)
  4. Aumentar a distância em 2x reduz o campo a 1/4

Exemplo:

Calcular o campo elétrico a 1 metro de uma carga de 5 μC:

E=9109510−612=45.000 V/m

A intensidade do campo é de 45 kV/m (45.000 Volts por metro).

3.3 Linhas de Campo Elétrico

As linhas de campo elétrico são representações visuais do campo[2]. Elas ajudam a visualizar a direção e a intensidade do campo.

Regras para Linhas de Campo:

  1. Saem de cargas positivas (fontes)
  2. Entram em cargas negativas (sumidouros)
  3. Nunca se cruzam (campo é único em cada ponto)
  4. Quanto mais perto as linhas, mais intenso o campo
  5. Linhas retas: campo uniforme
  6. Linhas curvas: campo não-uniforme

Padrões de Campo:

ConfiguraçãoPadrão de LinhasDescrição
Carga isolada (+)Linhas saindo em todas as direçõesCampo radial divergente
Carga isolada (-)Linhas entrando de todas as direçõesCampo radial convergente
Duas cargas (+) e (-)Linhas saindo da positiva e entrando na negativaDipolo elétrico
Duas cargas iguais (+)(+)Linhas se repelem no meioCampo repulsivo
Placas paralelas opostasLinhas paralelas e uniformesCampo uniforme

Table 1: Padrões de Linhas de Campo Elétrico

3.4 Potencial Elétrico e Diferença de Potencial

Potencial Elétrico: É a energia por unidade de carga em um ponto do espaço.

V=kQr

Símbolo: V

Unidade: Volt (V)

Diferença de Potencial (Tensão):

V=VA−VB

A diferença de potencial entre dois pontos é o trabalho por unidade de carga necessário para mover uma carga de um ponto para o outro.

Relação com Campo Elétrico:

Para campos uniformes:

E=Vd

Onde:

  1. E = intensidade do campo (V/m)
  2. V = diferença de potencial (Volts)
  3. d = distância entre os pontos (metros)

Exemplo:

Se a diferença de potencial entre duas placas paralelas é 100 V e a distância entre elas é 10 cm (0,1 m):

E=1000,1=1000 V/m

O campo elétrico entre as placas é de 1000 V/m.

4. Campos Magnéticos

4.1 Conceito de Campo Magnético

Um campo magnético é uma região do espaço onde materiais magnéticos ou cargas em movimento experimentam uma força[2][3].

Diferenças Fundamentais Entre Campo Elétrico e Campo Magnético:

AspectoCampo ElétricoCampo Magnético
OrigemCargas elétricas estacionáriasCargas em movimento (correntes)
FonteCarga puntual, placa carregadaFio com corrente, ímã, solenóide
PolosCarga isolada é possívelSempre há polos N e S pareados
LinhasSaem da carga positivaFormam circuitos fechados
ForçaAtua sobre cargas em repousoAtua sobre cargas em movimento
InteraçãoAtração e repulsão diretaForça perpendicular ao movimento

Table 2: Comparação Entre Campos Elétricos e Magnéticos

Símbolo: B ou H

Unidade: Tesla (T) ou Gauss (Gs)

1 Tesla = 10.000 Gauss

4.2 Ímãs e Magnetismo Permanente

Os ímãs permanentes possuem campo magnético mesmo sem corrente elétrica[2].

Explicação Microscópica:

  1. Cada elétron em movimento cria um pequeno campo magnético
  2. Em materiais normais, esses campos estão orientados aleatoriamente e se cancelam
  3. Em materiais magnéticos como ferro (Fe), níquel (Ni) e cobalto (Co), os campos se alinham
  4. Esse alinhamento gera um campo magnético macroscópico detectável

Polos Magnéticos:

  1. Polo Norte: De onde as linhas de campo saem
  2. Polo Sul: Onde as linhas de campo entram
  3. Propriedade Essencial: Polos magnéticos sempre existem em pares (não há monopolo magnético isolado)
  4. Força: Polos opostos se atraem, polos iguais se repelem

Linhas de Campo Magnético:

  1. Saem do polo Norte e entram no polo Sul
  2. Formam circuitos fechados (diferente do campo elétrico)
  3. Nunca se cruzam
  4. Mais densas onde o campo é mais intenso
  5. Impossível isolar um polo (dividir um ímã resulta em dois ímãs menores)

4.3 Campo Magnético Gerado por Corrente Elétrica

Uma das descobertas mais importantes do século XIX é que a corrente elétrica gera campo magnético[2][3].

Descoberta de Oersted (1820):

Hans Christian Oersted descobriu que a agulha de uma bússola desvia quando colocada próxima a um fio com corrente. Isso provou que eletricidade e magnetismo estão conectados.

Regra da Mão Direita:

Para determinar a direção do campo magnético ao redor de um fio com corrente:

  1. Aponte o polegar na direção da corrente convencional (+ para -)
  2. Os outros dedos se fecham indicando o sentido do campo magnético ao redor do fio
  3. As linhas de campo são círculos concêntricos ao redor do fio

Campo Magnético de um Fio Reto:

A intensidade do campo magnético a uma distância r de um fio com corrente é:

B=0I2r

Onde:

  1. B = intensidade do campo (Tesla)
  2. 0 = permeabilidade do vácuo = 410−7 TmA
  3. I = corrente (Ampères)
  4. r = distância perpendicular do ponto até o fio (metros)

Exemplo:

Calcular o campo magnético a 10 cm de um fio com corrente de 10 A:

B=410−71020,1

B=410−620,1=210−5 T=20 T

O campo é de 20 microteslas, ligeiramente mais fraco que o campo magnético terrestre (cerca de 50 μT).

4.4 Campo Magnético de Bobinas e Solenóides

Uma bobina é um fio enrolado em espiras. Um solenóide é uma bobina longa e cilíndrica[2].

Campo Magnético de um Solenóide:

B=0NLI

Onde:

  1. B = intensidade do campo (Tesla)
  2. 0 = permeabilidade do vácuo = 410−7 T·m/A
  3. N = número total de espiras
  4. L = comprimento do solenóide (metros)
  5. I = corrente (Ampères)

Características:

  1. O campo é aproximadamente uniforme dentro do solenóide
  2. O campo é muito fraco fora do solenóide
  3. Aumentar o número de espiras aumenta o campo proporcionalmente
  4. Aumentar a corrente aumenta o campo proporcionalmente
  5. O solenoide funciona como um ímã temporário (enquanto há corrente)

Exemplo:

Um solenóide com 1000 espiras, 20 cm de comprimento, com corrente de 2 A:

B=410−710000,22

B=410−750002=410−30,0126 T=12,6 mT

O campo é de aproximadamente 12,6 mililiteslas.

4.5 Força Magnética em Cargas e Correntes

Quando uma carga em movimento está em um campo magnético, ela experimenta uma força[3].

Força Magnética em uma Carga (Força de Lorentz):

F=qvB

Ou em módulo:

F=qvBsin⁡()

Onde:

  1. F = força (Newtons)
  2. q = carga (Coulombs)
  3. v = velocidade da carga (m/s)
  4. B = intensidade do campo magnético (Tesla)
  5. = ângulo entre v e B

Características:

  1. A força é perpendicular tanto à velocidade quanto ao campo
  2. Se a carga está em repouso (v=0), não há força magnética
  3. Se a velocidade é paralela ao campo (=0°), não há força
  4. Se a velocidade é perpendicular ao campo (=90°), a força é máxima
  5. A força não realiza trabalho (não muda o módulo da velocidade, apenas a direção)

Força Magnética em um Condutor com Corrente:

F=ILB

Ou em módulo:

F=ILBsin⁡()

Onde:

  1. F = força (Newtons)
  2. I = corrente (Ampères)
  3. L = comprimento do condutor (metros)
  4. B = intensidade do campo (Tesla)
  5. = ângulo entre o condutor e o campo

Aplicações:

  1. Motores elétricos: força magnética em bobinas com corrente dentro de um campo
  2. Acelerador de partículas: força magnética desvia trajetória de partículas carregadas
  3. Tubo de raios catódicos: campo magnético controla trajetória dos elétrons

5. Indutância e Indução Eletromagnética

5.1 Lei de Faraday da Indução

A Lei de Faraday é uma das descobertas mais importantes do eletromagnetismo[2][3].

Enunciado: Quando o fluxo de campo magnético através de um circuito varia com o tempo, é induzida uma força eletromotriz (tensão) naquele circuito.

Fórmula Matemática:

=−dBdt

Onde:

  1. = força eletromotriz induzida (Volts)
  2. dBdt = taxa de variação do fluxo magnético (Weber por segundo)
  3. O sinal negativo indica a Lei de Lenz

Fluxo Magnético:

B=BAcos⁡()

Onde:

  1. B = fluxo magnético (Weber ou Wb)
  2. B = intensidade do campo (Tesla)
  3. A = área da superfície (m²)
  4. = ângulo entre o campo e a normal à superfície

Situações que Induzem Tensão:

  1. Mover um ímã próximo a uma bobina (B varia)
  2. Mover uma bobina em um campo magnético estático (A efetiva varia)
  3. Variar a corrente em um circuito próximo (B varia nos circuitos vizinhos)
  4. Variar o ângulo entre o campo e a bobina
  5. Variar a intensidade do campo

Exemplo Prático:

Um ímã é movido rapidamente para dentro de uma bobina. O campo magnético no interior da bobina aumenta de 0 a 1 Tesla em 0,01 segundo. A bobina tem área de 0,01 m² (10 cm × 10 cm).

=−dBdt=−10,01−00,01=−1 V

Uma tensão de 1 Volt é induzida na bobina (o sinal negativo indica a direção).

5.2 Lei de Lenz

A Lei de Lenz descreve a direção da corrente induzida[2].

Enunciado: A corrente induzida em um circuito sempre flui em uma direção tal que seu campo magnético se opõe à variação do fluxo magnético que a causou.

Interpretação Prática:

A natureza “resiste” às mudanças no fluxo magnético. Se o fluxo aumenta, a corrente induzida cria um campo que o diminui. Se o fluxo diminui, a corrente induzida cria um campo que o aumenta.

Exemplo:

  1. Um ímã é movido para dentro de uma bobina (fluxo aumenta)
  2. Pela Lei de Lenz, a bobina cria um campo magnético oposto ao ímã
  3. A bobina atuará como um ímã repelindo o que entra
  4. Você sentiria uma resistência ao mover o ímã (precisa fazer força)
  5. Se remove o ímã, a bobina atuará atraindo-o (tenta impedir que saia)

5.3 Conceito de Indutância

A indutância é a propriedade de um circuito ou componente de se opor a mudanças na corrente[2][3].

Definição: Indutância é a razão entre o enlace de fluxo magnético e a corrente que o produz.

Fórmula:

L=NI

Ou, em termos de tensão induzida:

=−LdIdt

Onde:

  1. L = indutância (Henry ou H)
  2. N = número de espiras
  3. = fluxo magnético por espira (Weber)
  4. I = corrente (Ampères)
  5. dIdt = taxa de variação da corrente

Símbolo: L

Unidade: Henry (H)

1 Henry = 1 Volt por Ampère por segundo (1 V/(A/s))

Significado Prático:

A indutância determina quanto de tensão é induzida quando a corrente varia. Uma indutância de 1 H significa que uma variação de 1 Ampère por segundo induz uma tensão de 1 Volt.

5.4 Indutância de um Solenóide

Para um solenóide ideal (sem resistência):

L=0N2Al

Onde:

  1. L = indutância (Henry)
  2. 0 = permeabilidade do vácuo = 410−7 H/m
  3. N = número de espiras
  4. A = área da seção transversal (m²)
  5. l = comprimento do solenóide (metros)

Fatores que Aumentam a Indutância:

  1. Aumentar o número de espiras (N² – efeito quadrático!)
  2. Aumentar a área da seção transversal
  3. Diminuir o comprimento
  4. Usar um núcleo ferromagnético (multiplicador da permeabilidade)

Exemplo:

Calcular a indutância de um solenóide com:

  1. 1000 espiras
  2. Área de 0,001 m² (círculo de 3,6 cm de diâmetro)
  3. Comprimento de 0,1 m (10 cm)

L=410−7100020,0010,1

L=410−71060,0010,1

L=410−7104=0,040,126 H126 mH

A indutância é de aproximadamente 126 milihenrys – um valor típico para indutores de radioamadorismo.

5.5 Auto-Indutância e Indutância Mútua

Auto-Indutância:

Quando a corrente em um circuito varia, o campo magnético criado por esse mesmo circuito induz uma tensão que se opõe à mudança.

=−LdIdt

Aplicação Prática:

Em um circuito RL (resistor + indutor):

  1. Ao ligar o circuito: a tensão induzida se opõe ao aumento de corrente
  2. A corrente aumenta gradualmente (não instantaneamente)
  3. Tempo característico: =LR

Indutância Mútua:

Quando dois circuitos estão próximos, a variação de corrente em um induz tensão no outro[2].

Fórmula:

2=−MdI1dt

Onde:

  1. M = indutância mútua (Henry)
  2. dI1dt = taxa de variação da corrente no primeiro circuito

Aplicação Prática – Transformador:

Um transformador consiste de duas bobinas acopladas magneticamente. A razão de espiras determina a razão de tensões:

V2V1=N2N1

Exemplo:

Um transformador com 100 espiras na primária e 1000 na secundária (razão 1:10):

  1. Se 10 V é aplicado na primária, 100 V aparece na secundária
  2. A corrente é inversamente proporcional: se 1 A flui na primária, 0,1 A flui na secundária
  3. Potência é conservada (sem perdas idealmente): P1=P2

5.6 Energia Armazenada em um Indutor

Um indutor armazena energia em seu campo magnético, similar a como um capacitor armazena energia em seu campo elétrico[3].

E=12LI2

Onde:

  1. E = energia armazenada (Joules)
  2. L = indutância (Henry)
  3. I = corrente (Ampères)

Exemplo:

Um indutor de 100 mH com 1 Ampère de corrente armazena:

E=120,112=0,05 J=50 mJ

Esta energia é liberada quando a corrente varia (por exemplo, ao desligar o circuito).

Aplicação Prática – Proteção de Circuitos:

Quando um circuito com indutor é desligado, o indutor tenta manter a corrente circulando, induzindo uma tensão elevada momentaneamente. Isso é porque toda a energia armazenada deve ser liberada rapidamente.

6. Aplicações Práticas do Eletromagnetismo

6.1 Motores Elétricos

Um motor elétrico converte energia elétrica em energia mecânica usando a força magnética[2].

Princípio de Funcionamento:

  1. Uma bobina com corrente em um campo magnético experimenta força (motor simples)
  2. A força causa rotação da bobina
  3. Um comutador inverte a corrente a cada meia rotação para manter a rotação
  4. A energia magnética é convertida em movimento mecânico

Aplicações:

  1. Ventiladores e compressores
  2. Motores de carro elétrico
  3. Bombas de água
  4. Ferramentas elétricas
  5. Robôs e automação industrial

6.2 Geradores Elétricos

Um gerador elétrico faz o inverso do motor: converte energia mecânica em elétrica[2][3].

Princípio de Funcionamento:

  1. Uma bobina é girada em um campo magnético (energia mecânica aplicada)
  2. O fluxo magnético através da bobina varia continuamente
  3. Pela Lei de Faraday, isso induz uma tensão alternada (AC)
  4. Dois contatos coletam a corrente gerada

Aplicações:

  1. Geradores elétricos para usinas hidrelétricas
  2. Alternadores em veículos
  3. Geradores de emergência
  4. Micro-hidrelétricas

6.3 Transformadores

Um transformador permite mudar a tensão de uma corrente alternada[2][3].

Princípio de Funcionamento:

  1. Duas bobinas compartilham um núcleo ferromagnético
  2. Corrente alternada na primária cria campo magnético variável
  3. O fluxo magnético passa pela secundária
  4. A Lei de Faraday induz tensão na secundária

Razão de Transformação:

V2V1=N2N1=I1I2

Aplicações:

  1. Reduzir tensão da rede (220V ou 110V) para 12V, 9V, 5V
  2. Aumentar tensão em linhas de distribuição (transmissão eficiente)
  3. Isolamento elétrico
  4. Fontes de alimentação

6.4 Relevadores Eletromagnéticos

Um relé é um interruptor controlado eletromagneticamente[2].

Funcionamento:

  1. Uma bobina produz um campo magnético quando tem corrente
  2. O campo atrai uma peça metálica armadura
  3. A armadura move-se e abre ou fecha contatos
  4. Permite controlar circuitos de alta potência com sinais de baixa potência

Aplicações:

  1. Automação de iluminação
  2. Controle de motores
  3. Sistemas de alarme
  4. Eletroimãs

6.5 Antenas e Propagação de Ondas

Campos elétricos e magnéticos que variam no tempo criam ondas eletromagnéticas[3].

Aplicações:

  1. Rádio: Antenas transmissoras e receptoras
  2. Televisão: Transmissão e recepção de sinais
  3. WiFi e Bluetooth: Comunicação sem fio
  4. Telefones móveis: Transmissão de voz e dados
  5. Radar: Detecção de objetos
  6. Radioamadorismo (HAM): Comunicação em VHF, UHF, HF, etc.

Conforme mencionado na sua personalidade, você trabalha com radioamadorismo! O eletromagnetismo é a base de toda comunicação por rádio. Freqüências diferentes usam componentes e antenas distintos, mas o princípio de funcionamento é o mesmo: criar e detectar ondas eletromagnéticas.

6.6 Eletroimãs

Eletroimãs são ímãs criados por corrente elétrica em bobinas[2].

Vantagens sobre Ímãs Permanentes:

  1. Intensidade ajustável (aumentando/diminuindo corrente)
  2. Ligáveis e desligáveis
  3. Controlados eletronicamente
  4. Podem ser muito poderosos

Aplicações:

  1. Separadores de lixo (separar metais)
  2. Elevadores de ferro em sucatas
  3. Trens de levitação magnética (maglev)
  4. Cartões de crédito e cartões magnéticos
  5. Sensores magnéticos
  6. Atuadores e válvulas solenóide

7. Exercícios Práticos

Exercício 1 – Lei de Coulomb

Duas cargas pontuais: Q1=4 C e Q2=6 C estão separadas por uma distância de 20 cm. Calcule:

a) A força entre elas
b) Se ambas fossem 4 vezes mais afastadas, qual seria a nova força?

Solução:

a) F=9109410−6610−6(0,2)2

F=91092410−120,04=9109610−10=5,4 N

b) Se a distância aumenta para 80 cm (0,8 m):

F=91092410−12(0,8)2=91092410−120,64=0,3375 N

Observe que aumentar a distância 4 vezes reduz a força a 1/16 (lei do quadrado inverso).

Exercício 2 – Campo Elétrico

Uma carga puntual de 8 μC cria um campo elétrico ao seu redor. Calcule:

a) A intensidade do campo a 2 metros de distância
b) A força experimentada por uma carga de prova de 2 μC naquele ponto

Solução:

a) E=9109810−6(2)2=9109810−64=18.000 V/m

b) F=Eq=18.000210−6=0,036 N

Exercício 3 – Campo Magnético de um Fio

Um fio retilíneo com corrente de 15 A cria um campo magnético. Calcule o campo a:

a) 5 cm do fio
b) 10 cm do fio

Solução:

a) B=410−71520,05=410−71520,05=610−5 T=60 T

b) B=410−71520,1=410−71520,1=310−5 T=30 T

Note que duplicando a distância, o campo é reduzido à metade.

Exercício 4 – Lei de Faraday

Uma bobina com 500 espiras tem área de 0,01 m². Um ímã é aproximado rapidamente, aumentando o fluxo de 0 a 0,8 Tesla em 0,1 segundo. Calcule a tensão induzida.

Solução:

Fluxo inicial: 1=0

Fluxo final: 2=BA=0,80,01=0,008 Wb

Variação total de fluxo: =0,008−0=0,008 Wb

Para 500 espiras: total=5000,008=4 Wb

Tensão induzida: =−totaldt=−40,1=−40 V

A magnitude da tensão induzida é 40 Volts (sinal indica direção pela Lei de Lenz).

Exercício 5 – Indutância de um Solenóide

Calcule a indutância de um solenóide com as seguintes características:

  1. 2000 espiras
  2. Diâmetro de 5 cm (raio 2,5 cm)
  3. Comprimento de 20 cm
  4. Núcleo de ar

Solução:

Área: A=r2=(0,025)2=1,9610−3 m2

L=410−7(2000)21,9610−30,2

L=410−741061,9610−30,2

L=410−739.2000,049 H49 mH

A indutância é de aproximadamente 49 milihenrys.

8. Resumo das Fórmulas Principais

ConceitoFórmulaUnidade
Lei de CoulombF=kQ1Q2r2Newtons (N)
Campo ElétricoE=kQr2V/m ou N/C
Potencial ElétricoV=kQrVolts (V)
Campo de Fio RetoB=0I2rTesla (T)
Campo de SolenóideB=0NLITesla (T)
Indutância SolenóideL=0N2AlHenry (H)
Lei de Faraday=−dBdtVolts (V)
Fluxo MagnéticoB=BAcos⁡()Weber (Wb)
Auto-Indutância=−LdIdtVolts (V)
Energia em IndutorE=12LI2Joules (J)
TransformadorV2V1=N2N1Razão (adimensional)

Table 3: Resumo das Fórmulas de Eletromagnetismo

ConstanteSímboloValor
Constante de Coulombk9109 Nm2/C2
Carga Fundamentale1,610−19 C
Permeabilidade do Vácuo0410−7 Tm/A
Campo Magnético Terrestre25−65 T

Table 4: Constantes Físicas Importantes

9. Conexão com Radioamadorismo

Dado seu interesse em radioamadorismo (radioamadorismo), o eletromagnetismo é absolutamente fundamental para sua atividade[3].

Em Comunicações via Rádio:

  1. Geração de Ondas: Um oscilador eletrônico cria correntes AC em frequências específicas (HF, VHF, UHF)
  2. Antenas: Convertem correntes alternadas em ondas eletromagnéticas irradiadas
  3. Propagação: As ondas viajam através da atmosfera e do espaço
  4. Recepção: As ondas induzem correntes nas antenas receptoras
  5. Amplificação: Circuitos amplificam o sinal recebido para decodificação

Conceitos Específicos para Rádio:

  1. Frequência: Determina a faixa de operação (80m, 40m, 20m, etc.)
  2. Indutância: Usada em circuitos sintonizadores para selecionar frequências
  3. Capacitância: Trabalha com indutância em circuitos LC para filtragem
  4. Impedância: Combinação de resistência, indutância e capacitância determina acoplamento de energia
  5. Campo Próximo e Distante: Diferentes regimes de propagação e efeitos
  6. Polarização: Ondas eletromagnéticas podem ser polarizadas verticalmente ou horizontalmente

Aplicações em Seu Domínio:

  1. Design de antenas (dipolo, Yagi, helical, etc.)
  2. Circuitos de sintonia de receptores e transmissores
  3. Fontes e amplificadores
  4. Medição de campos eletromagnéticos
  5. Proteção contra interferência eletromagnética (EMI)
  6. Análise de circuitos com RTL-SDR (SDR receiver)

10. Conclusão

O eletromagnetismo unifica dois campos distintos da Física em um fenômeno único e coerente[1][2][3]. A compreensão desses conceitos é fundamental para:

  1. Entender como funcionam geradores, motores e transformadores
  2. Projetar circuitos eletrônicos eficientes
  3. Trabalhar com antenas e sistemas de radiocomunicação
  4. Compreender a propagação de ondas eletromagnéticas
  5. Proteger circuitos contra efeitos eletromagnéticos indesejados
  6. Estudar eletrônica avançada e física moderna

A prática com bobinas, ímãs e circuitos é essencial. Experimentos simples (como observar como um fio com corrente afeta uma bússola, ou como um ímã induz corrente em uma bobina) consolidam o entendimento teórico.

Próximos Passos

Após dominar este material:

  1. Estude circuitos ressonantes LC
  2. Explore filtros passa-altas e passa-baixas
  3. Entenda linhas de transmissão e impedância característica
  4. Aprenda sobre antenas e padrões de radiação
  5. Explore eletrônica de radiofrequência (RF)
  6. Estude as equações de Maxwell em forma completa
  7. Trabalhe com simuladores de campo eletromagnético

Para radioamadorismo especificamente, concentre-se em:

  1. Teoria de antenas e casamento de impedância
  2. Propagação via ionosfera (skip) e outros modos
  3. Circuitos de recepção sensível (baixo ruído)
  4. Circuitos de transmissão linear e eficiente
  5. Estabilidade de frequência e precisão
  6. Medições com instrumentos apropriados (SWR, power, field strength)

Referências

[1] Toda Matéria. Eletromagnetismo. Disponível em https://www.todamateria.com.br/eletromagnetismo/. Acesso em 2026.

[2] Brasil Escola. Eletromagnetismo: o que é, fórmulas, leis, resumo. Disponível em https://brasilescola.uol.com.br/fisica/eletromagnetismo.htm. Acesso em 2026.

[3] Descomplica. Eletromagnetismo: introdução, fórmulas e aplicações. Disponível em https://descomplica.com.br/blog/eletromagnetismo-introducao-formulas-e-aplicacoes/. Acesso em 2026.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Afiliados