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Modos Digitais no Radioamadorismo: Guia Completo

Você já deve ter ouvido amigos da banda comentarem sobre FT8, repetidoras digitais ou rastreamento APRS e, talvez, se sentido perdido entre tantas siglas. A boa notícia é que dominar os modos digitais nunca foi tão acessível. Neste guia, você vai entender como cada tecnologia funciona, qual equipamento usar e como dar seus primeiros passos com confiança no mundo digital do radioamadorismo.

Mais do que uma tendência passageira, os modos digitais redesenharam a forma como radioamadores se comunicam ao redor do planeta. De QSOs em HF com sinais quase imperceptíveis ao ouvido humano a redes mundiais que conectam repetidoras pela internet, há um universo completo a explorar basta saber por onde começar. Este guia funciona como o seu ponto de partida definitivo: ao final, você saberá qual modo combina com o seu perfil, quanto custa entrar e como dar o primeiro passo.


O que são modos digitais no radioamadorismo?

Modos digitais são técnicas de comunicação em que a informação trafega na forma de bits codificados, em vez de áudio analógico contínuo (fonia) ou pulsos manuais (CW). O sinal pode carregar texto, voz comprimida, posição GPS, telemetria ou imagens, dependendo do protocolo escolhido.

Da telegrafia analógica aos sinais codificados em bits

A história dos modos digitais no rádio remonta ao final da década de 1940, quando o RTTY (Radioteletype) começou a popularizar a transmissão de texto entre estações. Nas décadas seguintes vieram o AMTOR e o PACTOR, voltados a comunicação confiável em HF, e nos anos 2000 o PSK31 marcou época ao permitir que computadores domésticos com placas de som comuns operassem em texto digital com sinais limpos e baixíssima potência.

A grande virada, porém, aconteceu em 2017 com a popularização do FT8, criado por Joe Taylor (K1JT) e Steven Franke (K9AN). Pela primeira vez, era possível decodificar sinais com relação sinal-ruído (SNR) profundamente negativa, em troca de mensagens curtas e padronizadas. O radioamadorismo nunca mais foi o mesmo em poucos meses, o FT8 se tornou o modo digital mais ativo do mundo.

Vantagens em relação a fonia e CW

Os modos digitais oferecem três grandes vantagens estruturais sobre as modalidades tradicionais:

A eficiência espectral é o primeiro ponto. Um sinal FT8, por exemplo, ocupa apenas 50 Hz, contra os 2,4 kHz típicos da fonia em SSB. Isso significa que dezenas de QSOs simultâneos cabem onde antes havia espaço para apenas um uma diferença enorme em bandas congestionadas.

A operação em baixo SNR é o segundo. Muitos modos digitais decodificam sinais até 20 dB abaixo do ruído ambiente, algo impossível para o ouvido humano. Em condições ruins de propagação, quando a fonia falha, o digital ainda funciona e essa robustez é o que viabiliza DX em estações pequenas.

Os dados embutidos completam o trio. Além da mensagem principal, é possível trafegar coordenadas GPS, identificadores únicos, códigos de erro e até pequenos arquivos. Tudo de forma automática e padronizada, sem que o operador precise digitar nada além do indicativo da estação chamada.

Por que os modos digitais cresceram tanto na última década

Três fatores explicam essa explosão. Primeiro, a popularização de computadores e smartphones tornou trivial qualquer processamento de sinal antes restrito a hardware caro de laboratório. Segundo, redes como Brandmeister, APRS-IS e os reflectores D-STAR conectaram repetidoras locais ao mundo todo via internet, ampliando o alcance prático para qualquer estação modesta. Terceiro, os ciclos solares fracos do último mínimo levaram muitos operadores a buscar alternativas que funcionassem mesmo com propagação ruim e o FT8 entregou exatamente isso, fazendo DX em 100 W com antena de quintal virar rotina.


Equipamentos e software essenciais

Antes de operar qualquer modo digital, vale entender o que compõe a estação típica. A boa notícia: na maioria dos casos, você já tem boa parte do necessário em casa.

Transceptores compatíveis (HF, VHF/UHF e dual)

Praticamente qualquer transceptor moderno serve para modos digitais em HF, desde que possua modo SSB e, idealmente, interface CAT (controle do rádio por computador). Modelos como o Icom IC-7300, Yaesu FT-991A, Kenwood TS-590SG e os tradicionais IC-718 e FT-450D são amplamente usados pela comunidade brasileira.

Para VHF/UHF, equipamentos analógicos comuns funcionam bem para APRS e modos digitais que trafegam via áudio (como FT8 em 6 m e 2 m). Mas para D-STAR, DMR e Fusion é necessário um rádio nativo ao protocolo: Icom IC-705, IC-9700 e ID-52 (D-STAR), Anytone AT-D878UV e TYT MD-UV380 (DMR), Yaesu FT-70DR e FT5DR (Fusion C4FM).

Interfaces de áudio digital (SignaLink, DigiRig, RIM Lite)

Para conectar o transceptor ao computador, três opções dominam o mercado:

A SignaLink USB é a referência clássica, com placa de som integrada e PTT por VOX. É discreta, robusta e plug-and-play ideal para quem quer apenas começar sem complicação.

A DigiRig Mobile é a alternativa moderna: menor, mais barata e com cabos específicos para cada modelo de rádio, integrando áudio e controle CAT em uma única conexão USB. Ganhou popularidade rápida por simplificar a fiação.

A RIM Lite da Microham é a escolha de quem busca isolamento galvânico de altíssima qualidade fundamental em estações com problemas de RF de retorno ou em montagens próximas a antenas potentes.

Computadores, Raspberry Pi e operação via celular

Para FT8, JTDX e similares, qualquer computador dos últimos dez anos é suficiente. Um Raspberry Pi 4 com 4 GB de RAM roda WSJT-X com folga, sendo a base ideal para estações remotas de baixo consumo, headless, em sítios ou repetidoras isoladas.

No celular, aplicativos como APRSdroid (Android) e HamRadioDroid permitem operação móvel completa em APRS, inclusive direto por TCP/IP quando há internet disponível. Para FT8 em campo, o FT8CN ganhou tração entre quem opera de motorhome ou em ativações SOTA/POTA, dispensando o notebook.

Software de referência

O ecossistema de software gratuito é vasto e maduro. WSJT-X é o padrão para FT8, FT4, JT65 e modos exóticos como Q65 e MSK144. JTDX é uma versão derivada, otimizada para condições de banda cheia, com decodificadores mais agressivos. APRSdroid e YAAC atendem o universo APRS, em mobile e desktop respectivamente. Pi-Star transformou o Raspberry Pi em hotspot multimodo (DMR, D-STAR, YSF, M17) com poucos cliques. Para programação de rádios, CHIRP (gratuito, multimarca) e RT Systems (pago, mais polido e específico) são os mais usados.


FT8 e o ecossistema WSJT

Não é exagero dizer que o FT8 mudou o radioamadorismo em HF. Hoje, a qualquer hora do dia, há milhares de operadores ativos simultaneamente nas frequências FT8 ao redor do mundo basta ligar o rádio e dar uma escutada para perceber.

Como o FT8 revolucionou o HF

O FT8 (Franke-Taylor 8FSK) usa modulação de oito tons espaçados em uma faixa de 50 Hz e ciclos fixos de 15 segundos. Cada mensagem comporta apenas 77 bits, mas isso é suficiente para indicativo, grid locator e relatório de sinal o essencial de um QSO. O decodificador suporta sinais até cerca de -21 dB SNR, o que permite confirmações em condições onde nem o CW funciona bem.

Para o radioamador médio, isso significa fazer DX em 100 W com uma antena modesta, algo que antes exigia kilowatts e estações monumentais. A democratização foi imediata: aposentados em apartamentos, jovens com fios em janelas e expedições compactas passaram a contatar o mundo todo com pouco hardware.

WSJT-X x JTDX: principais diferenças

Ambos decodificam os mesmos modos, mas têm filosofias distintas. O WSJT-X é o software oficial, mantido pela equipe de Joe Taylor, com foco em estabilidade e padronização. É a escolha mais segura para iniciantes e para quem participa de DXpeditions com regras estritas.

O JTDX, fork criado por Igor Chernikov (UA3DJY) e colaboradores, foca em desempenho em bandas congestionadas. Decodifica mais sinais simultaneamente, oferece filtros mais agressivos e tem interface mais ágil para chamada/resposta rápida. Em troca, exige um pouco mais de tunning manual e atenção do operador.

Recomendação prática: comece com WSJT-X, migre para JTDX quando quiser performance extra em contestes ou na caça a DX raro. Os arquivos de log são compatíveis, então a transição é simples.

Outros modos da família (FT4, JT65, MSK144, Q65)

O FT4 é uma variante mais rápida (ciclos de 7,5 segundos), pensada para contestes onde o ritmo é prioridade sobre a sensibilidade extrema. O JT65 ainda é usado em EME (Earth-Moon-Earth, comunicação refletida na Lua), onde latência alta e robustez importam mais que velocidade. O MSK144 atende meteor scatter reflexões em rastros de meteoros, com transmissões muito rápidas em bursts. E o Q65, mais recente, brilha em propagação extremamente fraca, como troposcatter, EME em VHF/UHF e contatos via aurora.

DXpeditions e contestes em FT8

DXpeditions modernas como a 3Y0J (Bouvet, 2023) e diversas atividades em ilhas remotas dependem fortemente do FT8 em modo Fox & Hounds, no qual a estação rara opera múltiplos QSOs simultâneos em frequências distintas dentro do mesmo slot temporal. É o modo que permite atender milhares de chamadores em poucos dias de operação, algo impensável apenas em fonia.

Para contestes, eventos como o ARRL RTTY Roundup e o FT Roundup já incluem FT8/FT4 como categorias dedicadas, atraindo participação massiva.


APRS: muito além do rastreamento

O APRS (Automatic Packet Reporting System), criado por Bob Bruninga (WB4APR), é frequentemente reduzido a “rastreamento por GPS via rádio”. Mas é muito mais que isso é uma rede mundial de mensagens curtas, telemetria e dados em tempo real.

Protocolo AX.25 e arquitetura da rede

Por baixo, o APRS roda sobre AX.25, o protocolo de packet radio dos anos 1980. Cada estação transmite quadros curtos contendo posição, status, mensagens e telemetria. Esses pacotes são repetidos por digipeaters estações automáticas que estendem o alcance e podem ser injetados na internet por iGates, alcançando o mundo todo via APRS-IS.

A arquitetura é descentralizada: não há servidor único, não há autoridade central. Cada estação contribui com infraestrutura local, e o resultado é uma rede global resiliente.

Aplicações práticas (eventos, emergência, balões, telemetria)

O APRS atende cenários muito diversos no dia a dia do radioamador:

Em eventos esportivos, é usado para rastreamento de corredores, ciclistas e veículos de apoio em tempo real, com mapas que coordenadores acompanham em laptops ou tablets. Em emergências e defesa civil, fornece posição de equipes em campo e mensagens de texto entre coordenadores quando outros meios falham. Em balões meteorológicos amadores, transmite telemetria de altitude, temperatura e pressão durante voos estratosféricos alguns brasileiros já cruzaram o Atlântico em payloads APRS. Em telemetria de estações remotas, monitora tensão de baterias, SWR de antenas e temperatura em repetidoras isoladas. E para mensagens curtas, viabiliza comunicação assíncrona entre operadores móveis, mesmo sem propagação direta.

APRS-IS, iGates e digipeaters

A magia do APRS moderno está na integração com a internet. Um pacote transmitido em São Paulo pode ser visto em segundos no aprs.fi, plataforma que agrega o tráfego mundial. Isso é possível graças aos iGates estações que recebem RF e injetam os dados na rede APRS-IS via TCP/IP.

Os digipeaters, por sua vez, operam apenas em RF, retransmitindo pacotes conforme regras de hops (WIDE1-1, WIDE2-2 etc.) para evitar saturação da rede. Configurar paths corretos é parte importante da etiqueta APRS.

Frequências usadas no Brasil

No Brasil, a frequência padrão de APRS em VHF é 144,390 MHz, alinhada ao restante das Américas. Em HF, alguns experimentadores operam em 10,151 MHz USB com tons AFSK 300 baud, mas o uso é esporádico e voltado a longas distâncias quando a propagação ajuda.


D-STAR: voz e dados pela rede aberta da JARL

Desenvolvido pela JARL (Japan Amateur Radio League) no início dos anos 2000, o D-STAR foi o primeiro modo digital de voz amplamente adotado no radioamadorismo. Aberto, padronizado e mantido por uma associação amadora, virou referência em redes globais conectadas.

Estrutura de redes e callsign routing

O coração do D-STAR é o callsign routing: você pode chamar qualquer estação D-STAR no mundo apenas digitando o indicativo dela no rádio. A rede se encarrega de localizar a repetidora onde aquela estação está conectada e rotear o áudio digitalmente até lá. É como discar um número de telefone, mas em RF.

Cada repetidora pode estar ligada a um gateway, que conecta o tráfego à internet. Combinada ao DPlus (sistema de linkagem entre repetidoras) e aos reflectores XRF/XLX, a rede mundial fica acessível com poucos cliques no rádio.

Reflectores XRF/XLX e DPlus

Reflectores são salas virtuais nas quais várias repetidoras se conectam simultaneamente, criando “canais” globais. O XLX, mais moderno, permite interconectar D-STAR, DMR e YSF no mesmo módulo, viabilizando comunicação cross-mode entre operadores em diferentes tecnologias. Reflectores brasileiros populares incluem o XLX538 e o XRF757, com módulos dedicados a conversação geral, redes regionais e atividades específicas.

Equipamentos compatíveis (linha Icom)

A linha Icom domina o D-STAR. Modelos populares incluem o IC-705 (HF/VHF/UHF portátil multimodo), IC-9700 (estação-base tribanda), ID-52 (HT dualbanda) e ID-5100 (móvel dual). A Kenwood lançou alguns modelos compatíveis (TH-D74, TH-D75), mas a oferta é mais limitada e o ecossistema gira fortemente em torno da Icom.


DMR no radioamadorismo

O DMR (Digital Mobile Radio) é, na origem, um padrão comercial da ETSI, adotado por empresas e órgãos públicos para comunicação corporativa. Adaptado pelo radioamadorismo a partir da década de 2010, hoje rivaliza com o D-STAR em popularidade e o supera em muitas regiões pelo custo mais acessível.

TDMA, time slots e talkgroups

A grande diferença técnica do DMR é o uso de TDMA (Time Division Multiple Access): cada canal de 12,5 kHz é dividido em dois time slots que alternam a cada 30 ms. Na prática, uma única repetidora suporta dois QSOs simultâneos sem interferência mútua, dobrando a capacidade do espectro.

Em vez de chamar por indicativo, no DMR se opera por talkgroup uma espécie de “canal lógico” compartilhado. O TG 724 reúne brasileiros no Brandmeister, o TG 91 é o Worldwide, o TG 730 atende a Latin America. Você seleciona o talkgroup, transmite, e qualquer estação ouvinte daquele grupo recebe independentemente de em qual repetidora ou hotspot esteja conectada.

Brandmeister, TGIF e redes brasileiras

A Brandmeister é a maior rede DMR do radioamadorismo, com milhares de repetidoras conectadas no mundo todo. TGIF Network é a alternativa que ganhou popularidade pela política mais aberta a desenvolvedores e talkgroups customizados. No Brasil, há também a rede PRBR-DMR e clusters regionais que conectam repetidoras estaduais, fortalecendo a comunicação local.

Code plugs, contatos digitais e programação

Cada rádio DMR exige um code plug arquivo de configuração com canais, talkgroups, contatos e zonas. Montar o primeiro code plug é o maior desafio do iniciante: a lógica é diferente do analógico, e cada fabricante usa software próprio (Anytone CPS, Tytera, Connect Systems).

Para acelerar, comunidades brasileiras mantêm code plugs prontos para download basta importar o arquivo, ajustar o ID DMR pessoal (obtido gratuitamente em radioid.net após validação do indicativo) e gravar no rádio. Em poucas horas, o iniciante já está operando em redes mundiais.


Comparativo entre os modos digitais

Cada modo tem propósito distinto. A escolha certa depende do que você quer fazer no ar.

Tabela: faixa, alcance típico, finalidade, custo de entrada

ModoFaixa principalAlcance típicoFinalidadeCusto de entrada
FT8HF (todas)Mundial via propagaçãoDX, atividade de banda, contestesMédio (rádio HF + interface)
APRSVHF (144,390 MHz)Local/regional, mundial via iGatePosição, mensagens, telemetriaBaixo (HT + TNC ou app)
D-STARVHF/UHFRepetidora local, mundial via reflectorVoz e dados em rede abertaMédio-alto (rádio Icom)
DMRVHF/UHFRepetidora local, mundial via BrandmeisterVoz em talkgroupsBaixo (HT a partir de R$ 700)
Fusion (C4FM)VHF/UHFRepetidora local, mundial via WIRES-XVoz YaesuMédio (linha Yaesu)

Qual modo escolher conforme o seu perfil

Se você gosta de DX e contesting em HF, comece pelo FT8. É o modo mais ativo do mundo hoje e a forma mais rápida de fechar países novos no log.

Se quer rastreamento, atividade outdoor ou apoio em eventos, o APRS é insuperável tem ecossistema maduro, aplicativos de celular gratuitos e infraestrutura presente em quase todo o país.

Se busca voz com qualidade digital e redes mundiais, escolha entre D-STAR (se já tem rádio Icom ou prioriza padrão aberto), DMR (se prioriza custo baixo e quer maior oferta de talkgroups) ou Fusion (se tem rádio Yaesu e gosta da integração WIRES-X).

Se quer experimentar tudo sem investir em múltiplos rádios, monte um hotspot veja a seguir.

Hotspots: a ponte entre todos os modos

Um hotspot é um pequeno ponto de acesso pessoal basicamente um modem digital com transceptor de baixa potência (10 mW) que conecta seu HT diretamente às redes mundiais via Wi-Fi. Sem repetidora por perto? Sem problema.

Os modelos baseados em MMDVM (Multi-Mode Digital Voice Modem) com Pi-Star rodando em Raspberry Pi Zero W são os mais populares no mercado brasileiro. Custam entre R$ 400 e R$ 800 prontos, suportam D-STAR, DMR, YSF, P25, NXDN e M17 simultaneamente, e cabem na palma da mão.

Para muitos radioamadores brasileiros especialmente em regiões sem repetidoras digitais , o hotspot é o jeito mais prático de entrar nas redes mundiais sem depender de infraestrutura local.


Regulamentação, etiqueta e boas práticas

Operar em modos digitais exige tanto cuidado regulatório quanto qualquer outra modalidade. Os princípios são os mesmos, mas há especificidades.

Privilégios por classe (ANATEL)

No Brasil, a ANATEL define três classes de radioamador (A, B e C), com privilégios decrescentes em faixas e potências. Modos digitais são permitidos em todas as classes, respeitando-se as faixas autorizadas para cada uma.

Para HF, classes A e B têm acesso amplo às bandas tradicionais (80, 40, 20, 15, 10 m e outras). A classe C é restrita basicamente a 10 m e VHF/UHF o que ainda permite operar APRS, DMR, D-STAR e até FT8 nos 10 m quando houver propagação. A LABRE (Liga de Amadores Brasileiros de Radio Emissão) mantém canais oficiais com a ANATEL e publica boletins regulatórios atualizados; vale acompanhar em períodos de mudanças normativas.

Identificação e tempo de transmissão

A regulamentação exige identificação periódica do operador. Em modos digitais, o próprio protocolo costuma incluir o indicativo em cada transmissão (FT8, D-STAR, DMR), o que cumpre o requisito automaticamente. Em APRS, o indicativo está em cada pacote.

Mesmo assim, em redes de voz digital (DMR, D-STAR, Fusion), é boa prática anunciar o indicativo no início e fim de cada participação, especialmente em conversas longas em talkgroups internacionais onde nem todos os ouvintes têm o display do rádio à vista o tempo todo.

Etiqueta operacional em redes mundiais

Algumas regras não escritas economizam muitos mal-entendidos:

Em FT8, evite chamar CQ na frequência exata de uma estação rara observe primeiro o que está acontecendo. Use o hold tx e clique nos chamadores em sequência, sem atropelar QSOs em andamento.

Em DMR e D-STAR, espere alguns segundos após o fim de uma transmissão antes de chamar outras repetidoras precisam liberar o slot e o sistema de roteamento precisa de um pequeno tempo de hangtime.

Em APRS, configure beacons espaçados (padrão de 5 a 10 minutos para estações fixas, beacon dinâmico baseado em velocidade e curvas para móveis). Beacon a cada 30 segundos satura a rede e é considerado má conduta.

E sempre, em qualquer modo: escute antes de transmitir. Vale para o digital tanto quanto para o analógico.


Tendências: o futuro dos modos digitais

O ecossistema digital continua evoluindo rapidamente. Alguns desenvolvimentos merecem atenção de quem quer permanecer atualizado.

M17 e o movimento open source

O M17 é um protocolo de voz digital totalmente aberto, criado em resposta às limitações de licenciamento do codec AMBE usado em D-STAR e DMR. Lançado em 2020, usa o codec Codec2 (também aberto) e roda em hardware existente via firmware modificado, como o OpenRTX em rádios DMR populares.

A adoção ainda é modesta, mas crescente. Para entusiastas de software livre e de transparência técnica, o M17 representa o futuro ideológico do rádio digital sem royalties, sem caixas-pretas, com cada bit auditável.

Integração com a internet e SDR

Os SDRs (Software Defined Radios) baratearam radicalmente a entrada em modos digitais. Com um RTL-SDR de R$ 150 e software como SDR++ ou GQRX, qualquer pessoa pode receber FT8, APRS, ADS-B e dezenas de outros sinais sem possuir um transceptor caro.

A integração com a internet via WebSDR, OpenWebRX e KiwiSDR permite até operar receptores remotos em outros continentes pelo navegador. Já existem experimentos de transceptores remotos completos via internet, como plataformas comerciais (RemoteHamRadio) e projetos abertos, ampliando o que significa “estar no ar”.

IA aplicada à decodificação fraca

Modelos de aprendizado de máquina já melhoram decodificação em condições marginais. O próprio WSJT-X incorporou, nas versões mais recentes, técnicas de decodificação a posteriori (AP) que recuperam mensagens parcialmente corrompidas usando contexto do QSO em andamento.

Pesquisadores experimentam redes neurais para identificar sinais sob ruído extremo, e há projetos abertos explorando essa fronteira. Em alguns anos, é provável que decodificadores assistidos por IA sejam padrão abrindo ainda mais as portas para QSOs em condições antes impossíveis.


Conclusão e próximos passos

Os modos digitais não substituem a fonia ou o CW eles ampliam o radioamadorismo. Cada modo resolve um problema específico: o FT8 democratiza o DX, o APRS conecta operações em campo, o D-STAR e o DMR levam voz a redes mundiais, e os hotspots removem a barreira da repetidora local.

Para começar, escolha um modo conforme o seu interesse, equipe-se com o necessário (muitas vezes pouca coisa além do que você já tem) e dedique algumas horas a configurar e ouvir. A curva de aprendizado é acessível, a comunidade brasileira é receptiva, e cada QSO digital traz a satisfação de operar tecnologia de ponta com as próprias mãos.

Pronto para colocar a teoria em prática? Comece pelo nosso tutorial passo a passo de configuração do FT8 no JTDX e faça seu primeiro QSO digital ainda esta semana.

Carlos PY2CER

Carlos Rincon, conhecido como PY2CER, é um entusiasta do radioamadorismo com uma trajetória marcada pela curiosidade e dedicação. Desde criança, já demonstrava interesse pelas comunicações desmontando brinquedos para construir seus próprios rádios. Hoje, é uma figura respeitada na comunidade, unindo conhecimento técnico com a paixão por conectar pessoas ao redor do mundo. Além de operador experiente, Carlos é o fundador do AntenaAtiva.com.br, um portal voltado à divulgação e ensino do radioamadorismo no Brasil. O site oferece conteúdo acessível e educativo para iniciantes e avançados, com foco em antenas, comunicação via satélites, concursos de rádio e atividades escolares. Com iniciativas que envolvem escolas técnicas, projetos com satélites meteorológicos e ampla atuação na comunidade, Carlos Rincon e o Antena Ativa se consolidaram como referências nacionais no universo do radioamadorismo, combinando tecnologia, educação e espírito comunitário.

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