Cena horizontal de estação de rádio ao ar livre com antenas variadas, destacando rascunho automático e diversidade de potência

Não é apenas “questão de potência”: por que você precisa repensar sua estação de radioamador

Se você é radioamador há algum tempo, provavelmente já se pegou admirando sinais fortíssimos no rádio — aqueles que parecem “invadir” o receptor, marcando S9+20, S9+30 ou até S9+40 dB. Às vezes eles vêm de grandes estações de contest, com torres imponentes, múltiplas antenas empilhadas e sistemas meticulosamente otimizados. Outras vezes, porém, vêm de estações aparentemente modestas, mas equipadas com amplificadores capazes de transmitir centenas ou milhares de watts.

Isso naturalmente levanta uma pergunta: será que a potência é mesmo o fator decisivo para ser bem ouvido? Ou será que você está superestimando o papel do amplificador e subestimando outros aspectos da sua estação?

Neste texto, você vai explorar essa questão em profundidade, entendendo por que potência, sozinha, raramente é a resposta definitiva — e como você pode transformar sua estação com decisões mais inteligentes, técnicas mais eficazes e uma abordagem mais consciente à radiofrequência.

Texto Baseado na postagem do 09/2025 – 73 de IU5ASA – Sauro
NON E’ SOLO “QUESTIONE DI POTENZA”


1. A tentação da potência: por que você acredita que precisa de mais watts?

É fácil entender por que a potência exerce tanto fascínio. Um amplificador grande, pesado e robusto transmite uma sensação imediata de força, controle e “status”. Ele não apenas ocupa espaço na bancada; ele ocupa espaço na sua imaginação.

Você liga o linear, vê o ponteiro subir, sente que agora é uma “Big Station”. Em muitos casos, essa sensação vem acompanhada de resultados: contatos que antes não eram possíveis passam a acontecer, pile-ups respondem mais rápido, e seu indicativo parece “furar” a banda com mais autoridade.

Mas é justamente aí que mora o perigo: confundir correlação com causalidade. Sim, a potência ajuda — mas nem sempre da forma que você imagina, e quase nunca sozinha.

A pergunta correta não é “quantos watts você transmite?”, mas sim: quanto do que você transmite realmente chega ao outro lado?


2. Entendendo a relação entre potência e sinal recebido

Vamos começar pelo básico, porque esse é o alicerce de todo o raciocínio.

Sempre que você dobra sua potência transmitida, o sinal recebido pelo outro operador aumenta apenas 3 dB, o que corresponde aproximadamente a meio ponto S no S-meter dele. Da mesma forma, quando você reduz sua potência pela metade, seu sinal cai 3 dB — novamente, meio ponto S.

Isso significa que:

  • Dobrar a potência não dobra sua “força percebida” no receptor remoto.
  • Para ganhar um ponto S inteiro (aproximadamente 6 dB), você precisa quadruplicar a potência.

Vamos traduzir isso em termos práticos.

Se você transmite com 100 watts e é ouvido como S7, ao dobrar para 200 watts, passará a ser ouvido como S7,5. Ao dobrar novamente para 400 watts, talvez chegue a S8. Para atingir S9, você teria que ir para cerca de 1600 watts — dezesseis vezes mais potência do que seus 100 watts iniciais.

Essa progressão deixa claro: ganhos de potência são caros em termos de esforço, energia, custo e complexidade, mas oferecem retornos relativamente modestos no sinal percebido.


3. Um exemplo concreto: 2000 W vs 100 W

Imagine que, com 2000 watts, você seja ouvido por um correspondente com sinal S9. Parece impressionante, certo?

Agora, vamos reduzir sua potência para 100 watts. A diferença entre 2000 W e 100 W é de cerca de 13 dB — pouco mais de dois pontos S. Isso significa que, em vez de S9, você ainda será ouvido como aproximadamente S7.

S7 é um sinal perfeitamente utilizável, claro, limpo, confortável para QSO. Portanto, mesmo com apenas 100 watts, você continua muito longe de ser “fraco”.

Isso já desafia diretamente a ideia de que “sem amplificador não dá para fazer contatos”. Na maioria das situações, dá — e muito bem.


4. Quando a potência realmente faz diferença

Mas vamos ser honestos: há situações em que a potência faz, sim, uma diferença crítica.

Por exemplo:

  • Quando seu sinal está na faixa de S4 ou S5 com alta potência, reduzir para 100 W pode empurrá-lo para S2 ou S3, onde ele pode se perder no ruído de fundo do receptor remoto.
  • Em condições de propagação marginais, cada decibel conta.
  • Em pile-ups, contests e expedições DX, onde dezenas ou centenas de estações tentam ser ouvidas simultaneamente, ter um sinal ligeiramente mais forte pode ser decisivo.

Ou seja, potência não é inútil. Ela é uma ferramenta — mas não é uma solução universal.


5. O outro lado da equação: você ouve tão bem quanto transmite?

Até agora, você considerou apenas o seu sinal chegando ao outro operador. Mas há outro lado igualmente importante: você consegue ouvir a resposta dele?

Esse é um ponto frequentemente negligenciado.

Você pode transmitir com 1 kW, ser ouvido com clareza, receber uma resposta… e simplesmente não conseguir copiá-la porque:

  • Sua antena é ineficiente.
  • Seu ambiente tem muito ruído.
  • Seu receptor está sobrecarregado ou mal ajustado.

Em outras palavras, você pode ser uma estação “gritante”, mas surda.

E isso cria uma situação curiosa: você causa impacto no espectro, gera QRM, ocupa espaço na banda — mas não consegue participar plenamente da comunicação, porque não consegue ouvir os sinais mais fracos.

Isso nos leva a uma reflexão importante: uma estação equilibrada é aquela que transmite e recebe bem, não apenas aquela que transmite forte.


6. O ruído: o inimigo invisível

Você pode investir milhares em amplificadores, mas se seu ruído de fundo estiver alto, todo esse esforço pode ser desperdiçado.

O ruído não vem apenas da atmosfera. Ele vem:

  • De fontes elétricas próximas.
  • De fontes eletrônicas domésticas.
  • De instalações mal aterradas.
  • De equipamentos defeituosos.
  • Do próprio receptor, em alguns casos.

Se o seu ruído de fundo estiver em S7, por exemplo, qualquer sinal abaixo disso será virtualmente inaudível, independentemente da potência transmitida pelo outro operador.

Agora imagine que você melhore sua estação, reduza o ruído de fundo para S3. De repente, você passa a ouvir sinais que antes estavam completamente ocultos — sem mudar absolutamente nada na potência transmitida.

Esse tipo de ganho é, muitas vezes, muito mais eficaz do que qualquer amplificador.


7. A antena: o verdadeiro coração da sua estação

Se potência não é tudo, então o que é?

A resposta é simples e, ao mesmo tempo, profunda: a antena.

Sua antena é o elo entre o seu transmissor e o mundo. É ela que converte energia elétrica em ondas eletromagnéticas e, no caminho inverso, ondas eletromagnéticas em sinais elétricos utilizáveis.

Uma antena eficiente, bem posicionada, corretamente ajustada e adequada à banda e ao tipo de operação pode oferecer ganhos que nenhum amplificador consegue igualar de forma tão elegante.

Vamos colocar isso em perspectiva:

  • Um ganho de 6 dB em antena equivale, aproximadamente, a quadruplicar a potência.
  • Um ganho de 10 dB equivale a aumentar a potência em dez vezes.
  • Um ganho de 20 dB equivale a aumentar a potência em cem vezes.

Portanto, melhorar sua antena em apenas alguns decibéis pode ter o mesmo efeito que adquirir um amplificador muito potente — mas com menos custo, menos consumo, menos calor e menos impacto regulatório.


8. Antena ruim + amplificador = desperdício

Agora, pense no seguinte cenário: você tem uma antena ineficiente, mal posicionada, com perdas elevadas no cabo, acoplamento imperfeito e baixa eficiência de radiação.

Você então conecta um amplificador de 1 kW.

O que acontece?

  • Uma parte significativa dessa potência é dissipada em perdas.
  • Outra parte é irradiada em direções pouco úteis.
  • O restante chega ao destino, mas não com a eficiência que poderia.

Em outras palavras, você está gastando muita energia para obter um ganho modesto.

Agora, imagine que você mantenha 100 watts, mas melhore sua antena, reduza perdas, otimize a altura, ajuste o padrão de radiação e melhore o aterramento. É muito provável que seu sinal chegue tão longe — ou mais — do que com a antena ruim e o amplificador ligado.


9. O mito da “Big Station”

Existe, dentro da cultura do radioamadorismo, uma ideia implícita de que ser uma “Big Station” significa ter:

  • Alto poder de transmissão.
  • Antenas grandes.
  • Torres altas.
  • Equipamentos caros.

Mas essa definição é incompleta — e, muitas vezes, enganosa.

Uma verdadeira Big Station não é aquela que apenas transmite forte. É aquela que:

  • Transmite de forma eficiente.
  • Recebe sinais fracos com clareza.
  • Opera de maneira limpa, sem causar interferência desnecessária.
  • Usa os recursos disponíveis com inteligência.
  • Respeita os limites regulamentares.
  • Contribui positivamente para o espectro.

Em outras palavras, grandeza não está na potência bruta, mas na qualidade da operação.


10. Potência e regulamentação: um ponto que você não pode ignorar

Outro aspecto crítico dessa discussão é o cumprimento das normas.

Muitos amplificadores permitem potências que ultrapassam os limites legais estabelecidos em vários países. Alguns operadores, consciente ou inconscientemente, utilizam esses níveis, acreditando que “ninguém vai perceber” ou que “todo mundo faz”.

Mas isso é um erro, por vários motivos:

  • Coloca você em risco legal.
  • Pode causar interferências em outros serviços.
  • Prejudica a imagem do radioamadorismo como um todo.
  • Não resolve, na raiz, os problemas de eficiência da estação.

Além disso, como você já viu, aumentar potência acima de certos limites oferece retornos cada vez menores. Ou seja, você assume riscos significativos para obter ganhos marginais.


11. QRM, saturação e convivência no espectro

Quando você transmite com potência excessiva, especialmente em ambientes congestionados, há efeitos colaterais inevitáveis:

  • Você pode saturar receptores próximos.
  • Pode causar intermodulação.
  • Pode “esmagar” sinais mais fracos.
  • Pode gerar QRM involuntário.

Imagine o espectro como um mar cheio de peixes. Alguns são pequenos, outros grandes. Quando um peixe muito grande se movimenta, ele agita a água ao redor, criando turbulência que afeta todos os outros. Isso não significa que o peixe grande seja “mal-intencionado”, mas o impacto é real.

Da mesma forma, uma estação de alta potência pode, mesmo sem intenção, dificultar a comunicação de outras estações — especialmente aquelas que operam com baixa potência ou em condições mais desafiadoras.

Por isso, uma postura consciente e cooperativa no uso da potência é fundamental para a convivência saudável no espectro.


12. O QRP como prova viva de que potência não é tudo

Talvez o exemplo mais eloquente de que potência não é tudo seja o QRP.

Operar com 5 watts — ou menos — parece, à primeira vista, uma limitação severa. E, no entanto, milhares de radioamadores ao redor do mundo fazem contatos diários, inclusive intercontinentais, com essas potências.

Como isso é possível?

Porque:

  • A propagação, quando favorável, amplifica os sinais naturalmente.
  • Antenas bem projetadas fazem enorme diferença.
  • Operadores QRP tendem a escolher frequências, horários e modos de forma estratégica.
  • O ruído é combatido ativamente.
  • A eficiência é uma obsessão.

Você já viu que, se com 2000 W você chega com S9, ao reduzir para 5 W (QRP), você ainda chegaria com algo pouco abaixo de S5. Isso é um sinal perfeitamente utilizável em muitas condições.

Isso demonstra algo fundamental: quando há propagação, não há amplificador que a substitua — e quando não há propagação, não há amplificador que a crie.


13. Propagação: o verdadeiro “amplificador natural”

Se você quer melhorar seu desempenho no rádio, uma das áreas mais importantes de estudo não é potência, mas propagação.

Entender:

  • Ciclos solares.
  • Variações diurnas e sazonais.
  • Aberturas de banda.
  • Condições ionosféricas.
  • Diferenças entre bandas.

Tudo isso permite que você:

  • Escolha os melhores horários para operar.
  • Se posicione nas bandas mais favoráveis.
  • Antecipe aberturas.
  • Evite tentar contatos em momentos improdutivos.

Um operador que entende propagação pode, com 50 watts, fazer contatos que outro, com 1000 watts, não consegue — simplesmente porque o primeiro está no lugar certo, na hora certa, na banda certa.


14. O método mais inteligente: comece baixo e aumente

Uma abordagem extremamente educativa — e eficaz — é a seguinte:

  • Comece sempre com baixa potência.
  • Tente estabelecer o contato.
  • Se não conseguir, aumente gradualmente.
  • Observe em que ponto o contato se torna possível.

Esse método tem várias vantagens:

  • Você aprende, na prática, como sua estação se comporta.
  • Você entende melhor as condições de propagação.
  • Você descobre o limite real da sua configuração.
  • Você evita usar potência excessiva sem necessidade.
  • Você desenvolve sensibilidade operacional.

Com o tempo, você passa a “sentir” a banda, reconhecendo quando 50 watts são suficientes, quando 100 watts são necessários e quando talvez seja justificável ligar o linear.


15. A relação Watt > dB > S: uma tabela mental indispensável

Para tomar decisões conscientes, você precisa internalizar a relação entre potência, decibéis e pontos S.

Vamos revisar a progressão típica:

  • 2000 W → 1000 W = -3 dB
  • 1000 W → 500 W = -3 dB
  • 500 W → 250 W = -3 dB
  • 250 W → 125 W = -3 dB
  • 125 W → 62,5 W = -3 dB
  • 62,5 W → 31,25 W = -3 dB
  • 31,25 W → 15,6 W = -3 dB
  • 15,6 W → 7,8 W = -3 dB

Cada passo desses representa uma queda de apenas meio ponto S no receptor remoto.

Portanto, reduzir sua potência de 2000 W para 125 W — uma redução de 16 vezes — resulta em uma queda de apenas cerca de 12 dB, ou aproximadamente dois pontos S.

Isso reforça uma ideia central: grandes reduções de potência resultam em perdas relativamente pequenas no sinal percebido.


16. O orgulho operacional: redefinindo o que significa “sucesso”

Muitos radioamadores sentem orgulho em operar com alta potência, alcançar grandes distâncias e “dominar” a banda. Isso é compreensível — e não há nada de errado em sentir satisfação pelos próprios resultados.

Mas há uma forma ainda mais profunda de orgulho: o orgulho de operar com eficiência, inteligência e elegância.

Esse orgulho vem quando você:

  • Faz um contato difícil com baixa potência.
  • Consegue ser ouvido em condições adversas.
  • Recebe um relatório de sinal melhor do que esperava.
  • Resolve um problema técnico com criatividade.
  • Otimiza sua estação com recursos limitados.
  • Contribui para um ambiente de rádio mais limpo e cooperativo.

Esse tipo de orgulho não depende de quilowatts. Ele depende de conhecimento, experiência e habilidade.


17. Antenas pequenas, resultados grandes

Nem todo mundo pode instalar torres altas, yagis gigantes ou sistemas complexos de antenas. Restrições de espaço, orçamento, legislação e convivência com vizinhos fazem parte da realidade de muitos radioamadores.

Mas isso não significa que você esteja condenado a operar mal.

Com criatividade, estudo e experimentação, é possível:

  • Otimizar antenas simples.
  • Ajustar comprimentos com precisão.
  • Melhorar aterramentos.
  • Reduzir perdas em cabos.
  • Escolher localizações mais favoráveis.
  • Usar configurações menos óbvias, mas eficazes.

Muitas vezes, uma antena simples bem instalada supera uma antena sofisticada mal instalada — mesmo que esta última esteja conectada a um amplificador potente.


18. O papel do operador: técnica, paciência e estratégia

Não podemos falar de eficiência sem falar de você como operador.

Seu estilo operacional influencia enormemente seus resultados. Isso inclui:

  • Como você chama CQ.
  • Onde você chama CQ.
  • Como você responde a outros.
  • Como você gerencia pile-ups.
  • Como você escolhe horários.
  • Como você escolhe bandas.
  • Como você adapta sua técnica às condições.

Um operador atento, paciente e estratégico pode obter resultados surpreendentes mesmo com recursos limitados.

Por outro lado, um operador apressado, desatento ou desorganizado pode desperdiçar até mesmo uma estação extremamente potente.


19. Potência e modos digitais: outra perspectiva

Nos modos digitais, especialmente os mais modernos e eficientes, como aqueles projetados para operar abaixo do nível de ruído, a potência se torna ainda menos relevante.

Nesses modos:

  • Sinais muito fracos podem ser decodificados.
  • Relações sinal-ruído negativas ainda são utilizáveis.
  • Antenas modestas podem produzir resultados impressionantes.
  • A eficiência espectral é muito maior.

Isso significa que, em muitos contextos digitais, aumentar potência traz benefícios ainda menores do que em modos tradicionais.

Novamente, o foco se desloca da potência para a eficiência do sistema como um todo.


20. O custo oculto da alta potência

Além do custo financeiro direto de um amplificador, há custos indiretos que você talvez não considere imediatamente:

  • Consumo de energia elétrica elevado.
  • Necessidade de sistemas de resfriamento.
  • Maior complexidade da estação.
  • Maior probabilidade de falhas.
  • Necessidade de manutenção.
  • Possível desgaste de componentes.
  • Maior risco de interferência.

Quando você soma tudo isso, percebe que o “preço” da potência é muito maior do que o valor na etiqueta.

Em contraste, investir em antenas, cabos de qualidade, filtros, aterramento, análise de ruído e conhecimento técnico costuma oferecer retornos mais sustentáveis, duradouros e elegantes.


21. Eficiência: a verdadeira moeda do rádio

Se você tivesse que resumir toda essa discussão em uma única palavra, ela seria: eficiência.

Eficiência significa:

  • Converter a maior parte possível da potência transmitida em energia irradiada útil.
  • Reduzir perdas ao longo do caminho.
  • Maximizar a recepção de sinais úteis.
  • Minimizar a recepção de ruído.
  • Usar recursos de forma inteligente.
  • Obter o máximo resultado com o mínimo desperdício.

Uma estação eficiente é aquela que “faz mais com menos”.

E, ironicamente, é justamente essa filosofia que permite que operadores QRP façam contatos impressionantes — não porque tenham pouca potência, mas porque extraem o máximo valor de cada watt.


22. Uma mudança de mentalidade necessária

Muitos radioamadores entram no hobby com a ideia de que o progresso se mede em:

  • Mais potência.
  • Antenas maiores.
  • Equipamentos mais caros.

Mas, com o tempo, os operadores mais experientes tendem a perceber que o verdadeiro progresso está em:

  • Melhor compreensão técnica.
  • Melhor leitura da propagação.
  • Melhor design de estação.
  • Melhor comportamento operacional.
  • Maior sensibilidade ao ambiente de rádio.

Essa mudança de mentalidade não acontece da noite para o dia. Ela vem com experiência, reflexão, tentativa e erro — e, muitas vezes, com a frustração de perceber que “mais watts” não resolveram um problema que, na verdade, era estrutural.


23. O valor da experimentação

Uma das maiores riquezas do radioamadorismo é a possibilidade de experimentar.

Você pode:

  • Comparar antenas.
  • Testar diferentes configurações.
  • Medir resultados.
  • Ajustar parâmetros.
  • Repetir testes em condições diferentes.
  • Registrar observações.
  • Aprender com os erros.

Essa mentalidade experimental transforma sua estação em um laboratório vivo — e cada contato em uma oportunidade de aprendizado.

Ao adotar essa postura, você deixa de ser apenas um usuário de equipamentos e passa a ser um verdadeiro engenheiro de rádio, mesmo que de forma amadora.


24. O amplificador como ferramenta, não como muleta

Nada disso significa que amplificadores sejam inúteis ou indesejáveis. Pelo contrário: eles são ferramentas legítimas, valiosas e, em certos contextos, essenciais.

O problema não é usar amplificadores. O problema é depender deles como solução para todos os desafios.

Quando você usa um amplificador como:

  • Um complemento a um sistema eficiente.
  • Uma ferramenta estratégica em momentos específicos.
  • Um recurso consciente, não automático.

Então ele cumpre seu papel de forma saudável.

Mas quando ele se torna uma muleta, usada para compensar:

  • Antenas ruins.
  • Ruído elevado.
  • Falta de planejamento.
  • Falta de conhecimento.

Então ele deixa de ser uma solução e passa a ser parte do problema.


25. O prazer de operar com inteligência

Existe um prazer profundo e duradouro em operar com inteligência.

Esse prazer não vem apenas dos contatos feitos, mas da forma como você os faz.

Ele vem quando:

  • Você resolve um problema técnico por conta própria.
  • Você otimiza um sistema com recursos limitados.
  • Você aprende algo novo.
  • Você percebe melhorias reais na sua estação.
  • Você vê resultados consistentes ao longo do tempo.

Esse prazer é diferente da satisfação momentânea de “ligar o linear e passar”. Ele é mais silencioso, mais profundo e mais alinhado com o espírito original do radioamadorismo: experimentar, aprender, compartilhar, crescer.


26. O impacto coletivo das escolhas individuais

Cada operador, ao decidir como usar sua estação, impacta não apenas sua própria experiência, mas também a experiência dos outros.

Quando você:

  • Usa potência excessiva sem necessidade.
  • Gera QRM desnecessário.
  • Ocupa espaço espectral de forma desproporcional.
  • Ignora boas práticas operacionais.

Você afeta negativamente o ambiente de rádio.

Por outro lado, quando você:

  • Usa potência de forma consciente.
  • Otimiza sua estação.
  • Opera de forma limpa.
  • Respeita os outros operadores.

Você contribui para um espectro mais saudável, mais acessível e mais agradável para todos.


27. Redefinindo sucesso no rádio

Talvez seja hora de redefinir o que significa “ter sucesso” no radioamadorismo.

Em vez de medir sucesso apenas em:

  • Número de contatos.
  • Distância máxima alcançada.
  • Potência utilizada.

Você pode passar a medir sucesso em:

  • Qualidade dos contatos.
  • Eficiência da estação.
  • Clareza dos sinais.
  • Contribuição para a comunidade.
  • Aprendizado contínuo.
  • Satisfação pessoal.

Essa redefinição muda profundamente sua relação com o hobby — e com a própria tecnologia.


28. Um convite à reflexão

Se você tem um amplificador, isso não é um problema. Se você gosta de usá-lo, isso também não é um problema.

O convite aqui não é à renúncia, mas à reflexão.

Pergunte a si mesmo:

  • Eu realmente preciso dessa potência para este contato?
  • Minha antena é o melhor que pode ser?
  • Meu ruído de fundo está sob controle?
  • Estou usando meus recursos de forma eficiente?
  • Estou operando de forma consciente e responsável?

Essas perguntas, mais do que qualquer equipamento, são o verdadeiro motor do crescimento no radioamadorismo.


29. O caminho adiante: mais conhecimento, menos desperdício

O futuro do radioamadorismo — e da sua própria experiência no hobby — não depende de mais watts, mas de mais conhecimento.

Conhecimento sobre:

  • Antenas.
  • Propagação.
  • Eletrônica.
  • Interferência.
  • Modos.
  • Técnicas operacionais.
  • Regulamentação.
  • Ética espectral.

Cada hora investida nesse conhecimento rende mais frutos do que qualquer aumento isolado de potência.


30. Conclusão: potência é apenas uma variável — não a resposta

Ao longo deste texto, você viu que:

  • Dobrar a potência resulta em apenas 3 dB de ganho.
  • Ganhar um ponto S exige quadruplicar a potência.
  • Reduções drásticas de potência resultam em perdas relativamente pequenas no sinal percebido.
  • Antenas, ruído, propagação e técnica operacional têm impacto muito maior.
  • QRP funciona — e funciona muito bem — quando as condições são favoráveis.
  • Amplificadores são ferramentas úteis, mas não substituem eficiência.
  • O verdadeiro poder no rádio está no conhecimento, não nos quilowatts.

Portanto, da próxima vez que você pensar em aumentar a potência, talvez valha a pena parar e perguntar:

“O que mais eu posso melhorar antes de girar esse botão?”

Talvez a resposta esteja na sua antena. Talvez esteja no seu aterramento. Talvez esteja no seu ambiente de ruído. Talvez esteja na sua leitura da propagação. Talvez esteja na sua técnica operacional. Talvez esteja na sua própria mentalidade.

Porque, no fim das contas, não é apenas questão de potência — é questão de inteligência, eficiência e consciência no uso do espectro.

E isso, mais do que qualquer amplificador, é o que realmente faz você ser ouvido.

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