Estação de Radioamadorismo na Exposição do Exército Brasileiro: No Galleria Shopping em Campinas

Quem acompanha o mundo das comunicações de rádio sabe que nem todo evento consegue reunir, ao mesmo tempo, demonstrações práticas, tecnologia de ponta e um contexto histórico rico. A edição de 24, 25 e 26 abril de 2026 da Exposição do Exército Brasileiro promete exatamente isso — e a estação de radioamadorismo montada especialmente para o evento é um dos pontos que mais me entusiasmam.

Neste artigo, vou contar o que está planejado para os três dias de atividade, por que cada tecnologia apresentada importa de verdade e o que você, radioamador, vai ganhar se puder estar presente.


Por que o radioamadorismo aparece em uma exposição militar?

A pergunta pode parecer estranha à primeira vista, mas a resposta é bastante direta: comunicação em situações de colapso de infraestrutura é um ponto de intersecção natural entre o serviço militar e o radioamadorismo civil. Não é de hoje que as Forças Armadas reconhecem o valor estratégico dos radioamadores em momentos de crise.

Historicamente, radioamadores foram fundamentais em grandes catástrofes. No Brasil, a atuação em enchentes, deslizamentos e apagões demonstrou repetidas vezes que quando a telefonia cai, quando a internet falha e quando as torres de celular ficam sem energia, o rádio continua funcionando. Essa resiliência é o que torna o radioamadorismo irreplacível — e é exatamente esse argumento que estará em cena durante os três dias de exposição.

O radioamador Rubens, PY2VE, será o responsável pela operação da estação. Se você já cruzou com ele em algum net ou evento, sabe que a demonstração não vai ser só teórica. Rubens tem experiência prática com comunicações de emergência e vai mostrar, ao vivo, como cada sistema funciona.


As tecnologias que estarão em demonstração

APRS: rastreamento em tempo real para operações de campo

APRS (Automatic Packet Reporting System) existe desde a década de 1980, criado por Bob Bruninga, WB4APR, mas continua sendo uma das ferramentas mais úteis em operações de busca e salvamento. A lógica é simples: estações transmitem pacotes com posição GPS em frequências VHF, e qualquer receptor compatível — ou a rede de i-gates conectados à internet — pode mapear essas posições em tempo real.

Na prática, isso significa que uma equipe de resgate em campo pode ser monitorada por um centro de coordenação a quilômetros de distância, mesmo sem cobertura de celular. Veículos, balões meteorológicos, socorristas a pé — todos podem ser rastreados com equipamento relativamente simples e de baixo custo.

Durante a exposição, a demonstração do APRS vai mostrar justamente essa funcionalidade: posicionamento ao vivo, atualização constante e integração com mapas. Para quem ainda não explorou o sistema, é uma excelente porta de entrada.


Satélite QO-100: comunicação intercontinental sem depender de infraestrutura terrestre

QO-100 (também conhecido como Es’hail-2) é o primeiro satélite geoestacionário com transponder de radioamador. Lançado em 2018 e operado em parceria com a Qatar Amateur Radio Society e a AMSAT, ele cobre uma faixa enorme — da América do Sul ao Leste Asiático.

O que torna a demonstração ao vivo interessante é a estabilidade da comunicação. Diferente de satélites em órbita baixa, onde a janela de contato dura minutos, o QO-100 fica fixo no horizonte e permite QSOs longos, com qualidade de sinal consistente. Isso tem implicações reais para cenários de emergência: uma estação com prato direcional e amplificador de potência relativamente modesto consegue alcançar qualquer ponto da área de cobertura do satélite.

Ver isso acontecendo ao vivo — com o sinal subindo, sendo repetido pelo satélite e chegando no receptor — é um daqueles momentos que fazem a teoria fazer sentido de uma forma diferente.


D-STAR: o protocolo digital que mudou o padrão de clareza nas comunicações

D-STAR (Digital Smart Technologies for Amateur Radio) foi desenvolvido pela JARL (Japan Amateur Radio League) no fim dos anos 1990 e comercializado principalmente pela Icom. Ele resolve um problema clássico do rádio FM analógico: a degradação progressiva do áudio conforme o sinal enfraquece.

No analógico, o áudio vai ficando estático, com ruídos, até se tornar ininteligível. No D-STAR, o sinal é recebido perfeitamente até um determinado limiar — abaixo disso, simplesmente para de receber. Esse comportamento, chamado de “cliff effect”, é previsível e, em muitos contextos operacionais, preferível ao ruído crescente do analógico.

Além do áudio, o D-STAR permite transmissão simultânea de dados de identificação da estação, frequência, posição GPS e mensagens de texto curtas. Em operações coordenadas com múltiplas equipes, isso simplifica o controle de redes.

A demonstração na exposição vai mostrar esse sistema em funcionamento, incluindo a integração via repetidoras que conectam regiões diferentes — algo que o Portal Antena Ativa já cobriu em profundidade em suas reportagens sobre sistemas digitais no Brasil.


O que o público geral vai aprender — e o que os radioamadores vão levar

Para o público que nunca teve contato com radioamadorismo, a exposição funciona como uma vitrine de possibilidades. Muita gente associa o rádio amador a uma tecnologia antiga, ultrapassada pelos smartphones. A demonstração ao vivo de satélites, rastreamento GPS e comunicação digital desfaz esse equívoco rapidamente.

Para quem já é radioamador, a oportunidade é outra: ver sistemas integrados operando simultaneamente, conversar com o operador sobre configurações, antenas, limitações práticas e casos reais. Esse tipo de troca dificilmente acontece em um clube ou através de textos online.

Três perguntas que costumam surgir nesses contextos:

O radioamador pode atuar em emergências sem autorização especial? No Brasil, a Anatel prevê o uso do serviço de radioamador em situações de emergência e calamidade pública. A licença de radioamador já autoriza essa atuação dentro das faixas e potências permitidas pela classe da habilitação.

Qual a diferença entre o D-STAR e o sistema DMR? Os dois são protocolos digitais, mas usam codificação de voz diferente. O D-STAR usa AMBE+2, enquanto o DMR usa AMBE+2 também, mas com estrutura TDMA que divide o canal em dois slots temporais. Na prática, o DMR tem maior penetração em repetidoras ao redor do mundo, enquanto o D-STAR domina em equipamentos Icom e tem integração mais fluida com serviços de dados.

O APRS funciona sem internet? Sim. O APRS pode operar completamente em radiofrequência, sem nenhuma conexão à internet. A rede de i-gates conecta o sistema à internet para visualização em plataformas como o aprs.fi, mas a transmissão e recepção de pacotes localmente independe disso.


Por que vale a pena ir presencialmente

Vivemos em uma época de tutoriais em vídeo, grupos no WhatsApp e fóruns especializados. É tentador achar que qualquer coisa pode ser aprendida remotamente. Mas certas experiências só funcionam ao vivo.

Ver uma comunicação via satélite acontecendo — com o operador ajustando a antena, monitorando o sinal, fazendo o QSO — ativa um tipo de compreensão que nenhum vídeo replica completamente. O mesmo vale para o APRS: acompanhar o mapa atualizar em tempo real com posições reais é diferente de ler sobre o sistema.

Os dias 24, 25 e 26 de abril de 2026 são uma janela curta, mas bem aproveitada. Se você está em São Paulo ou nas proximidades, considere reservar algumas horas em um dos dias para visitar a estação, conversar com o PY2VE e o PY2CER e ver de perto tecnologias que, em algum momento de crise, podem ser exatamente o que faz a diferença entre conseguir ou não estabelecer comunicação.


Considerações finais

O radioamadorismo tem uma característica que poucos hobbies conseguem combinar: é ao mesmo tempo técnico, social e socialmente útil. Não é só sobre fazer contatos ou colecionar QSLs — é sobre manter uma competência real, com equipamentos reais, que funcionam quando tudo o mais falha.

A presença de uma estação de radioamadorismo em uma exposição do Exército Brasileiro não é coincidência. É o reconhecimento institucional de algo que a comunidade de radioamadores já sabe há décadas: comunicações resilientes salvam vidas, e o serviço de radioamador é uma das poucas infraestruturas de comunicação que pode operar de forma completamente independente.

Se você vai, boa visita. Se não puder ir, fique de olho nos relatos que vão circular depois — a comunidade vai documentar.

— Carlos Rincon, PY2CER

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