Imagem de rascunho automático mostrando estação de rádio em cobertura de praia com antenas parabólicas e céu nublado com sol

Ligue o 2 metros: a temporada do tropo está começando

Por Carlos Rincon — PY2CER

Junho marca, no calendário do radioamador brasileiro, uma virada de chave silenciosa. Enquanto o pessoal de HF se acomoda às bandas mais curtas, lamentando o ciclo solar em desaceleração, e quem opera 6 metros guarda o transceptor numa espécie de hibernação à espera da Esporádica-E de dezembro, há um grupo que vive justamente o oposto: os operadores de 2 metros e 70 centímetros. Para nós, o frio é alta temporada.

O motivo é meteorológico antes de ser radioelétrico. O Anticiclone Subtropical do Atlântico Sul — o famigerado ASAS, citado em todo boletim do INPE quando São Paulo afunda numa camada cinza de poluição — é o mesmo sistema que ergue inversões térmicas robustas sobre o Atlântico e abre dutos troposféricos com regularidade entre maio e setembro. O ar parado que cobre a Pinheiros de uma mancha laranja, visto de cima, tem outro nome: combustível de tropo.

Este artigo é um guia completo para entender por que a propagação troposférica acontece, como ela se forma especificamente na nossa costa, como reconhecê-la no ar e como se preparar para aproveitá-la. Vou cobrir desde a física do índice de refração até a parte prática de escolher antena, ferramentas de previsão e frequências de chamada.

O que muda quando o ar fica em camadas

Sob condições atmosféricas comuns, sinais de VHF e UHF se propagam aproximadamente em linha de visada, com um leve ganho além do horizonte óptico — algo em torno de 15% — graças à refração padrão da atmosfera. Esse comportamento “de manual” é o que sustenta o cálculo de raio terrestre efetivo 4/3 usado em projetos de enlace ponto-a-ponto desde os anos 1940.

A troposfera, porém, raramente é homogênea. Variações de temperatura, pressão e, sobretudo, umidade entre o nível do mar e os primeiros dois quilômetros de altitude podem mudar drasticamente a maneira como o sinal viaja. Em vez de seguir uma curva suave, a onda passa a ser desviada, curvada além da curvatura da Terra ou — no extremo — aprisionada entre duas camadas atmosféricas, como luz dentro de uma fibra óptica.

É esse aprisionamento que chamamos de duto troposférico. E é o que permite que uma estação no Rio de Janeiro escute outra em Santa Helena, no meio do Atlântico, a quase 3.800 km de distância — algo que aconteceu de verdade em dezembro de 2024 e ainda reverbera entre os operadores de 2 metros.

A física do duto: o que é índice de refratividade

Para entender por que isso acontece, é preciso falar de um número um pouco esquisito: o índice de refração da atmosfera, normalmente denotado por n. Ele descreve o quanto a luz (e as ondas de rádio) viajam mais devagar no ar do que no vácuo. Como esse valor fica grudado em 1 — algo como 1,000300 ao nível do mar —, manipular o índice em si é desconfortável. Por isso a comunidade de propagação trabalha com a refratividade N, definida como o desvio em partes por milhão a partir do vácuo: N = (n − 1) × 10⁶.

A refratividade depende de três variáveis meteorológicas: temperatura do ar, pressão atmosférica e pressão parcial de vapor d’água. A fórmula de Essen–Froom expressa essa relação como N = 77,6·p/T + 4810·e/T², com T em Kelvin, p em hectopascais e e em hectopascais para o vapor. O segundo termo, o termo úmido (com o coeficiente 4810), domina nas baixas altitudes em clima tropical. Em linguagem simples: a umidade mexe no N muito mais rápido do que a temperatura, especialmente perto de um oceano quente — exatamente o cenário do nosso litoral.

O gradiente vertical é o que importa

O valor absoluto de N não diz nada sobre propagação. O que define se a onda se curva, se mantém ou escapa para o espaço é a variação de N com a altura, ou seja, o gradiente dN/dh, medido em unidades-N por quilômetro. A classificação internacional usa quatro faixas:

  • dN/dh entre 0 e −40 N/km: sub-refração. Sinais vão menos longe do que o normal.
  • dN/dh em torno de −40 N/km: atmosfera-padrão. É o terreno do raio terrestre efetivo 4/3.
  • dN/dh entre −40 e −157 N/km: super-refração. A onda curva mais que a curvatura da Terra fraca, alcance se estende — o que os operadores chamam de “lift”.
  • dN/dh mais negativo que −157 N/km: aprisionamento. Forma duto. A onda fica confinada horizontalmente.

Os meteorologistas que trabalham com radar costumam usar uma variante chamada refratividade modificada M, que já incorpora o efeito da curvatura terrestre: M = N + 0,157·h, com h em metros. Num gráfico de M versus altura, o duto aparece como uma região onde M diminui ao subir — uma espécie de envelope que mantém a onda presa entre duas paredes invisíveis. Esse é o diagrama que radio-oceanógrafos vivem analisando.

Como o duto se forma na costa brasileira

Existem três mecanismos principais de duto na nossa costa. O inverno potencializa dois deles.

Duto de evaporação — sempre lá, mas baixo demais

Sobre águas tropicais, há um duto quase permanente alimentado pela própria evaporação superficial. O ar em contato com o oceano está saturado de vapor d’água; alguns metros acima, normalmente não está. Essa queda rápida de pressão de vapor faz a refratividade modificada M cair com a altura nos primeiros metros, formando um pequeno bolsão de captura. A altura típica varia de um ou dois metros em latitudes médias durante noites de inverno até cerca de 40 metros em latitudes equatoriais em tardes de verão.

Aqui vai a má notícia para quem opera 144 MHz: dutos de evaporação são geralmente baixos demais para capturar o nosso comprimento de onda. Em 2 metros, o duto precisaria ter espessura útil da ordem de dezenas de metros para guiar o sinal com eficiência. Esses dutos rasos são protagonistas em radar marítimo de banda X (acima de 3 GHz), onde o comprimento de onda cabe confortavelmente dentro deles. Para o radioamador de VHF, eles são coadjuvantes — contribuem em alguns dB sobre o mar, mas raramente sozinhos explicam um QSO transatlântico.

Duto por inversão de subsidência — o protagonista do inverno

Aqui entra o ASAS de cabeça. O anticiclone subtropical é uma região de alta pressão onde o ar desce em larga escala — fenômeno chamado subsidência. Ao descer, esse ar é comprimido e se aquece adiabaticamente, formando uma camada quente e seca em altitude, normalmente entre 800 e 2.000 metros sobre o oceano. Abaixo dela, o ar marinho mais fresco e úmido fica engaiolado pela inversão térmica.

O contraste vertical de umidade entre essas duas camadas é o que faz dN/dh despencar abaixo de −157 N/km. Pulsos de 30 a 80 unidades-N de salto em algumas centenas de metros não são raros sobre o Atlântico Sul no inverno — basta isso para aprisionar perfeitamente um sinal de 144 MHz. Esse é, sem dúvida, o duto que paga o boleto para nós: profundo o suficiente para o comprimento de onda de 2 metros, extenso o suficiente para cobrir o trecho Vitória–Salvador ou Rio–Florianópolis sobre o mar.

Inversão de radiação noturna — o duto continental

À noite, com céu limpo e ventos fracos (condição típica de massa anticiclônica), o solo perde calor por irradiação infravermelha e esfria rapidamente. Forma-se uma camada fria junto ao chão, com ar mais quente em cima — outra inversão. Esses dutos são rasos (50 a 300 metros) e funcionam do anoitecer até meio da manhã seguinte, quando o sol começa a desfazer a estratificação por convecção.

Há uma assimetria interessante no comportamento: trajetos terrestres tendem a ser mais fortes ao nascer do sol e enfraquecem durante a tarde, enquanto trajetos sobre água costumam ser mais consistentes no meio da tarde e perdem força ao amanhecer. Em caminhos mistos — saindo do litoral para o interior — a melhor janela costuma ser o começo da manhã, quando os dois mecanismos se sobrepõem brevemente.

Por que o litoral sudeste-sul reúne tantos ingredientes

Alguns fatores combinados explicam por que nossa costa de Santa Catarina ao norte do Espírito Santo é particularmente generosa em tropo no inverno.

contraste térmico mar-ar é elevado. A Corrente do Brasil ainda transporta água relativamente morna em julho — algo em torno de 21–23 °C na altura do Rio, 18–20 °C em Santos —, enquanto as frentes frias que sobem pelo Sul deixam o ar continental e marítimo costeiro entre 10 e 15 °C. Esse delta de temperatura, somado à umidade superficial alta, é cardápio clássico de duto.

subsidência permanente do ASAS posiciona a alta sobre a costa quase o ano inteiro, com intensidade máxima entre maio e setembro. Estudos do IAG-USP mostram que, no inverno, a alta sobe ligeiramente em latitude e ganha pressão central — o que reforça as condições de céu limpo, ar parado e inversão de subsidência sobre o oceano.

ressurgência costeira entre Cabo Frio e Cabo de São Tomé, no norte fluminense, injeta gradiente térmico extra na costa. Ventos de nordeste empurram a água quente superficial para o mar aberto, e a água fria profunda aflora para a superfície. Esse contraste local potencializa dutos sobre trechos curtos — é uma das razões pelas quais aberturas envolvendo estações entre Macaé, Búzios e Rio se materializam com tanta frequência mesmo em distâncias modestas.

geometria oceânica do Atlântico Sul completa o quadro. Ao contrário do Atlântico Norte, dominado por sistemas frontais móveis, o Atlântico Sul tem o ASAS quase estacionado, o que dá previsibilidade a quem planeja perseguir aberturas. Esse mesmo padrão é responsável pelo corredor marítimo Brasil–África ainda muito pouco explorado pelo radioamadorismo.

Tipos de propagação em VHF/UHF — onde tropo se encaixa

Vale fixar um quadro mental dos modos disponíveis em VHF/UHF no Brasil. Misturar os mecanismos é um erro comum mesmo entre operadores experientes.

Linha de visada e troposcatter

A linha de visada é o pão com manteiga. Cobre 30 a 100 km dependendo da altura das antenas. O troposcatter — dispersão por irregularidades aleatórias da troposfera — está praticamente sempre presente e permite contatos diários de 500 a 900 km em 144 MHz para quem tem boa estação (Yagi de 12+ elementos, pré-amplificador de mastro, baixa NF de receptor e algumas centenas de watts). É um modo “silencioso” porque exige operação consistente, mas funciona o ano inteiro.

Lift troposférico

A super-refração leve, sem duto fechado, é o que se costuma chamar de “lift”. O alcance se estende em algumas centenas de quilômetros além do troposcatter. Sinais ficam mais limpos, com pouca distorção. Dura de algumas horas a dois dias.

Dutos de superfície e elevados

O duto de superfície faz o sinal tocar o solo (ou o mar) periodicamente entre cada refração. Sobre o oceano, a reflexão é quase perfeita — perda de menos de 0,5 dB por reflexão; sobre terra, a perda é alta e o duto degrada rápido. Por isso aberturas marítimas se sustentam tão melhor.

O duto elevado fica suspenso entre duas camadas, sem tocar a superfície. Estações em vales podem não escutar absolutamente nada, enquanto operadores em torres altas ou em montanhas conseguem “enfiar” a antena dentro do duto. Os apelidos populares — “tropo wormhole”, “buraco de minhoca troposférico” — descrevem bem o fenômeno: a estação distante aparece nítida, sem nada no meio do caminho, como se houvesse um atalho rasgado na atmosfera.

Esporádica-E e TEP — não confunda

Em 50 MHz e ocasionalmente em 144 MHz, a Esporádica-E (Es) aparece com sinais fortíssimos e instáveis, vindos de nuvens ionizadas a 90–120 km de altitude. Pico no Brasil em dezembro–fevereiro, com pico secundário em maio–junho. Quem opera 6 metros mantém o FT8 ligado em 50,313 MHz mesmo no inverno por causa desse pico secundário.

Propagação Transequatorial (TEP) é mecanismo ionosférico que cruza o equador magnético, com picos próximos aos equinócios de março–abril e setembro–outubro. Rota é sempre norte-sul. Em 144 MHz é raríssima, mas em 50 MHz acontece e rende QSOs com Argentina, Caribe e até América Central.

Como diferenciar no ar:

  • Tropo: sinal estável, voz natural em SSB, QSB lento, áudio “limpo” como se a estação estivesse próxima.
  • Esporádica-E: sinal forte mas volátil, fading agressivo, vai de S9 ao ruído em segundos.
  • TEP: distorção peculiar, tom “rouco” em CW, característica da rota ionosférica equatorial.

Aurora é praticamente inexistente para fins práticos no Brasil — estamos a uma latitude magnética baixa demais. Já a EME (Moonbounce) depende de equipamento mais robusto e antenas grandes, mas é independente de estação atmosférica.

ASAS, frentes frias e a janela do inverno

O caso brasileiro é interessante porque opera contra a intuição internacional. Boa parte da literatura — em particular textos do Hemisfério Norte temperado — aponta o verão e o outono como pico de tropo. Aqui no Sudeste e Sul, o calendário é outro: o anticiclone semipermanente do Atlântico Sul cria condições mais consistentes entre maio e setembro, quando está mais bem posicionado em latitude e mais intenso em pressão central.

As frentes frias que sobem pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná são parte do enredo. Na zona de contato entre a massa polar e a massa tropical há mudanças quase em degrau de temperatura e umidade — descontinuidades que mexem fortemente no gradiente de N. O período imediatamente pré-frontal (quente e úmido) e o pós-frontal imediato (frio e seco) rendem aberturas curtas e intensas. Quem opera 2 metros aprende rápido a olhar a carta sinótica antes de tentar uma sessão de DX.

Os nevoeiros de radiação que se formam à noite no interior de São Paulo, no sul de Minas, em Curitiba e em vales gaúchos são marcadores visíveis das condições anticiclônicas estáveis. Quando o noticiário menciona “inversão térmica” em alguma capital, é hora de ligar o rádio. Não por coincidência — é exatamente o mesmo mecanismo físico.

E há o lado limitante. A Serra do Mar e a Mantiqueira são barreiras significativas para tropo continental no Sudeste; cordilheiras altas formam paredes físicas à propagação troposférica. Por isso, para o operador litorâneo, o melhor caminho útil costuma ser o oceano. Quem mora em Belo Horizonte, Ouro Preto ou cidades do interior de Minas precisa contar mais com troposcatter de longa distância e aberturas pontuais por dutos elevados que ultrapassem o relevo.

Na Amazônia e no Nordeste interior, o jogo principal não é tropo — é TEP. A dominância da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) atrapalha caminhos troposféricos longos rumo ao Caribe, e a meteorologia equatorial é instável demais para sustentar dutos extensos.

O caso PY1MHZ × ZD7GWM: 3.768 km em 144 MHz

Em 7 de dezembro de 2024, Marcos PY1MHZ, operando do Rio de Janeiro, completou um QSO em 144 MHz com Garry ZD7GWM, na Ilha de Santa Helena, a 3.768 km. Marcos rodava 200 W em uma vertical de 8 elementos. Garry estava com uma Diamond X700 vertical e 50 W. Trajeto: praticamente todo sobre o Atlântico Sul, via duto marítimo.

O contato é histórico por vários motivos. Primeiro, porque rompe a barreira psicológica dos 3.500 km em 2 metros pela costa brasileira. Segundo, porque levanta a pergunta inevitável: se PY → ZD7 funciona, então PY → costa ocidental da África (Angola, Namíbia, Cabo Verde) também deveria funcionar. O problema é que há pouquíssimas estações ativas em VHF na costa oeste africana — e o duto, por mais que se forme, precisa de alguém do outro lado escutando.

A região do Skeleton Coast, na Namíbia, é um análogo do nosso litoral sul, mas em escala maior: a corrente fria de Benguela bate contra o ar quente do deserto, criando dutos quase permanentes em determinadas épocas. Contatos entre África do Sul e Santa Helena (em 2m e 70cm) já são relativamente comuns. O Brasil tem todos os ingredientes para ocupar esse espaço — falta só estações no ar do lado de cá com paciência e equipamento adequado para vigiar as aberturas.

Estação para perseguir tropo: o que importa

Não dá para falar de tropo sem falar do que está no mastro. Antena, polarização e altura definem se o operador vai colher a abertura ou perdê-la.

polarização horizontal é o padrão internacional para DX em VHF/UHF SSB/CW. Yagis horizontais reduzem a captação de ruído urbano (que predomina na polarização vertical, herdada do FM móvel) e aproveitam melhor a polarização original dos sinais de outras estações também horizontais. Segundo POLARIZAÇÃO DE ANTENAS: Perdas e Ruído, a discrepância de polarização entre transmissor e receptor pode introduzir perdas teóricas de até 20 dB no pior caso, embora na prática a despolarização parcial pelo trajeto atenue esse valor — o que reforça a importância de operar na mesma orientação que a comunidade DX.

Quando o caminho é predominantemente marítimo e as estações do outro lado do duto operam em vertical (caso de muitos operadores na costa ocidental africana, que mantêm verticais multifaixa para repetidora), a vertical pode ser a escolha mais inteligente. O contato PY1MHZ × ZD7GWM aconteceu com ambos em vertical.

Para quem está começando ou quer uma antena de banda dupla cobrindo 144 e 432 MHz como vigília permanente, há boas referências de construção caseira. O artigo Antena Dipolo Vertical VHF/UHF de Banda Dupla: Conceito, Construção e Ajustes descreve uma configuração simples, eficiente e que cabe em sacada urbana — útil tanto para monitorar repetidoras quanto para captar aberturas iniciais de tropo nos primeiros indícios.

Para DX troposférico mais agressivo em 2 metros, uma Yagi clássica é o caminho. Segundo Antena VHF/UHF PA0FBK, o projeto desenvolvido pelo radioamador holandês PA0FBK é uma referência consolidada em construção caseira de Yagis para VHF e UHF, com geometria otimizada para ganho frontal e relação frente-costas adequada para sessões de DX. Uma Yagi de 9 a 12 elementos em 2 metros, montada a pelo menos 10 metros do solo e com pré-amplificador no mastro, já coloca o operador em condições competitivas para aberturas troposféricas.

Outros itens que fazem diferença:

  • Coaxial de baixa perda — RG-213 é o piso; LMR-400 ou cabos de Andrew Heliax são a escolha sensata para mais de 15 metros de descida.
  • Pré-amplificador no mastro com NF abaixo de 0,5 dB, alimentado por bias-T pelo próprio coaxial.
  • Rotator com leitura azimutal precisa — em duto marítimo, alguns graus de erro tiram a estação do “feixe” do duto.
  • Filtros de banda passante se o operador estiver perto de transmissores de FM comercial, TV digital ou serviços móveis.

Ferramentas de previsão e monitoramento

Não dá para “caçar” tropo só pelo feeling. As ferramentas online tornaram o jogo muito mais previsível na última década.

Os mapas de William Hepburn (em dxinfocentre.com/tropo.html) oferecem previsões de seis dias para o mundo todo, incluindo o Atlântico Sul. O mapa colore regiões pela intensidade prevista de condições de duto e super-refração. É leitura quase obrigatória de quarta-feira em diante para planejar o fim de semana.

Os mapas F5LEN (em tropo.f5len.org) usam modelagem atmosférica mais refinada e, especialmente importante para nós, incluem um mapa do Atlântico Sul criado a pedido das equipes FY5KE (Guiana Francesa) e PJ4VHF (Bonaire). É o melhor recurso disponível em português ou inglês para previsão tropo cruzando da costa brasileira em direção à África ou ao Caribe.

mapa APRS de propagação VHF (em aprs.mennolink.org) mostra atividade real em torno de 144 MHz a partir de pacotes APRS capturados em estações distantes do transmissor. Quando aparecem trajetos longos coloridos em laranja ou vermelho — dizendo, por exemplo, que uma estação no Rio Grande do Sul está sendo recebida no Espírito Santo —, há tropo acontecendo agora.

Outros recursos práticos: o DX Cluster filtrado por VHF (em sites como dxsummit.fi ou via Telnet), e a vigília na faixa de beacons de 144,275 a 144,490 MHz. Os beacons de PY1AA, LU6DRV, ZS1VHF e outros funcionam como termômetros de longa distância — se você escuta um beacon de 1.500 km com clareza, é hora de chamar CQ.

Frequências e modos de operação

Para perseguir aberturas em VHF/UHF no Brasil:

  • 6 metros (50 MHz): chamada em SSB em 50,110 MHz; FT8 em 50,313 MHz; CW em 50,090 MHz.
  • 2 metros (144 MHz): chamada em SSB em 144,200 MHz (a frequência de DX por excelência); FT8 em 144,174 MHz; CW na faixa baixa entre 144,025 e 144,100 MHz.
  • 70 centímetros (432 MHz): chamada em SSB em 432,200 MHz; FT8 em 432,174 MHz.

Repetidoras locais em FM podem ser bons indicadores indiretos de aberturas — quando você passa a ouvir uma repetidora a 300 km que normalmente não escuta, há algo acontecendo. Mas a operação séria de DX troposférico não é em FM, é em SSB, CW ou FT8. O FT8, em particular, transformou a perseguição de aberturas marginais: o modo decodifica sinais a até −24 dB SNR, o que captura aberturas tropo borderline que seriam imperceptíveis em SSB.

Passo a passo: como aproveitar uma temporada de tropo

Para o operador que ainda não tem rotina estabelecida, eis um roteiro prático:

  1. Quarta-feira: consulte os mapas Hepburn e F5LEN. Identifique se há previsão de condições super-refrativas ou de duto sobre a costa para o fim de semana.
  2. Quinta e sexta: monitore o boletim do INPE e cartas sinóticas. Note posições do ASAS e localização de frentes frias. ASAS forte e estacionado, com frente fria distante do litoral, é cenário ideal.
  3. Sábado de manhã, antes do nascer do sol: ligue o rádio em SSB em 144,200 MHz e em FT8 em 144,174 MHz. As inversões noturnas estão no auge nesse momento.
  4. Aponte a antena para o azimute do trajeto previsto — em geral, ao longo da costa (045°–225° dependendo da sua latitude) ou cruzando o Atlântico (azimute aproximado de 090° a 120° para Santa Helena, África Ocidental).
  5. Decode o tráfego FT8 por pelo menos 30 minutos antes de chamar CQ. O mapa de pskreporter.info mostra onde sua transmissão está sendo recebida quase em tempo real.
  6. Para trajetos marítimos no Sudeste, a janela das 14h às 19h locais tende a ser melhor — a inversão de subsidência sobre o mar está bem desenvolvida e a turbulência diurna do continente diminui.
  7. Registre tudo no log com data, hora UTC, sinal recebido, sinal enviado, modo e — esta parte é importante — condição meteorológica observada localmente.

Esse último ponto é o que constrói experiência ao longo de duas ou três temporadas: o operador aprende a correlacionar pressão local, temperatura, ponto de orvalho e direção do vento com aberturas reais. Em alguns anos você passa a “prever” tropo pelo cheiro do ar — literalmente, porque o ar seco e estável tem um cheiro diferente do ar instável.

Estudo de caso: o trajeto Rio–Salvador

O trajeto entre Rio de Janeiro e Salvador, predominantemente sobre o oceano, tem cerca de 1.300 km. Em condições normais é completamente fora do alcance de 144 MHz — não há lift troposférico moderado capaz de cobrir essa distância continentalmente.

Em julho e agosto de anos típicos, porém, aberturas via duto marítimo de superfície sobre o ar abaixo da inversão de subsidência do ASAS materializam contatos com regularidade. Sinais de PY1, PY2 e PY6 são intercambiados em SSB com S5 a S9, e em FT8 com SNR entre −10 e +5 dB. As aberturas frequentemente duram de 4 a 12 horas, com pico no fim da tarde.

A geometria favorece: trajeto quase 100% marítimo, sem barreiras orográficas, com o ASAS estabilizando a inversão. Quando a inversão sobe para 1.500 metros ou mais, o duto fica largo o suficiente para acomodar até reflexões em ângulo de elevação maior, ampliando a capacidade da abertura para frequências mais altas — em alguns eventos relatados, foram realizados QSOs simultâneos em 144 MHz e 432 MHz nesse mesmo trajeto.

FAQ — perguntas frequentes sobre tropo no Brasil

O que é exatamente um duto troposférico? É uma região da baixa atmosfera onde o índice de refração diminui com a altura de forma tão acentuada que a onda de rádio fica aprisionada horizontalmente, como luz dentro de uma fibra óptica. O sinal viaja muito além do horizonte normal porque é refratado de volta repetidamente.

Em que faixa de frequência o tropo funciona melhor? A propagação troposférica afeta toda a faixa acima de 50 MHz, mas é mais previsível e estável de 144 MHz até as micro-ondas (10 GHz). Em 50 MHz, tropo se sobrepõe a outros modos (Es, TEP) e fica difícil isolar. Em 144 MHz e acima, quando você está em tropo, sabe que é tropo.

Qual é a melhor época do ano no Brasil? De maio a setembro para o litoral Sudeste e Sul, com pico em julho e agosto. O início da primavera (setembro–outubro) ainda mantém condições razoáveis. Em janeiro–fevereiro, a propagação troposférica de longa distância é rara — a atmosfera está muito instável por causa do calor e da convecção.

Preciso de muita potência? Não. O contato PY1MHZ × ZD7GWM em 3.768 km foi feito com 200 W de um lado e 50 W do outro. Em duto bem formado, a perda de trajeto pode ser comparável a um enlace ponto-a-ponto de algumas dezenas de quilômetros. Antena, altura e baixa figura de ruído do receptor importam muito mais do que potência bruta.

Qual a diferença entre tropo, Esporádica-E e TEP? Tropo é meteorológico (troposfera, abaixo de 12 km). Es e TEP são ionosféricos (ionosfera, acima de 90 km). Tropo melhora no inverno, Es tem pico no verão, TEP nos equinócios. Tropo é estável e silencioso; Es é selvagem e oscilante; TEP é distorcido e ruidoso.

Onde devo apontar a antena? Para a maioria dos PYs no Sudeste, os azimutes mais produtivos são entre 030° (apontando para PY1, PY6, PY8) e 220° (apontando para PY5, PY3, LU). O azimute para Santa Helena fica em torno de 105° a partir do Rio. Para captar duto vindo do Atlântico Sul, faça varreduras lentas entre 080° e 130°.

Posso pegar tropo de FM em viatura? Sim, mas com baixa probabilidade de DX em SSB/CW. A polarização vertical e antenas curtas no veículo limitam ganho. Repetidoras a 200–400 km podem aparecer durante aberturas — útil para confirmar que está acontecendo algo, mas não é cenário para QSOs de DX.

Tropo afeta TV digital, telefonia celular ou Wi-Fi? Sim. Em aberturas fortes, sinais de TV digital de outras regiões podem causar interferência. Operadores de redes celulares e ISPs em links ponto-a-ponto em micro-ondas conhecem bem o fenômeno — eles o chamam de “ducting” e ele é a principal causa de degradação sazonal de enlaces no litoral brasileiro entre maio e setembro.

Como sei se uma abertura é tropo ou apenas troposcatter forte? Troposcatter mantém sinais estáveis e fracos, normalmente abaixo de S3, com ruído de fundo característico (uma espécie de “água correndo”). Tropo eleva sinais acima de S5 sem ruído de scatter, com áudio limpo. Se você escuta uma estação a 1.500 km com áudio comparável a uma local, é duto.

Vale a pena instalar antena horizontal só para tropo? Para quem está em ambiente urbano com ruído, sim. A polarização horizontal corta significativamente o ruído elétrico vertical, e isso muda a relação sinal-ruído antes de qualquer pré-amplificador entrar em ação. É o investimento que dá retorno mais visível na escuta diária.

Próximo passo: o radioamador como observador atmosférico

Há uma faceta do tropo que vai além do esporte: o operador de VHF, na prática, opera como sensor atmosférico distribuído. Cada QSO registrado em log com data, hora, sinal, polarização e azimute alimenta — em tese — uma base de dados sobre como o ASAS, as inversões e a interface costa-oceano se comportam ao longo das décadas.

Comece pequeno: nos próximos sete dias, monte uma planilha simples com colunas para data, hora UTC, estação contactada, modo, SNR (em FT8) ou força de sinal (em SSB), azimute apontado, e três campos de meteorologia local — temperatura, ponto de orvalho e pressão barométrica. Em três meses você terá um dataset pessoal que correlaciona suas próprias aberturas com a meteorologia da sua estação. Esse cruzamento, repetido por dezenas de operadores ao longo da costa, é mais valioso para entender o ASAS no século XXI do que muitas dissertações acadêmicas — porque vem com cadência diária e do nível do mar.

A próxima frente fria que passar pelo litoral é o seu laboratório. O 2 metros está esperando.


Sobre o autor

Carlos Rincon — PY2CER — é radioamador com atuação em VHF e UHF, com interesse específico em propagação troposférica no Atlântico Sul e em construção de antenas para 144 MHz e 432 MHz. Publica regularmente sobre propagação e antenas em parceria com AntenaAtiva.

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