Radioamadores de Campinas recebem título militar!

Dupla devolveu ao funcionamento um receptor National HRO-50 dos anos 1950, ligado às origens das comunicações do batalhão

Dois radioamadores de Campinas, Jorge (PY2PVT) e Carlos Rincon (PY2CER), receberam na quinta-feira (21) o Título de Amigo da 2ª Companhia de Comunicações Mecanizada, em cerimônia que reconheceu o trabalho de restauração de um receptor National HRO-50, equipamento que teria estado entre os primeiros usados pela unidade. A honraria foi entregue pelas mãos do general de brigada Deocleciano José de Santana Netto.

O reconhecimento não premiou um discurso nem uma doação em dinheiro. Premiou paciência técnica o tipo de habilidade que faz uma válvula de mais de setenta anos voltar a aquecer e um ponteiro voltar a percorrer o dial.

A peça em questão tem biografia própria. O HRO-50 foi fabricado pela National Radio Company, de Malden, em Massachusetts, entre 1949 e 1950. Trouxe novidades para a linhagem HRO, então uma das mais respeitadas do mundo: discos de sintonia e fonte de alimentação embutidos, amplificador de áudio em push-pull e desempenho aprimorado.

Para entender por que um militar brasileiro guardava uma máquina dessas, é preciso recuar um pouco mais.

Um receptor que atravessou guerras

A família HRO nasceu em 1935 e virou lenda antes mesmo de chegar ao Brasil. O receptor original usava válvulas e um sistema de bobinas plugáveis com sintonia micrométrica um arranjo mecânico tão preciso quanto incomum para a época.

A reputação do aparelho se consolidou na Segunda Guerra Mundial. Estima-se que mais de 10 mil unidades tenham sido enviadas ao Reino Unido, muitas operando nas chamadas Y Stations, postos de escuta que interceptavam as comunicações alemãs depois encaminhadas a Bletchley Park, o centro britânico de quebra de códigos.

A demanda militar foi tão intensa que, segundo relatos da própria fabricante, as Forças Armadas norte-americanas teriam dito à National: “Comecem a construir HROs. Avisaremos quando parar.”

O design tornou-se referência mundial. Antes, durante e depois da guerra, o conceito de bobinas plugáveis e sintonia micrométrica foi copiado em vários países, incluindo Alemanha e Japão.

É esse pedaço de história das telecomunicações que Jorge e Carlos colocaram de volta em operação não numa vitrine de museu, mas como rádio funcional.

O que a homenagem representa

Na cerimônia, o general Deocleciano José de Santana Netto destacou o papel dos radioamadores. O comandante da 2ª Cia Com, capitão Luiz Coutinho, foi além do batalhão: ressaltou a relevância da atividade para a população brasileira como um todo.

A fala do oficial encontra eco em situações concretas. Quando enchentes, deslizamentos ou apagões derrubam redes de celular e internet, são frequentemente os radioamadores que mantêm um canal de comunicação aberto entre áreas isoladas e equipes de socorro. A estrutura é simples e independente de torres de operadoras exatamente o que falta quando a infraestrutura comercial cai.

Esse é o ponto que une o exército e o hobby. Comunicação que não depende de mais ninguém para funcionar.

Quantos são os radioamadores no Brasil

A atividade reúne um contingente maior do que muita gente imagina. Segundo o Ministério das Comunicações, o país tem mais de 44 mil radioamadores.

O número tem relação direta com a forma de ingresso. Desde a Portaria Anatel nº 792, de junho de 2020, as provas de habilitação passaram a ser aplicadas majoritariamente no formato on-line, em razão da pandemia de covid-19 uma mudança que facilitou o acesso de novos operadores ao serviço.

A gestão das licenças também migrou para o ambiente digital. Em março de 2026, a Anatel lançou o módulo MMAR dentro do sistema Mosaico, pelo qual os próprios radioamadores podem solicitar serviços, acompanhar pedidos em tempo real e emitir a licença pela internet.

Cada operador é identificado por um indicativo único, atribuído pela Anatel não pode ser escolhido pelo usuário. As estações brasileiras usam as séries de prefixos que vão de PP a PY e de ZV a ZZ. Os indicativos da dupla homenageada em Campinas, PY2PVT e PY2CER, seguem esse padrão: o “2” marca a região de São Paulo.

Os bastidores do feito

Por meio de Carlos Rincon (PY2CER), o portal Antena Ativa registrou agradecimento aos radioamadores que acompanharam a cerimônia: Rubens (PY2VE), Bruno (PY2JYV), Rafael Pata (PY2PI), além de Macedo e Felipe (Pé de Vento).

A presença coletiva diz algo sobre a natureza da atividade. Diferentemente de outros passatempos técnicos, o radioamadorismo é, por definição, relacional não existe contato de rádio sem alguém do outro lado respondendo à chamada.

O episódio em Campinas condensa três camadas que costumam andar separadas: a preservação de patrimônio técnico, o reconhecimento institucional das Forças Armadas e a divulgação de uma prática que segue relevante mesmo na era do 5G.

A National Radio Company encerrou suas atividades há décadas. O HRO-50 restaurado pela dupla, no entanto, voltou a captar sinais e, com o título concedido pela 2ª Cia Com Mec, ganhou também um lugar formal na memória de uma unidade militar que ajudou a fundar.

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