Desenvolvido pelo radioamador Alexandro do Prado Perina (PU2REY), o sistema roda em servidor local com o framework Ollama e transmite voz pelo codec Opus, sem depender de serviços em nuvem.
Por Carlos Rincon (PY2CER) — Antena Ativa Rio Claro (SP), 23 de maio de 2026
A repetidora PY2KCT, instalada na torre da Prefeitura de Rio Claro (SP), dentro do Núcleo Administrativo Municipal (NAM), passou a operar com uma inteligência artificial chamada EVA. Criada pelo radioamador Alexandro do Prado Perina (PU2REY), a plataforma automatiza a comunicação na frequência, monitora o tráfego de mensagens e abre um canal direto de alertas para a Defesa Civil do Estado de São Paulo. Todo o processamento acontece em servidor local, com as linguagens Python e PHP e o framework de IA Ollama, sem envio de dados para a nuvem.
A iniciativa parte de uma pergunta que ronda o radioamadorismo há alguns anos: o que acontece quando uma repetidora deixa de ser apenas um equipamento de retransmissão e passa a interpretar o que circula por ela?
“A ideia foi transformar a repetidora em uma plataforma de experimentação, sem abrir mão do espírito colaborativo do rádio amador”, afirma Perina. “EVA não substitui o operador. Ela organiza o ambiente e libera tempo para o que importa.”
O que muda na operação da repetidora
Numa repetidora convencional, o equipamento recebe o sinal de uma estação e o retransmite com mais alcance. A inteligência fica toda do lado humano. Com a EVA, parte dessa camada lógica passa a rodar junto da infraestrutura.
O sistema reconhece mensagens, responde de forma automatizada e mantém registro do que ocorre na frequência. A interação acontece em tempo real, sem intervalo perceptível para quem está do outro lado do microfone.
A arquitetura combina duas linguagens. O Python cuida da camada de inteligência e do tratamento das mensagens. O PHP sustenta o módulo de agenda, avisos e lembretes, responsável por centralizar comunicados operacionais.
A escolha por duas linguagens não é estética. Ela separa o que é processamento de linguagem do que é gestão de conteúdo, e deixa cada parte mais simples de manter e de expandir.
Processamento local com o framework Ollama
O ponto que mais distingue a EVA de assistentes comerciais é onde a inteligência mora. Em vez de enviar áudio e texto para servidores de terceiros, a plataforma usa o Ollama, framework que executa modelos de linguagem na própria máquina.
O modelo adotado tem cerca de três bilhões de parâmetros, escala que roda em hardware acessível e dispensa conexão permanente com a internet para funcionar.
“Tudo roda em servidor local. O áudio e as mensagens não saem da nossa infraestrutura”, explica Perina. Para uma estação ligada à Defesa Civil, esse desenho tem peso: em uma emergência, a comunicação não pode depender de um link externo que pode cair justamente quando é mais necessário.
A operação local também responde a uma preocupação recorrente entre radioamadores quando o assunto é IA — a de manter o controle sobre os dados que trafegam pela própria estação.
Voz transmitida pelo codec Opus
Para a parte falada, a EVA converte e transmite áudio pelo codec Opus. A escolha tem justificativa técnica direta.
O Opus é reconhecido pela qualidade de som combinada à baixa latência, característica decisiva em rádio e em redes digitais, onde qualquer atraso quebra o ritmo natural de uma conversa. O mesmo codec é padrão em boa parte das aplicações de voz pela internet, o que facilita futuras integrações com sistemas digitais.
Na prática, isso significa que as respostas faladas da EVA chegam com inteligibilidade próxima à de uma transmissão humana, sem o som metálico e o atraso que comprometem soluções mais antigas de síntese de voz.
Agenda, avisos e o canal com a Defesa Civil
O módulo desenvolvido em PHP é o que conecta a EVA ao serviço público. Por ele, equipes autorizadas e órgãos de Defesa Civil podem disparar alertas meteorológicos, comunicados emergenciais e mensagens de utilidade pública diretamente pela infraestrutura da repetidora.
O acesso é dedicado e restrito a equipes credenciadas, modelo pensado para evitar uso indevido do canal de alertas.
A função aproxima a PY2KCT de um papel histórico do radioamadorismo: o de rede de comunicação de emergência. Em situações de temporal, enchente ou queda das redes convencionais, a frequência segue ativa, e agora com capacidade de difundir avisos de forma mais ágil e padronizada.
“Quando a Defesa Civil precisa avisar a população, cada minuto conta”, diz Perina. “O sistema permite que esse aviso entre no ar de forma rápida e organizada.”
Operação dentro das regras do radioamadorismo
A EVA foi configurada para respeitar as diretrizes que regem o serviço de radioamador no Brasil, regulamentado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Isso inclui a vedação a uso comercial da frequência e a obrigação de manter a comunicação dentro de finalidades técnicas, experimentais e de utilidade pública.
A programação reforça princípios que o meio cultiva há décadas: boa conduta, cordialidade operacional e apoio comunitário. O comportamento automatizado foi ajustado para manter o ambiente da repetidora organizado e educativo, em vez de poluí-lo com respostas desnecessárias.
Esse cuidado responde a um receio comum entre operadores mais experientes — o de que automação na frequência signifique ruído ou perda de controle sobre o que vai ao ar.
Um laboratório dentro da repetidora
O radioamadorismo nasceu da experimentação, e a EVA se apresenta como um capítulo recente dessa tradição. A plataforma reúne, em uma única estação, técnicas de processamento de linguagem natural, transmissão digital de voz e gestão automatizada de comunicados.
Para a comunidade de Rio Claro e região, o resultado é uma repetidora que serve a três públicos ao mesmo tempo: o radioamador que usa a frequência no dia a dia, a Defesa Civil que precisa de um canal confiável de alertas e o experimentador curioso para entender como IA local se comporta no ar.
A arquitetura foi pensada para crescer. Segundo o desenvolvedor, a base em Python e PHP deixa o sistema preparado para receber novos módulos sem reescrever o que já existe — uma forma de manter o projeto vivo à medida que surgem demandas.
Perina trata a versão atual como um ponto de partida, não de chegada. “É um sistema que vai evoluir junto com quem usa”, afirma. “Quem opera na frequência também ajuda a definir o que vem pela frente.”
A próxima etapa, segundo o desenvolvedor, é ampliar a integração com redes digitais e refinar o módulo de alertas a partir do retorno das equipes de Defesa Civil que já têm acesso ao canal.




Antena Ativa acompanha o desenvolvimento de projetos de tecnologia aplicada ao radioamadorismo. Sugestões de pauta e correções podem ser encaminhadas à redação.



